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Quim Torra já é presidente da Catalunha. “Faremos República”, promete

Andreu Dalmau/EPA

Com 66 votos a favor, 65 contra e quatro abstenções, o novo chefe do governo regional começou por anunciar o objetivo de restaurar o presidente anterior, Carles Puigdemont

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Não é costume um presidente recém-empossado defender a investidura de outro, mas foi isso mesmo que fez esta tarde Quim Torra, novo chefe do governo regional da Catalunha, antes mesmo de expressar regozijo pela sua eleição. “Quero agradecer a generosidade e a responsabilidade do presidente Puigdemont, a quem investiremos”, afirmou Torra, até agora deputado eleito pela lista independentista Juntos pela Catalunha (JxC), mas sem militância partidária.

Torra foi eleito com 66 votos a favor, 65 contra e quatro abstenções, à segunda votação, que só exige maioria simples (mais votos “sim” do que “não”). Quinta-feira, na primeira votação, em que era preciso ter maioria absoluta, faltaram-lhe dois para o limiar de 68, num hemiciclo com 135 lugares. Oito desses assentos estavam vazios, com laços amarelos a simbolizar os deputados ausentes, presos ou autoexilados.

Desta feita e obtida a vitória, Torra falou brevemente para reiterar que o lugar hoje seu continua a pertencer a Puigdemont e para prometer que a meta da independência permanece viva. “Faremos República”, garantiu. Seguiram-se o hino da Catalunha, cantado em uníssono, e as saudações de familiares e amigos, incluindo a jornalista Marcela Topor, mulher de Puigdemont.

O novo governante é uma escolha pessoal de Carles Puigdemont, que governou entre janeiro de 2016 e outubro de 2017. Nessa altura, após o referendo de autodeterminação proibido pela justiça espanhola e a declaração unilateral de independência emitida pelo parlamento regional, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, acionou o artigo 155 da Constituição, suspendendo na prática a autonomia da região.

Um chefe provisório

As palavras de Torra, encarado como um presidente provisório (embora legalmente seja efetivo e em plenitude de funções), traduzem a determinação do bloco independentista em afirmar a ilegitimidade dessa suspensão e da demissão de Puigdemont, decididas por Rajoy. Para esta fação, o antecessor de Torra nunca deixou de ser presidente, e é-o agora “no exílio”.

A palavra, de novo, não é irrisória. Os independentistas procuram equiparar Puigdemont a antigos governantes como Josep Tarradellas, que estive exilado durante a ditadura de Franco e regressou a Barcelona, em 1977, para restaurar a Generalitat (governo regional). A diferença é, porém, que o regime espanhol é democrático há 40 anos e que a saída do país foi uma escolha de Puigdemont.

O ex-presidente mudou-se para a Bélgica quando chamado a responder num tribunal espanhol. Colegas seus apresentaram-se voluntariamente perante os juízes, estando vários em prisão preventiva, acusados de rebelião, sedição e peculato.

Puigdemont foi preso em março, na Alemanha, durante a viagem de regresso da Dinamarca, onde fora proferir uma conferência. Posto em liberdade pelo tribunal germânico, aguarda a decisão deste em relação ao pedido de extradição feito pela justiça de Espanha.

Quarta escolha

Votaram pela investidura de Torra os deputados da lista JxC e da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC). Os quatro representantes do outro partido separatista, a Candidatura de Unidade Popular (CUP, extrema-esquerda), abstiveram-se, viabilizando a posse do novo presidente.

Contra Torra votaram os parlamentares das demais formações políticas: Cidadãos (centro unionista), Partido dos Socialistas Catalães (ramo do PSOE), Partido Popular (PP, de Rajoy) e Em Comum Podemos (esquerda populista).

O novo líder regional é a quarta escolha dos independentistas. Depois de os tribunais terem impedido a recandidatura de Puigdemont (já que a lei dita que a investidura tenha de ser presencial), seguiram-se os nomes de Jordi Sànchez (líder de uma organização cívica independentista, preso) e Jordi Turull (ex-membro da Generalitat, também preso).

Refazer tudo o que a justiça desfez

Antes da votação, Torra declarou o objetivo de transformar a Catalunha numa “nação plena, com todos os seus direitos”. Prometeu um salário mínimo de 1100 euros e a reposição de todas as leis que o PP levou ao Tribunal Constitucional e que foram suspensas. Frisou, aliás, que algumas delas “tinham sido aprovadas por unanimidade”.

Aos 55 anos, este advogado e editor, casado e com três filhos, era pouco conhecido até à indigitação por Puigdemont. O facto de não ser alvo de processos judiciais ligados ao processo de secessão não significa que as suas credenciais separatistas sejam menores. São disso provas publicações na rede social Twitter como: “Vivemos ocupados pelos espanhóis desde 1714”, “Os espanhóis só sabem espoliar”, “Vergonha é uma palavra que os espanhóis apagaram há tempos do seu vocabulário”.

Dirigente de várias entidades independentistas, trabalhou no sector dos seguros e teve experiência na administração pública enquanto diretor de uma empresa municipal e de um centro cultural em Barcelona. Está no parlamento desde as eleições regionais de 21 de dezembro último, convocadas por Rajoy na sequência do artigo 155 e nas quais o bloco independentista saiu maioritário. Torra foi porta-voz da bancada da JxC.

[Notícia atualizada às 14h20]