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“Quando outros olharam para o lado, Espanha acolheu”. E montou a maior operação humanitária de sempre

Ana Baião

A frota de três navios de que faz parte o Aquarius chegou este domingo a Valência, onde estão mil voluntários, quase 500 tradutores, perto de 600 polícias e 613 jornalistas. Tudo estava pronto para receber aqueles que se lançaram ao mar para poder viver, que foram rejeitados e agora são acolhidos. “As migrações não são um problema que vamos resolver, mas é algo que queremos controlar”

Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

em Valência

Jornalista

Ana Baião

Ana Baião

em Valência

Nelson e Lorena aproximam-se do gradeamento. Ele veste uma camisola do Barcelona, mas ambos são de Valência – da cidade, não do clube. “Isto tudo é por causa das pessoas que vão chegar? Das que vêm no barco?” Sim, é mesmo por isso. Em bicos dos pés, esticam-se para fotografar melhor com o telemóvel o que se está a passar, que não é mais do que homens e mulheres a carregarem uma carrinha enquanto entram e saem do armazém. “Eles depois vêm para aqui dormir?”, pergunta Nelson. Não, as 630 pessoas que chegam no Aquarius e nos dois navios da marinha italiana vão ficar numa zona longe de olhares alheios. “Ah…”, responde desiludido. “Mas percebo, devem vir muito cansados”. Vêm. E também por isso toda a operação foi montada com muita discrição.

O primeiro desembarque está apontado para as 06h – mas isto das horas tem sido coisa que muda constantemente - e as pessoas vão sair em grupos de 20. Só três horas mais tarde, a segunda embarcação. Uma vez mais, 20 de cada vez. O terceiro só chega pelas 12h – isto caso não haja atrasos –, o procedimento é o mesmo. Uma vez em terra, passam todas pelo controlo sanitário, quem precisar segue para o hospital enquanto os restantes vão para a próxima etapa cuja responsabilidade é da Polícia científica, que as vai identificar. Daí são organizados por grupos (pessoas sozinhas, famílias, meninos sem adultos a acompanhar, meninas sem adultos a acompanhar e menores de 12 anos sozinhos). Vão ser distribuídas por alojamentos temporário, que podem ser apartamentos ou albergues, e dentro de dias ou semanas ser-lhes-á atribuído um lugar mais definitivo onde ficar, que não tem necessariamente de ser Valência.

Ana Baião

“Estaremos o mínimo de tempo possível. Valência não é um porto habituado a estas coisas. Procuramos agilizar e dar comodidades para quem chega. As grávidas vão ser levadas de imediato para o hospital e os feridos levados logo de ambulância”, detalhou Iñigo Vila, coordenador da Unidade de emergências da Cruz Vermelha. No total, há 2320 pessoas envolvidas no processo inicial de acolhimento (incluindo mil voluntários, quase 500 tradutores, perto de 600 polícias e 613 jornalistas).

Só esta sexta-feira se fez notar nas imediações do porto que algo fora do normal ia acontecer. Até então, as informações que chegavam aos jornalistas eram contraditórias, o que agora era verdade dentro de minutos podia já não ser. Os planos mudavam com frequência. Ainda agora, tanto a Cruz Vermelha como o Governo da Generalitat – ambos responsáveis para organização da operação “Esperança do Mediterrâneo” – recusam divulgar os lugares onde os recém-chegados vão passar as próximas noites.“Não podemos mesmo”, justificou ao Expresso um responsável da organização não-governamental.

“É uma traição ao que são os valores europeus”

Benvingudes a casa vostra. Bienvenidas a vuestra casa. Welcome home. Bienvenue chez vous.مرحبا بك في البيت. Em catalão, castelhano, inglês, francês e árabe. Para que ninguém se sinta indesejado, as boas-vindas são dadas em várias línguas. O gesto simbólico ocupa a grande tela branca colocada no edifício que serve de armazém da Cruz Vermelha. Só na manhã deste sábado foi pendurada (lá está a discrição outra vez).

Ana Baião

“E isto aqui são os alimentos que vão ser entregues às crianças”, explica o porta-voz da Cruz Vermelha aos jornalistas enquanto mostra uma caixa de cartão branca e vermelha em que se lê a negro “kit para crianças dos seis aos 18 meses”. Há crianças, ou melhor, bebés entre seis e 18 meses a bordo da frota do Aquarius. Na frota do Aquarius contam-se sete meninos e meninas que ainda não completaram os cinco anos, mais quatro que não chegaram aos 13 e 28 com menos de 15. A maior parte dos menores de idade (61) têm entre 17 e 18 anos. São os meninos que a vida já há muito tempo obrigou a serem homens.

“Há pessoas que vêm para a Europa à procura de solidariedade e apoio. Não a oferecer é uma traição àquilo que a Europa representa e aos valores europeus. Lamento que em países com essa tradição não se possa encontrar uma plataforma de trabalho comum. Apoio e aplaudo a decisão do Governo espanhol. Quando outros olharam para o lado, Espanha acolheu”, defende Elhadj As Sy, secretário da Federação Internacional da Cruz Vermelha. “As migrações não são um problema que vamos resolver, mas é algo que gostávamos de controlar. Os movimentos migratórios vão continuar daqui para a frente.”

Ana Baião

Ainda não é certa qual a ordem pela qual os desembarques vão acontecer, só pela manhã se perceberá. Do Aquarius vão sair 106 pessoas, dos navios da marinha italiana 250 e 274 pessoas. São 630.

Nelson e Lorena não se afastam do gradeamento do armazém da Cruz Vermelha, mesmo depois de lhe dizermos que ali já não há grande coisa para ver. Os caixotes e os carregamentos são o máximo a que vão conseguir assistir porque este domingo, quando as pessoas chegarem na frota do Aquarius, vão estar o menos expostas possível, afastadas da confusão. Ao mesmo tempo, pelo menos é essa a intenção das autoridades, na cidade de Valência o domingo será apenas mais um domingo.

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    O problema não está apenas em Itália e Malta terem proibido o desembarque do Aquarius nos seus territórios. O problema está na Europa. “Espanha devia acolher 18 mil pessoas e só recebeu 10%”, exemplifica David Noguera, presidente dos Médicos Sem Fronteiras Espanha, em entrevista ao Expresso. Mas isto acontece em toda a Europa, deixando os países fronteiriços sob pressão. “É um problema de toda a Europa” e não está a ser resolvido. “No Mediterrâneo há 15 mil mortos e cada morte é uma prova de que a Europa falhou”

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