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Chefe dos talibãs que participou no ataque a Malala “morto num ataque com drone”

A imagem no ecrã do computador mostra Mullah Fazlullah

A. MAJEED/GETTY IMAGES

Era um dos homens mais procurados tanto pelos EUA como pelo Afeganistão. A sua cabeça havia sido posta a prémio e valia uns quatro milhões de euros. Com ou sem recompensa atribuída, a verdade é que o seu rasto foi descoberto. Mullah Fazlullah, líder dos talibã paquistaneses, terá morrido num ataque com um drone norte-americano, confirmaram os ministros da Defesa afegão e paquistanês

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Era o líder dos talibã paquistaneses e era também um dos homens mais procurados pelas tropas americanas e afegãs pelo menos desde que matou ou ajudou a matar ou mandou matar a estudante paquistanesa Malala Yousafzai, em outubro de 2012. O Departamento de Estado norte-americano dizia oferecer uma recompensa de cinco milhões de dólares (cerca de 4,3 milhões de euros) a quem o tivesse visto ou tivesse informações úteis sobre o seu paradeiro. Não sabemos se o dinheiro foi usado nem quais as pistas que foram seguidas, mas a verdade é que Mullah Fazlullah foi descoberto e assassinado num ataque com um drone norte-americano no distrito de Marawera, na província afegã de Kunar, perto da fronteira com o Paquistão, segundo informações avançadas pelos ministros da Defesa afegão e paquistanês. O grupo terrorista ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Não foram dados muitos detalhes sobre o ataque, excepto que terá ocorrido às 9h00 de quinta-feira (menos três horas em Portugal) e que foram atingidos outros dois combatentes armados, segundo declarações feitas pelo porta-voz do ministro da Defesa do Afeganistão à Reuters e à Associated Press. Os EUA, através do porta-voz das tropas americanas no país, o coronel Martin O’Donnell, confirmaram o ataque e a arma usada, um drone, mas não os alvos e a identidade dos combatentes, limitando-se a dizer ter atingido “um dos principais líderes de uma organização terrorista”.

Um “combatente implacável”

Mullah Fazlullah tornou-se líder dos talibã paquistaneses em 2013 e era descrito como um “combatente implacável”. Conheciam-no também como “Maulana Fazlullah”, uma espécie de título honorífico a que só os homens muçulmanos venerados pela sua devoção ou aprendizagem religiosa têm direito. Dois anos depois de ter estado envolvido no ataque a Malala Yousafzai (que viria a tornar-se ativista e a defender mais igualdade entre homens e mulheres no acesso à educação, tendo-lhe sido atribuído o prémio Nobel da Paz em 2014), participou no massacre a uma escola na cidade paquistanesa de Peshawar em que morreram mais de 130 crianças, em 2014.

O grupo que chefiava até à data da sua morte foi criado em 2007 com o objetivo de fazer oposição e mesmo atacar o governo do Paquistão e as forças de segurança do país, numa campanha de violência sem interregnos. Designado Movimento dos Talibã do Paquistão (Tehrik-i-Taliban Pakistan, TTP), a organização agrega outros 30 grupos de militantes paquistaneses que ocupam os territórios ao longo da fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão.

Devido à crescente pressão interna dos militares, o grupo começou a dividir-se em 2013, tendo Mullah Fazlullah assumido a sua liderança em novembro desse ano, depois de o anterior líder da organização, Hakimullah Mehsud, ter sido assassinado num ataque da CIA com um drone na região de North Waziristan, no Paquistão. A sua chegada à liderança do grupo foi encarada como um “ponto final” no fim da violência e das negociações para a paz, assim dava a entender um porta-voz do TTP à “Al-Jazeera”, garantindo que Fazlullah fora escolhido por ser um “hardliner” que recusara render-se às forças paquistanesas.

A propaganda contra o EUA e as negociações para a paz

Mullah Fazlullah nasceu em 1974 numa pequena vila (Kuza Bandai) e a primeira experiência de combate teve-a em 2001, quando o clérigo Sufi Muhammad, também seu mentor e sogro, reuniu um grupo de voluntários de várias tribos para lutar ao lado dos talibã afegãos contra a NATO e as forças norte-americanas em outubro de 2001. A detenção, ainda naquele ano, de Muhammad pela forças de segurança afegãs deixou o movimento militar, então abrigado em Swat, região no norte do Paquistão, sem liderança, mas logo Mullah Fazlullah, que já havia passado 17 meses preso, chegou-se à frente para substituir o sogro e começou a conduzir as orações numa pequena mesquita. A missão que tomou para si? Impor a lei da sharia na região.

Não só na mesquita mas também através do canal de rádio que criou em 2004, e que muito era ouvido, localmente e não só, Mullah Fazlullah passou de um tom apaziguador ou conciliador para um tom crítico que tinha sobretudo como alvo os EUA e as forças norte-americanas que lutavam contra os talibã no Afeganistão, diz a “Foreign Policy” no perfil que lhe dedica por ocasião da sua nomeação para líder dos talibã paquistaneses. “Quando a sua audiência se tornou maior, Mullah Fazlullah começou a desencorajar os pais de enviar as suas filhas para a escola e começou também a desincentivar hábitos como o de ver televisão [“o demónio”, como lhe chamava] ou o de ouvir música”.

Fazlullah liderou um grupo radical travou uma guerra sangrenta contro o Estado paquistanês de 2007 a 2009, ano em que foi expulso da região, tendo vários dos comandantes da sua milícia sido capturados. À distância, e a partir de outros distritos paquistaneses, Mullah Fazlullah continuou a exercer o seu controlo sobre parte da região e a ordenar ali ataques contra anciões que lideravam comités de paz contra os talibã, assim como contra ativistas dos direitos humanos. Entre as dezenas de pessoas que morreram nesta altura, vítimas de ataques de talibã, encontrava-se Malala Yousafzai.

O anúncio da morte de Mullah Fazlullah dá-se num contexto de grandes tensões entre os EUA e o Paquistão. A administração de Donald Trump vinha aumentando a pressão sobre o Governo paquistanês até há pouco tempo, acusando o país de fazer pouco para conter a insurgência dos talibã no país vizinho. Nos últimos meses, contudo, EUA e Paquistão tornaram-se mais cooperantes por acreditaram que só dessa forma vão conseguir levar os talibã à mesa de negociações. Dias antes do ataque, o chefe do Exército paquistanês, o general Qamar Javed Bajwa, visitou Cabul, capital do Afeganistão, para discutir um por enquanto hipotético processo de paz e reforçar a cooperação contra o terrorismo.