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Internacional

Historiador britânico pede mais estudos sobre norte de Moçambique

Professor de assuntos portugueses e africanos na universidade King's College considera que o país está dividido entre o norte e o sul, em grande parte devido à fronteira geográfica imposta pelo rio Zambeze

O historiador britânico Malyn Newitt considerou nesta quarta-feira que o norte de Moçambique merece ser mais estudado devido ao seu potencial económico, mas também para perceber melhor um território onde se têm verificado problemas recentemente.

"Ainda penso que o norte de Moçambique está pouco investigado", afirmou hoje no Instituto Real de Relações Internacionais, conhecido por Chatham House, no âmbito de uma conferência intitulada "Inclusão Económica e Democrática em Moçambique: perceber as perspetiva no contexto do passado".

Autor de mais de 20 livros sobre Portugal e as colónias africanas, publicou recentemente "A Short History of Mozambique" [Uma História Breve de Moçambique], onde incluiu observações sobre a região escritas pelo consul britânico Henry O'Neill no final do século XIX. "Isso deu-me a perceção do quão pouco compreendemos o norte de Moçambique. Claro que não existem tantas fontes como sobre outras áreas de Moçambique, mas existem fontes arqueológicas e escritas. É importante por questões de política e de desenvolvimento", vincou.

Não só são esperados desenvolvimentos económicos previstos para o norte do país, nomeadamente a exploração de gás, mas aquela região também tem sido cenário de ataques violentos desde 2017 que causaram dezenas de mortos.

Atualmente aposentado Newitt, foi vice-reitor da Universidade de Exeter e professor na universidade King's College de assuntos portugueses e africanos, considera que o país está dividido entre o norte e o sul, em grande parte devido fronteira geográfica imposta pelo rio Zambeze.

Por outro lado, referiu, também existe uma diferença cultural "entre [o sistema] matriliniar e matrilocal do norte e [o sistema] patrilinear e patrilocal do sul".

Na opinião do historiador, o país está mais fragmentado a nível regional e não étnico, como acontece noutros países africanos. "Porque a população de Moçambique foi tão influenciada por estrangeiros e tem sido tão ambulante, as etnias em Moçambique são especialmente difíceis de estabelecer e fluidas. É muito difícil para muitos moçambicanos dizer que vieram de uma etnia única histórica", acrescentou.

No livro "Uma História Breve de Moçambique" hoje apresentado, cuja edição em português não está ainda prevista, Malyn Newitt invoca um conceito que chama de "agência africana", uma espécie de engenho que caracteriza a resistência passiva que africanos mostraram e que forçou as autoridades coloniais a mudarem a forma como agiam para conseguir a colaboração local.

"Ao longo da história, os africanos de Moçambique interagiram com indonésios, indianos, bem como europeus e portugueses e houve um constante processo de troca cultural, produzindo novas formações sociais, de actividade económica, alterações linguísticas e sistemas de fé", explicou o historiador.

Porém, adaptaram sempre as mudanças do exterior para satisfazerem os seus próprios sistemas culturais e um exemplo emblemático que o académico britânico invoca é o 'prazo', o modelo de concessão de terras em Moçambique pela coroa portuguesa desde o século XVII.

"Todos aqueles que estudaram este tópico enfatizaram como uma instituição supostamente parte da lei portuguesa e introduzida pelos portugueses evoluiu de formas múltiplas para se aproximar à cultura social e cultural africana e os escravos dos 'prazos', os chamados 'chicunda', encaixaram-se numa lógica africana de clãs e escravatura doméstica", explicou.

A conferência intitulada "Inclusão Económica e Democrática em Moçambique: perceber as perspetiva no contexto do passado", que reuniu juntou académicos e especialistas em assuntos africanos, especialmente relacionados com Moçambique, pretendeu discutir como é que a história da política e das relações internacionais do país continuam a influenciar decisões e resultados na atualidade.

Além de questões como as perspetivas económicas e políticas, abordou como as antigas e atuais relações com países da Europa Central e de Leste, como Alemanha ou Polónia, continuam a influenciar políticas para resolver divisões geográficas, partidárias e sociais moçambicanas.