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Candidato pró-curdo às presidenciais turcas promove a sua campanha desde a prisão

Prisioneiro desde 2016, Selahattin Demirtas, líder da oposição pró-curdo, recorrer às redes sociais para responder a questões do público e divulgar a sua mensagem

O líder da oposição pró-curdo Selahattin Demirtas, na prisão desde novembro de 2016 e candidato às eleições presidenciais deste mês, utilizou esta sexta-feira as redes sociais para responder a questões do público e divulgar a sua mensagem.

O ex-líder do Partido Democrático do Povo (HDP), que renunciou ao cargo após a sua detenção sob a acusação de "terrorismo" - à semelhança da co-dirigente do partido Figen Yuksekdag, também detida desde novembro de 2016--, já tinha antes utilizado os dez minutos de contacto telefónico a que tem direito com a sua mulher para fazer um discurso eleitoral, e os seus advogados transmitem-lhe perguntas dos jornalistas e entregam as respostas a partir da prisão de alta segurança. Esta sexta-feira, utilizou a ferramenta 'tweet' de forma indireta para responder a questões colocadas nos 'media' sociais.

O co-presidente do HDP é um dos cinco candidatos que desafiam o Presidente Recep Tayyip Erdogan nas eleições presidenciais de 24 de junho. A Turquia também celebra no mesmo dia eleições legislativas. O antigo advogado de direitos humanos, 45 anos, foi detido e encarcerado no final de 2016 por alegadas ligações com militantes curdos e com o ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Apesar de estar indiciado por 20 outros casos, permanece na prisão sob a acusação de ser líder de uma organização terrorista, promover propaganda terrorista e incitamento ao ódio através de protestos. Em maio, um tribunal rejeitou um apelo para a sua libertação.

Demirtas, que nega todas as acusações, pode concorrer às presidenciais porque ainda não foi condenado, mas a sua eleição é muito pouco provável, com a sondagens a dar vantagem a Erdogan mas longe do mínimo dos 50% exigidos para ser eleito à primeira volta.

Com a maioria dos 'media' sob o controlo do aparelho de Estado turco, todos os candidatos da oposição tentam utilizar diversas formas para divulgar a sua mensagem. Numa resposta por escrito a perguntas da agência noticiosa Associated Press (AP), Demirtas assinalou que "milhares de amigos, mulheres, jovens, conduzem a campanha em meu nome", definiu-se como um "refém político" e considerou que a corrida eleitoral "não é nem imparcial nem justa". O Governo negou as acusações.

Caso seja eleito, o candidato do HDP disse que a sua prioridade será fazer aprovar uma nova Constituição para a Turquia, que garanta as liberdades individuais, a independência dos tribunais e o regresso da democracia parlamentar. Assegurou ainda que vai procurar uma solução pacífica para as mais de três décadas de rebelião curda no sudeste da Turquia.

"Se garantir os votos suficientes, serei o presidente mesmo que esteja na prisão", respondeu esta sexta-feira através do 'Twitter'. Apesar de estar detido há mais de um ano e meio, o HDP nomeou Demirtas pelo facto de permanecer a figura mais popular do partido. Em 2014 apresentou-se contra Erdogan nas primeiras eleições presidenciais diretas, garantindo 9,7% dos votos.

Também conduziu o seu partido ao parlamento em duas eleições legislativas em 2015 ao ultrapassar a barreira dos 10% de votos obrigatórios, e retirando no primeiro escrutínio desse ano a maioria absoluta que o partido de Erdogan.

O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (islamita-conservador) acabou por recuperar a maioria parlamentar em novembro desse ano. Analistas citadas pela AP consideram que o AKP poderá voltar a perder a maioria parlamentar caso o HDP consiga de novo ultrapassar os 10% de votos que lhe garantem representação no parlamento.

Nas vastas purgas que se seguiram ao fracassado golpe militar de julho de 2016, e que atingiram diversos setores da sociedade turca, outros oito deputados e cerca de 4.700 membros do HDP também estão detidos e indicados por alegadas práticas terroristas. Ao referir-se às condições da detenção, Demirtas disse à AP que partilha a cela com o antigo deputado do HDP Abdullah Zeydan, e não tem contacto com os outros detidos.

"Apenas posso transmitir mensagens através dos meus advogados. Sou um refém político há um ano e meio sem um julgamento justo". O político diz que ocupa os dias a ler livros e jornais e a seguir os noticiários na televisão. Uma vez por semana está autorizado a uma hora de visitas da família e a quatro horas de exercício. Também escreveu uma coleção de pequenas histórias, publicadas em 2017. "Estamos a tentar manter fortes a nossa determinação e moral apesar do ambiente de isolamento", disse.