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“Jovens islâmicos estão a ser aliciados”

Luís Barra

Para o professor e empresário Jaime Nogueira Pinto, os cada vez mais frequentes ataques islâmicos em Moçambique são um fenómeno novo e até certo ponto inesperado, embora surjam em linha com a evolução recente da situação no país

Luísa Meireles

Luísa Meireles

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Redatora Principal

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Jaime Nogueira Pinto é especialista em assuntos africanos. Nesta entrevista, vê com preocupação a multiplicação de ataques, por enquanto de grupos dispersos, mas aborda também a situação da Renamo, em fase de líder interino, e da Frelimo.

Como se explica a atividade dos grupos islâmicos em Moçambique?
O primeiro grande sinal foi o ataque em Mocimba da Praia, a 5 de outubro do ano passado, dirigido sobretudo a esquadras da polícia mas com ocupação de parte da cidade durante algumas horas. Num passado próximo, houve movimentos de deslocação de jovens de aldeias desta área, ocupada pela tribo dos muinis, muçulmanos sufis, que terão sido aliciados a deslocar-se para norte (Sudão, Somália, Quénia) e mesmo Arábia Saudita, para serem treinados na linha mais radical, wahabita. Os sufis são mais moderados e contemplativos

Qual é o objetivo?
Pode ser uma reação de jovens excluídos ao aparecimento de grandes projetos de investimento no Norte, ligados à exploração do gás natural Abrangem uma área entre Palma (extremo norte) e Mocimba da Praia, e são feitos por grandes operadoras internacionais como a Exxon Mobil, a Eni, ou os chineses da NPC, a Galp, e têm uma logística em terra. Moçambique espera que eles lhe resolva muitos dos seus problemas financeiros e económicos e a ideia de que estava a chegar uma grande fortuna a que estas populações não teriam acesso terá contribuído para esta mobilização inédita.

Não há islamismo radical em Moçambique?
Não, o país deve ter à volta de 20% da população muçulmana.

Parece contraditório. Se os ataques se verificam porque há notícia de que naquela zona vai haver mais riqueza, a sua presença inviabiliza a exploração dos projetos...
Se estes elementos corresponderem ao padrão, essa é a sua última preocupação. Estes grupos têm uma certa lógica de destruição irracional.

As forças militares têm capacidade de resposta?
Os incidentes têm continuado, isto foi inesperado. Por razões orçamentais, os efetivos militares e de segurança não estão equipados nem talvez preparados para este tipo de ofensiva.

O ambiente é de expectativa do próximo ataque?
Estes ataques têm-se dado em áreas e populações que de modo geral são relativamente difíceis de proteger. São aldeias dispersas, há uma proximidade de áreas costeiras onde se preparará a logística das grandes companhias que vão fazer a exploração do gás natural, como nos casos de Palma, Mocimba e Macumia. Estas companhias, pela sua própria experiência, estão habituadas a viver em áreas perigosas, que levantam problemas de segurança bastante complicados e difíceis. No princípio atacavam sobretudo polícias e forças militares, mas agora generalizaram a civis indefesos, o que é uma forma tradicional de impor a submissão pelo terror.

Todo este ambiente não se reflete este conflito nos investimentos portugueses?
Tem reflexo, mas os principais investimentos portugueses em Moçambique estão na banca, grandes empresas de construção e obras públicas e no turismo, com uma grande presença de cerca de 20 mil portugueses. Nesta zona a grande presença portuguesa é da Galp, no consórcio com a ENI. Há de estar atenta.

TIAGO MIRANDA

A situação pode ameaçar diretamente os seus interesses?
O que está subentendido é que as empresas tratarão sobretudo da segurança interna e enquanto o Governo garante a externa. Não se sabe como evoluirá a situação, mas até agora não houve nenhum ataque direto a instalações, nem a pessoas envolvidas e ninguém entrou em pânico. Por enquanto estamos a falar de grupos relativamente fragmentados. Se seguirmos com atenção o mapa dos ataques, há um núcleo na zona de Palma, em Mocimba e outro em Macumia. Perto de Mocimba já há alguma logística das companhias. Palma também vai ser um dos pontos fontes desta exploração. O gás está no mar, a uns 80 quilómetros da costa, mas as pessoas que vão trabalhar têm de ter uma espécie de bases retiradas em terra. Uma das coisas que as empresas devem ter uma componente de responsabilidade social, até porque há recolocação de populações e é preciso ajudar e apoiar as populações no seu dia a dia.

Mas não pode ter reflexos no financiamento bancário, tanto mais que é um dos problemas das empresas?
Todo o investimento em África, não só português, sofre fortes restrições no crédito por parte dos bancos, obrigados pelo próprio BCE. É uma contradição, porque a única maneira de a Europa deixar de ter o problema dos refugiados vindos de África é criar aqui condições de estabilidade política, social e económica. Se não houver desenvolvimento, será ainda pior. Algumas grandes empresas europeias também encontram dificuldades por estarem em zonas consideradas de risco.

Este tipo de atividade surge ao mesmo tempo que, na Renamo, o líder tradicional morreu e foi substituído interinamente e, por outro, diminuiu a diminuição dos raptos que durante muito tempo afligiram Moçambique. Há alguma relação?
Penso que não. A diminuição dos raptos e da atividade dos esquadres da morte têm a ver com medidas tomadas dentro do próprio Estado para controlar esses fenómenos que estavam na sua periferia, e que podiam ter origem em forças que podiam ter algumas cumplicidades dentro do Estado. Esse corte é positivo. Penso que é uma ação do próprio Presidente moçambicano Filipe Nyusi, que vai tendo mais mão sobre as suas próprias forças e administração do Estado.

Como vê a situação da Renamo depois da morte do Afonso Dhlakama?
Fiquei preocupado, para lá da pena que senti pela sua morte, porque tinha a noção de que o processo de normalização avançava em virtude da parceria pessoal entre ele e o Presidente Nyusi, e havia o risco do reacender do conflito. Mas os acordos foram votados. O novo líder interino da Renamo, Ossufo Momade (da ala militar), decidiu fixar o quartel-general em Satungira, na Gorongosa, o que denota alguma cautela. Falta finalizar a parte dos acordos sobre a integração do pessoal armado da Renamo nas Forças Armadas e de segurança. Se a Frelimo vacilasse, a Renamo teria um argumento para não cumprir.

E as forças da Renamo estarão também interessadas em combater os elementos islâmicos?
Seria uma prova de integração. No norte, em Nampula, onde a Renamo sempre teve certa influência nos macua, está relativamente próxima. Mas cada problema por seu dia e cada aliança por seu turno.

TIAGO MIRANDA

Na Renamo, Ossufo Momade é o único candidato a líder para o Congresso?
Há várias figuras, como Ivone Soares, sobrinha de Dhlakama, a líder da bancada parlamentar e com grande experiência internacional e o secretário-geral Manuel Bissopo. A expectativa económica favorece o sistema político. Como a economia de Moçambique tem números modestos só os investimentos planeados pela Exxon a 10 anos andam nos 30 mil milhões, o impacto é rápido. Não me parece que numa perspetiva de responsabilidade nacional, quer os dirigentes da Renamo, quer da Frelimo não percebam que para além deste problema, se não tiverem capacidade de cooperar e colaborar pacificamente entre eles, será muito negativo para o país. E um problema de instabilidade que agora está circunscrito pode generalizar-se.

E paralisar o país?
Pela sua própria geografia, Moçambique é um país relativamente fácil de paralisar. Tem um sistema de rios de grandes caudais que na época das chuvas cortam transversalmente o território e tem uma orografia do interior que leva a que o país tenha quatro ou cinco itinerários obrigatórios. Se são bloqueados ou ficam inseguros, é fácil paralisar o país. Daí a responsabilidade das elites.

Na Frelimo, também há movimentações, tendo em vista as eleições do próximo ano e a vontade do Presidente Nyusi querer recandidatar-se.
O Presidente é bastante mais novo do que os seus antecessores e convive com os dois ex-Presidentes [Chissano e Guebuza], que, a seu modo e pelas suas razões, têm seguimento no partido. Apesar de a situação não ser fácil, até por causa dos problemas na economia, o Presidente tem conseguido afirmar-se progressivamente. O exterior (incluindo Portugal) tem de ter compreensão e ajudar, tendo em conta as condições reais do país. Muitas vezes o negócio em África tem uma componente política e estratégica que as empresas e bancos às vezes não têm presente.

A realização das eleições municipais de outubro pode estar em causa?
Pode haver de comum acordo um adiamento devido a problemas funcionais e logísticos. O partido no poder tem alguma preocupação, mas há um dado positivo. Depois da eleição em Nampula, ganhou o candidato da Renamo na segunda volta, e com certeza com o apoio do outro partido da oposição, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), mas a Frelimo não reagiu negativamente. Nampula é a província com mais dinâmica em Moçambique, uma zona predominantemente muçulmana, onde a oposição tem tradicionalmente força.