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Internacional

Caso Skripal. UE apoia Reino Unido e convoca embaixador da Rússia

O Presidente de França, Emmanuel Macron, ao lado da primeira-ministra britânica, Theresa May, e da chanceler alemã, Angela Merkel

LUDOVIC MARIN

Apesar da solidariedade para com os britânicos, bloco europeu parece estar dividido face ao ataque de 4 de março contra um ex-espião russo em Inglaterra com recurso a uma potente arma química. Países como a Lituânia estão a ponderar expulsar diplomatas russos enquanto outros, como a Grécia, estão a ser mais comedidos na hora de apontar o dedo ao Kremlin

A União Europeia convocou na quinta-feira o embaixador da Rússia em Bruxelas "para consultas", após os líderes do bloco comunitário terem sublinhado que há uma "elevada probabilidade" de Moscovo ter sido responsável pelo recente ataque com uma arma química, ocorrido no sul de Inglaterra, que teve como alvo o ex-espião russo Sergei Skripal.

Em comunicado, o Conselho Europeu anunciou esta quinta-feira à noite que os líderes da UE concordam que "não há uma explicação alternativa plausível" face ao incidente, no qual Skripal, a sua filha, um agente da polícia britânica e dezenas de outras pessoas foram expostos a um agente tóxico em Salisbury.

Neste momento, Sergei e Yulia Skripal continuam internados em estado muito grave depois do ataque de 4 de março. Os cientistas britânicos dizem que a arma utilizada foi o Novichok, um agente tóxico desenvolvido pela União Soviética que é dez vezes mais potente que o agente VX, até hoje tido como a substância mais fatal das que estão elencadas pela Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ).

Enquanto especialistas da OPAQ analisam amostras recolhidas no centro comercial de Salisbury onde os Skripal foram encontrados, bem como na casa do ex-espião duplo russo, o governo de Theresa May continua a tentar garantir uma frente unida do Ocidente perante o que diz ser mais uma prova do "padrão de agressões da Rússia à Europa".

Cientistas estão a analisar várias potenciais cenas do crime, incluindo a casa e o carro de Sergei Skripal

Cientistas estão a analisar várias potenciais cenas do crime, incluindo a casa e o carro de Sergei Skripal

GEOFF CADDICK/AFP/Getty Images

O Kremlin, por sua vez, continua a rejeitar as acusações de que foi o autor ou, no mínimo o ordenante do ataque ao seu ex-espião — um agente do FSB (ex-KGB) que foi julgado e condenado a prisão por passar informações ao Reino Unido e que vive exilado em Salisbury desde 2010, depois de ter sido libertado no âmbito de uma troca de presos entre os dois países.

Depois de um encontro com May em Bruxelas, os líderes da UE sublinharam na quinta-feira em comunicado que estão "ao lado do Reino Unido em solidariedade absoluta face a este grave desafio à nossa segurança partilhada", uma postura aplaudida pela primeira-ministra britânica dado o facto de Moscovo "não respeitar fronteiras" e representar "uma ameaça aos valores" europeus.

Contudo e apesar do comunicado do Conselho, a UE parece estar dividida. Face a países como a Lituânia, que estão a considerar seguir o exemplo de Londres e expulsar diplomatas russos dos seus territórios, há Estados-membros menos predispostos a apontar já o dedo aos russos – caso da Grécia, cujo primeiro-ministro, Alexis Tsipras, sublinhou ontem a "necessidade" de os europeus "serem responsáveis" na hora de tecer acusações, apesar da inegável "solidariedade" para com os britânicos.

A juntar às dúvidas sobre como é que a Rússia ainda detinha Novichok depois de a OPAQ ter confirmado a destruição de todo o arsenal químico do país em 2017, mantêm-se questões sobre a origem da substância tóxica que, segundo o antigo embaixador britânico Craig Murray, foi sempre produzida no Usbequistão.

Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista que tem enfrentado duras críticas internas por não responsabilizar a Rússia pelo ataque aos Skripal, repetiu ontem que é necessário dar início a um "diálogo sério e robusto" com o governo de Vladimir Putin sobretudo porque a UE e a Rússia ficam "no mesmo continente".

Já o embaixador russo em Londres, Alexander Yakovenko, reforçou a defesa de Moscovo e voltou a acusar o governo britânico de estar a apontar o dedo ao seu país "sem quaisquer provas", isto depois de o governo de Putin ter sugerido que foi o Ocidente quem produziu o Novichok.