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“Temos a vitória onde a humanidade fracassa”

O presidente dos Médicos Sem Fronteiras Espanha

O problema não está apenas em Itália e Malta terem proibido o desembarque do Aquarius nos seus territórios. O problema está na Europa. “Espanha devia acolher 18 mil pessoas e só recebeu 10%”, exemplifica David Noguera, presidente dos Médicos Sem Fronteiras Espanha, em entrevista ao Expresso. Mas isto acontece em toda a Europa, deixando os países fronteiriços sob pressão. “É um problema de toda a Europa” e não está a ser resolvido. “No Mediterrâneo há 15 mil mortos e cada morte é uma prova de que a Europa falhou”

Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

em Valência

Jornalista

Ana Baião

Ana Baião

em Valência

O que aconteceu com o Aquarius – que foi impedido de desembarcar em Itália e Malta e que Espanha ofereceu porto seguro - é a prova de que a política de apoio a refugiados e migrantes da União Europeia falhou?
É a última prova. Temos já muitas outras. No Mediterrâneo temos 15 mil mortos e cada morte é uma prova de que a Europa falhou. Isto é mais um acontecimento de uma larga lista de fracassos. É um problema muito complexo, que tenho a certeza que todos juntos podemos encontrar uma solução. No mínimo, temos de conseguir que não morra gente no mar. Como presidente dos Médicos Sem Fronteiras não posso sentar-me numa mesa a negociar se vamos salvar ou não pessoas. Não é negociável. É como se perguntarem “vais dar comida a crianças subnutridas no Iémen?”. É claro que vou. Podemos discutir o que fazemos depois, quais os procedimentos mas salvá-los é um direito humano reconhecido.

Há muito tempo que na União Europeia se fala disto… Há quatro anos que a crise no Mediterrâneo se intensificou, o que mudou desde então?
Demos passos atrás. A situação na Líbia é consequência direta das políticas da União Europeia (UE). É muito difícil compreender como a UE faz acordos com um Estado que está falido, um país onde há muita violência e pessoas a serem torturadas. O Canadá, por exemplo, recebeu 40 mil refugiados, mas foi busca-los ao país de origem e não os deixou atravessar um mar ou viajar à procura de um novo país. A solução imediata é o respeito pelos Direitos Humanos. Se um cidadão sírio foge da guerra, tem direito a ser ouvido. Nestes quatro anos há muito pouco para celebrar. Para os Médicos Sem Fronteiras pode parecer uma contradição, porque as nossas vitórias são derrotas. Temos a vitória onde a humanidade fracassa. Então porque celebramos? São quatro anos de fracassos. Há gente que morreu no Mediterrâneo e nem está enterrada, que nem a família sabe que morreu.

Que notícias lhe chegam do interior do Aquarius (o único dos três barcos que tem ONGs)? Como estão as pessoas resgatadas?
Estão estáveis. Dentro de menos de 24 horas vão estar em Valência, é uma viagem complicada porque as condições metrológica não são nada favoráveis, muita ondulação e vento, houve vários casos de enjoo, vómitos… A maior preocupação são as crianças, as grávidas e as pessoas que se queimaram no resgate com o combustível na água. Estão estáveis e esperamos que cheguem bem dentro do possível.

E emocionalmente?
São pessoas que viveram situações de stress muito intensas no barco. Mas também ainda antes, durante semanas e meses de viagem, estiveram expostas a grandes perigos. Sabemos que vieram da Líbia, onde há muitas pessoas vítimas de violência direta, mulheres violadas e extorsão e as pessoas preferem lançar-se ao mar para sobreviver. Naqueles dois ou três dias em que era incerto para onde o Aquarius ia, o maior medo era que as pessoas fossem mandados de volta. Tinham muito medo. Quando perceberam que não iam regressar à Líbia e surgiu a opção de Espanha – e apesar de ser uma viagem muito mais longa e complicada- ficaram tranquilos.

David Noguera, presidente Médicos Sem Fronteiras Espanha

David Noguera, presidente Médicos Sem Fronteiras Espanha

Ana Baião

A bordo há muitas crianças desacompanhadas. Como se explica isso?
O sistema é diferente para as crianças que chegam à Europa sem pais. E eles sabem disso. Uma criança sem ninguém é logo acolhida. Isto obriga-nos a reflectir: o que faz um pai mandar um filho atravessar o Mediterrâneo sozinho? Tem de ser algo mesmo muito grave. E é. Entendo perfeitamente, porque eu faria exatamente o mesmo. Tu farias o mesmo.

Ficaram satisfeitos por virem para Espanha?
O maior medo era regressar à Líbia, qualquer coisa que não fosse voltar era uma boa opção. Dito isto, quero acrescentar que estas pessoas têm direito a ter assistência no porto mais próximo com condições dignas e onde os seus direitos sejam respeitados. O que aconteceu não foi o respeito pelos direitos. Quero que fique bem claro: os governos que não permitiram que o barco atracasse estão a violar direitos humanos básicos, além de não estarem a respeitar a lei do mar.

Estamos a falar de Itália e Malta, mas Itália tem sido dos países que recebeu mais barcos com pessoas resgatadas do Mediterrâneo. Isso não serve de justificação para a decisão?
É verdade que há um problema muito grave em repartir a quota de refugiados pela Europa. Há dois anos, Espanha comprometeu-se a acolher 18 mil refugiados e cumpriu 10% ou 12%. É certo que os países fronteiriços, como Itália e a Grécia, têm uma pressão extra, mas isso não justifica a decisão de proibir os desembarques. Não justifica de forma alguma. São Estados que estão a violar direitos fundamentais e os Estados têm uma característica fundamental de assegurar os direitos fundamentais. Há que entender que o contexto italiano é complexo e que este não é um problema que se possa apontar só a Itália. É um fenómeno global, em que os países da UE têm responsabilidade e não a está a assumir.

Este sábado, Itália rejeitou mais um barco. E se isto continuar a acontecer?
Não sei… O que fazemos com as pessoas? Vamos deixa-las no mar? Não podemos deixar que morram. Dentro de alguns dias há uma reunião de líderes mundiais e este vai ser um dos assuntos discutidos. Vamos ver…

Que consequências tem o facto de o barco ir para Espanha e não para Itália?
Desde já, põe em risco as operações de resgate no Mediterrâneo. O Aquarius é um barco de resgate e não de transporte, portanto quando está a transportar pessoas durante quatro ou cinco dias, não está a resgatar outras – e depois mais quatro ou cinco dias para voltar ao local onde estava. É evidente que isto tem um preço direto: mais mortos, sobretudo quando estamos na época alta. Esperemos que o caso do Aquarius sirva para voltarmos a discutir o que é necessário e que a UE arranje uma operação de resgate de verdade e que não morra mais gente no mar.

Valência pode tornar-se um porto seguro frequente ou não é viável?
Não é viável, porque logisticamente obriga a barcos de resgate e transporte caríssimo. Temos que pensar em novos modelos, mas o porto de Valência não tem sentido.

Qual é o papel dos Médico Sem Fronteiras nesta operação?
Trabalhamos várias vezes em operações de resgate no Mediterrâneo, estas pessoas são nossas pacientes, a nossa intervenção termina quando entregarmos as pessoas ao porto e a responsabilidade passa a ser da Cruz Vermelha. Todo o processo de receção como de gestão seguinte, dependem de outras pessoas. Os Médicos Sem Fronteira trabalham mais nos sítios de conflito e não nos países europeus.