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Caixa. Venda de 'joia da coroa' em França leva a greve sem fim à vista

"A sucursal da CGD em França tem sido despedaçada. Nem os telefones funcionam e por vezes são os clientes que têm de emprestar os seus telemóveis aos funcionários para estes telefonarem para Lisboa", acusam os sindicatos

Foto Luís Barra

Mobilização contra um alegado plano de privatização da sucursal francesa da Caixa Geral de Depósitos começou há dois meses. Esta sexta-feira há nova manifestação junto à Embaixada de Portugal em Paris, onde decorrerá uma receção oficial para assinalar o Dia de Portugal

“Não à alienação” e “A Caixa unida jamais será vencida” são dois dos principais slogans dos grevistas e manifestantes que desde há oito semanas tentam travar um plano de reestruturação das principais delegações da Caixa Geral de Depósitos no estrangeiro.

Em questão, no caso francês, está um projeto de venda da sucursal do banco público que, com 48 agências, mais de 500 trabalhadores e 150 mil clientes, é considerada por algumas fontes ouvidas pelo Expresso como sendo a 'joia da coroa' do banco no estrangeiro. A rede francesa da Caixa contabiliza 2,3 mil milhões de euros em depósitos, 2,1 mil milhões em créditos e 330 milhões de euros em transferências anuais para Portugal.

Os membros da comissão de negociação dos trabalhadores em greve e os sindicatos franceses FO-CFTC, que apoiam o movimento, desejam ter acesso ao que chamam o “plano de privatização” previsto nos acordos de 2017 com a Comissão Europeia.

Em contrapartida para a recapitalização da CGD, Bruxelas exigiu, segundo disseram sindicalistas ao Expresso, a redução drástica da atividade do banco fora de Portugal, designadamente em quatro dos países onde a sua atividade é mais rentável – França, Espanha, Brasil e África do Sul. Os processos de venda de sucursais já terão sido lançados na África do Sul e em Espanha com o consentimento do Governo de Lisboa. Seguir-se-ão França e Brasil, de acordo com o que informaram diversas fontes ao Expresso.

Os representantes dos trabalhadores querem ter acesso aos planos e cadernos de encargos e não acreditam nas promessas feitas em maio, pela direção da CGD, em Lisboa, de que a alegada venda estará ainda em fase preliminar de negociação e só não acontecerá se a operação “for sustentável, rentável e solidária”.

“Não acreditamos, porque a sucursal, em França, tem sido despedaçada nos últimos seis anos, visivelmente para a venderem ao desbarato. Hoje, nem os telefones funcionam corretamente e por vezes são os clientes que têm de emprestar os seus telemóveis pessoais aos funcionários para estes telefonarem para Lisboa”, diz a economista Cristina Semblano, grevista e dirigente do Bloco de Esquerda. Além disso, acrescenta a economista, “a atual direção da sucursal tem feito despesas avultadas e descontroladas em projetos alegadamente para a modernizar e as condições de trabalho dos funcionários são cada vez piores”.

Conflito chega à Justiça francesa

A greve não é seguida por todos os sindicatos representados no banco e a CGT e a CFDT não a apoiam. Estas duas centrais sindicais privilegiam negociações com a direção, em vez da greve “por tempo ilimitado”. Mas a paralisação afeta, desde há quase dois meses, muito fortemente, os serviços centrais da sede, instalada no centro de Paris. As agências continuam, no entanto, abertas ao público, mas, garantem sindicalistas grevistas, “com serviços muito mínimos e graças a trabalhadores precários, com contratos a prazo”.

Nesta quinta-feira, os funcionários grevistas manifestaram-se em frente ao Consulado-geral de Portugal em Paris, onde marcou presença o deputado do BE, Moisés Ferreira, membro de duas comissões parlamentares de inquérito à CGD.

O conflito entrou numa fase decisiva. O braço de ferro, que parece interminável, já chegou aos tribunais franceses. O deputado do BE denunciou ações judiciais contra grevistas e dirigentes sindicais que foram convocados para comparecerem perante a Justiça francesa, em Paris, no próximo dia 12, para responderem por “delito de abuso do direito de greve”. Também, no mesmo dia, a Justiça francesa deverá pronunciar-se sobre uma outra ação, esta apresentada pela Comissão de Trabalhadores da CGD-França, na qual pede acesso, “de acordo com a lei, ao plano de reestruturação”.

Cristina Semblano, que é porta-voz da intersindical FO-CFTC, garante que o movimento vai prosseguir — “não temos medo, apesar das ameaças e dos tribunais”. Diz que uma delegação dos trabalhadores vai ser recebida, a seu pedido, na Presidência portuguesa, a 21 de junho.
“Estão a prejudicar Portugal. Este projeto de privatização atinge a comunidade portuguesa e Portugal no seu todo”, conclui Cristina Semblano.