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Kirstjen Nielsen ignorou gravação das crianças separadas dos pais na fronteira com o México

Joe Raedle

Numa conferência de imprensa que começou com um atraso de quatro horas, Kirstjen Nielsen, secretária de Segurança Interna dos Estados Unidos, negou que a administração norte-americana tenha criado uma política para separar famílias na fronteira com o México e garantiu que só haverá separação nos casos em que não se consiga determinar ligação de parentesco ou direito de custódia

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

“Não, esta administração não criou uma política para separar famílias na fronteira e não, não se trata de abuso de crianças, estamos simplesmente a fazer cumprir uma lei que o Congresso norte-americano aprovou e que as anteriores administrações negligenciaram.” Foram estas algumas das declarações feitas por Kirstjen Nielsen, secretária de Segurança Interna dos Estados Unidos, na conferência de imprensa que teve lugar na madrugada de terça-feira (hora portuguesa) na Ala Oeste da Casa Branca.

Kirstjen Nielsen tomou o lugar habitual da porta-voz Sarah Sanders com a missão de desfazer aquilo que considera serem os grandes mitos ou “fake news” sobre a política de tolerância zero para com os imigrantes ilegais que tentam entrar nos EUA a partir da fronteira com o México.

Kirstjen Nielsen, que no dia anterior tinhado chocado muitos ao dizer que se recusava a pedir “desculpa” pela separação de crianças das respetivas famílias com o México, durante um discurso na Associação Nacional de Xerifes em Nova Orleães, garantiu desta vez que os EUA são um país com “compaixão” e “coração” e afirmou que o único objetivo da nova lei é “proteger as crianças do contrabando, tráfico humano e outras ações criminosas”.

“Só haverá separação nos casos em que não conseguirmos determinar que há de facto uma relação de parentesco ou custódia atribuída.” Na mesma intervenção em Nova Orleães, Kirstjen Nielsen prometeu “consequências” para aqueles que “cometem ações ilegais”, independentemente de estarem ou não acompanhados por menores. “Este Governo tem uma mensagem simples: se cruzas a fronteira de forma ilegal, serás processado”, afirmou naquele momento.

Números para justificar o que para muitos não tem justificação

Durante a conferência de imprensa de terça-feira, que começou quatro horas depois do previsto, a secretária de Segurança Interna argumentou que nos últimos três anos entraram todos os meses ilegalmente no país mais de 50 mil pessoas, a partir da fronteira a sul. Desde o ano passado, acrescentou Kirstjen Nielsen, houve um aumento de 325% de crianças estrangeiras desacompanhadas a entrar nos EUA nestas condições (agregados familiares foram mais 435%).

A secretária negou que esteja em causa qualquer forma de abuso (e isto em resposta a um dos jornalistas presentes na conferência que a questionou diretamente sobre esta possibilidade) e argumentou que a atual administração “não criou uma política para separar famílias”, alegando também que “pais que entraram ilegalmente na fronteira dos EUA, muitas vezes em circunstâncias perigosas, são por definição criminosos e colocaram os seus filhos em risco”. O Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS, na sigla em inglês), acrescentou Kirstjen Nielsen, está “simplesmente a fazer cumprir uma lei que as anteriores administrações falharam em aplicar”.

As autoridades norte-americanas confirmaram na semana passada que cerca de 2000 migrantes menores foram separados das famílias na fronteira com o México nas últimas seis semanas, no âmbito da política de “tolerância zero” aos imigrantes que tentam entrar de forma irregular nos EUA. A decisão mereceu as maiores críticas por parte da oposição democrata e mesmo dentro do Partido Republicano está a causar algum desconforto. “Espero que ele mude de ideias. Isto é mau, muito mau para o Partido Republicano, e é mau também para o Presidente. Quero vê-lo a ser reeleito”, disse Anthony Scaramucci, antigo diretor de comunicação da Casa Branca, à “CNN”. Melania Trump, primeira-dama, emitiu um comunicado em que dizia “odiar ver” crianças separadas das suas famílias.

Os media internacionais, secundados pelas redes sociais, têm sido prolíficos em partilhar relatos sobre a situação dramática vivida por estas crianças, instaladas em armazéns convertidos em centros de detenção temporários e, em alguns casos, confinadas a espaços que têm sido comparados, e muito justamente, a jaulas ou a gaiolas.

Os choros das crianças que Kirstjen Nielsen ainda não ouviu

A dado momento da conferência de imprensa na Casa Branca, um dos jornalistas presentes, sentado a um canto da sala, mostrou o vídeo de vozes de crianças a chorarem pelos pais que foi obtido e divulgado na terça-feira pela organização não-governamental ProPublica, mas Kirstjen Nielsen não ouviu ou fingiu não ouvir.

Questionada logo de seguida sobre a existência de tal registo, a secretária de Segurança Interna disse que ainda não teve oportunidade de ouvi-lo. Na gravação, que terá sido captada nos centros de detenção temporários nos EUA, nas zonas de fronteira com o México, uma criança diz: “Eu não quero que eles parem o meu pai, não quero que eles o deportem”. Frase que merece de imediato o gozo de um dos agentes da polícia de fronteira ali por perto: “Bem, parece que temos aqui uma orquestra. Estamos a perder um maestro”, diz ele.

Durante a sua intervenção, Kirstjen Nielsen apelou ainda ao Congresso norte-americano para preencher as lacunas da lei de modo a que as famílias possam permanecer juntas. “O Congresso e os tribunais criaram este problema e só o Congresso poderá resolvê-lo. Até lá, vamos impor todas as leis que existem para defender a soberania e a segurança dos EUA”, acrescentou.

Sarah Sanders tomou, em seguida, o seu lugar no púlpito para garantir que a Casa Branca rejeitaria qualquer resolução do Congresso norte-americano sobre este assunto e para afirmar que as prioridades de Donald Trump, tais como financiar a construção de um muro na fronteira com o México e reforçar as leis da imigração, também deverão ser consideradas. “Queremos consertar todo o mecanismo, não apenas algumas das suas partes.”