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A Eurovisão é música e canções? É. E também é política? É. Sempre o foi

A concorrente russa na cerimónia de abertura da Eurovisão 2018, no Museu da Arte, Arquitetura e Tecnologia

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Apesar de as regras do festival da Eurovisão proibirem mensagens políticas, o concurso também tem tido desde sempre motivações ou incidências políticas

Luís M. Faria

Jornalista

O ano passado, o concurso musical Eurovisão assumiu contornos políticos bastante nítidos. Ou melhor, em torno dele materializou-se um conflito político na ordem do dia: o país anfitrião, a Ucrânia, recusou admitir a entrada da concorrente russa no seu território.

Na origem deste caso está a anexação da península ucraniana da Crimeia pela Rússia, há uns anos, que tem mantido uma guerra mais ou menos encoberta no leste da Ucrânia. Este último país fez uma lei a proibir a entrada de celebridades que tivessem visitado a Crimeia após a anexação. Era o caso de Julia Samoylova, a cantora russa.

O Kremlin quase de certeza previu a reação ucraniana, pois teve o cuidado de escolher como concorrente uma mulher que se desloca em cadeira de rodas. Confirmada a recusa formal de Kiev em autorizar a entrada de Julia Samoylova, a propaganda russa aproveitou ao máximo aquela prova fresca do que considera a crueldade ucraniana, agora em relação aos deficientes.

Julia Samoylova

Julia Samoylova

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Os mesmos dois países já se tinham enfrentado politico-musicalmente no ano anterior, quando a Ucrânia venceu o festival com uma canção que aludia à repressão dos tártaros pela Rússia. Embora as regras formais da Eurovisão proíbam mensagens políticas, um homem que esteve em vários júris do concurso explicou ao diário “The Guardian” que elas existiram desde o início. “A política sempre foi sinónimo de Eurovisão”, diz Ben Royston. Seja para apoiar países aliados ou por questões de identidade própria ou simplesmente para afirmar a existência de uma nação, a participação e as votações na Eurovisão têm conotações politicas. Basta pensar no empenho de Israel em participar (o concurso é aberto a todos os membros e associados da União Europeia de Radiodifusão, mas alguns não aproveitam. Em contrapartida, Israel - como o Azerbaijão, e até a Austrália! - têm marcado presença).

Portugal é um pouco diferente. Durante os nossos muitos anos de votações baixas, o que indignava o cidadão comum à medida que os pontos iam saindo era a constatação de que os países votavam por blocos. Havia o bloco escandinavo e báltico, o bloco dos Balcãs e, claro, o bloco soviético, que em grande medida se manteve mesmo depois de a URSS ruir, mostrando que, para lá dos imperativos políticos, as afinidades culturais também desempenham um papel vital.

Sendo um país sem elos especiais desse tipo na União Europeia de Radiodifusão (UER) - o Brasil e os PALOP não participam -, Portugal acabou por conseguir ganhar num ano em que apresentou uma canção invulgarmente boa e diferente, a milhas da qualidade habitual na Eurovisão. Embora, curiosamente, alguns comentadores notem que as canções portuguesas apresentadas ao longo de décadas tenham sido, no seu conjunto, das mais políticas de todas no festival, desde os tempos da ditadura. “Acho irónico que a edição portuguesa da Eurovisão seja tão apolítica”, disse ao site Politico Dean Vuletic, um professor da Universidade de Viena que escreveu um livro sobre o concurso.

Parece pouco provável que o sucesso português se repita tão cedo. De qualquer modo, a Eurovisão já foi muito mais importante para nós enquanto coletivo. Só pessoas da meia idade para cima recordam uma época em que o concurso era visto com devoção (também ajudava o facto de só haver uma estação televisiva) e as nossas sucessivas derrotas vistas como evidência do desprezo maldoso e injustificado com que o mundo nos tratava. Hoje grande parte dos portugueses pouco ou nada se importam, e nem a vitória obtida ao fim de 49 edições chegou para nos voltar a entusiasmar como antes.

Sendo a oferta cultural agora muitíssimo mais ampla, e encontrando-se facilmente ao alcance de qualquer pessoa, podemos finalmente dar-nos ao luxo de tratar a Eurovisão como uma irrelevância cultural. E até, se quisermos, olhar com sobranceria para países como a Rússia e a Ucrânia, onde ela ainda é considerada uma questão de interesse nacional. Já as canções sobre assuntos sérios, desde o terrorismo até ao sofrimento dos refugiados e ao respeito por minorias, poderão merecer outra consideração. Este ano há várias. Esperemos que sejam boas.