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Putin, um ditador russo

Hannah Peters/Getty Images

O ex-chefe do KGB deve este domingo ganhar, pela quarta vez, as eleições presidenciais, e ninguém sabe quando deixará o poder, ou se jamais o fará. O Expresso conta o seu percurso

Luís M. Faria

Jornalista

Vladimir Putin deverá ser hoje reeleito Presidente da Rússia. Se cumprir o seu quarto mandato até ao fim, terá ficado no poder 24 anos - mais do que qualquer líder dos últimos cem anos, exceto Estaline. Escolhido em 1999 como primeiro-ministro (e depois presidente) por Boris Ieltsin, Putin tornou-se popular através de uma guerra extremamente brutal. Outras se seguiriam ao longo dos anos, bem como ofensivas como outros inimigos, reais ou imaginários, da Rússia.

Num país onde a conquista de território, historicamente, é fonte de legitimidade para um líder, essa imagem de força, reforçada por imagens de Putin em atividades físicas, conquistou muitos russos, em especial os mais idosos, que sofreram no bolso e na pele os efeitos do caos social e político na década a seguir ao fim da URSS, em 1991. Putin impôs um módico de ordem, a muitos níveis.

Ao mesmo tempo, foi concentrando em si cada vez mais poder e eliminando potenciais rivais, não raro usando o sistema judicial, como fez com o bilionário Mikhail Khodorkhovsky e o político Alexey Navalny. Este último, o mais proeminente membro da oposição, tem sido incessante na denúncia dos níveis extraordinários de corrupção da era Putin. Uma condenação judicial muito conveniente impediu-o de concorrer às eleições de hoje, nas quais, mesmo sem hipóteses reais de vencer, teria sido um incómodo para o atual regime, que não quis correr riscos.

Num momento em que mais uma vez acontecem mortes misteriosas de inimigos de Putin - isso tem sido uma constante do seu tempo no poder; se agora foram dois russos exilados em Inglaterra, há três anos foi Boris Nemtsov, um político importante, assassinado em frente ao Kremlin - o objetivo de Putin, mais do que qualquer outro, parece ser a sobrevivência, política e pessoal.

A outro nível, ele quererá conservar a riqueza que acumulou no poder. Os rumores corriam há muito, e em 2016 os Panama Papers confirmaram que havia mais de 100 milhões de dólares em offshores, em nome de um amigo de juventude do presidente - um violoncelista que jamais foi conhecido por ter fortuna pessoal.

Consta que Putin, furioso com as revelações, as terá interpretado como uma jogada do governo norte-americano contra ele, e que isso o levou a empenhar-se especialmente em interferir nas eleições presidenciais contra Hillary Clinton e a favor de Donald Trump. Verdade ou mentira, o certo é que seu país, já então sujeito a sanções por causa da Crimeia e do chamado caso Magnitsty, viu serem-lhe impostas mais algumas.

É neste contexto de enfrentamento com o Ocidente, e de expulsões mútuas de diplomatas a lembrar a Guerra Fria, que têm lugar as eleições deste domingo. O Expresso republica abaixo um longo perfil de Putin originalmente escrito em novembro de 2014 e saído na Revista E, onde se conta a história do ex-funcionário do KGB que a revista Economist descreveu como medíocre quando ele ascendeu ao poder. E que parece ter sido subestimado por muita gente.

ALEXEY NIKOLSKY / SPUTNIK / KREM

No poder

Mesmo os críticos mais empenhados reconheceram a jogada de mestre. Horas antes de ter início o ano 2000, Boris Yeltsin anunciou ao seu país e ao mundo que a presidência russa mudava de mãos. Yeltsin retirava-se três meses antes do fim do seu mandato, deixando o cargo entregue a alguém que, explicou o presidente, "já demonstrou a sua capacidade": o então primeiro-ministro Vladimir Putin. Com a popularidade elevadíssima deste na altura, transformar uma presidência interina em presidência eleita devia ser mera formalidade. Assim esperavam todos, e foi mesmo o que aconteceu em março, entregando a Putin um poder que ele nunca mais largou.

O génio teve a ver sobretudo com timing. Naquele momento, a população mundial estava distraída. Na Rússia continuaria distraída ao longo dos dias seguintes, entregue à orgia de alcoolismo e festas que habitualmente acompanha a semana inicial do ano. Que melhor momento para publicar a lei nº 1 da era Putin, isentando de processos judiciais Yeltsin e todos os membros da sua extensa família? Embora o negócio parecesse óbvio – a troco da presidência, o gozo tranquilo de biliões roubados – poucas vozes se opuseram. Por um lado, de facto, quase ninguém estava a reparar. Por outro, o país vivia há muito na corrupção, tendo-se habituado a considerá-la normal. Ao menos com Putin parecia haver uma promessa mínima de ordem.

O ainda jovem político fizera uma entrada de leão em Outubro de 1999, quando Yeltsin o escolhera para primeiro-ministro, o último em meia-dúzia de nomes postos à prova nesse cargo durante três anos. À medida que se aproximava o final do seu segundo e último mandato, Yeltsin, cuja fama de bêbado só tinha paralelo na de corrupção entre a sua entourage, procurava garantir que jamais viria a ser incomodado. Isso exigia deixar o poder em mãos fortes e leais. Infelizmente, os anteriores primeiros-ministros, incluindo o antigo responsável dos Negócios Estrangeiros Evgeny Primakov, tinham falhado num ou em ambos esses departamentos. Ou eram fracos, ou pouco fiáveis. E a data fatal estava a chegar.

A lealdade de Putin era há muito conhecida. Enquanto chefe do FSB, antigo KGB, permitira a fuga do antigo presidente da câmara de São Petersburgo, Anatoly Sobchak, quando este se viu acusado de corrupção. Yeltsin fora número 2 de Sobchak na câmara, antes de Yeltsin o nomear para dirigir os serviços secretos. A teia de relações que lhe permitiu chegar ao topo formou-se durante esses anos vitais que se seguiram ao fim da URSS, através de aliados como Boris Berezovsky, um oligarca mais tarde caído em desgraça, mas então muito próximo de Putin e de Yeltsin. Terá sido Berezovsky a apresentá-los um ao outro e a afiançar o primeiro ao segundo. Ironias da história, considerando a inimizade mortal posterior entre o oligarca e o actual presidente.

Não muito depois de Putin ser nomeado por Yeltsin, explodiram bombas num complexo de apartamentos em Moscovo, matando centenas de pessoas. O governo apontou imediatamente o dedo a terroristas islâmicos. (Há quem garanta que foi o FSB a pôr as bombas, mas não parecem existir provas disso). Anos antes, Yeltsin lançara uma ofensiva militar na Chechénia, uma zona muçulmana da Rússia com aspirações independentistas. A guerra correu mal e negociou-se uma paz, mas a Chechénia continuou a gerar problemas abundantes, incluindo uma série de raptos com fins de extorsão. Provavelmente, seria mera questão de tempo até haver nova guerra. Mas Putin não se fez rogado em acelerar o processo.

Vamos matá-los na sanita se for preciso, disse publicamente o então primeiro-ministro, usando a linguagem de caserna que mais tarde se lhe tornou habitual. O exército russo entrou em Grozny e arrasou a cidade. Os relatos de atrocidades multiplicaram-se (consta que os russos chegaram a prender militantes a rockets que depois eram lançados) e a Europa disse-se escandalizada, mas a indignação não passou disso mesmo: dos protestos. Tirando alguns jornalistas excepcionalmente corajosos como Anna Politkovskaya, e alguns intelectuais ocidentais como André Glucksman, ninguém se inquietou muito ou durante muito tempo com a Chechénia. E quando alguém colocava directamente a questão a Putin, ele reagia mal. Um jornalista francês chegou a ser publicamente convidado, numa conferência de imprensa, a dirigir-se a Moscovo para ser circuncidado. Já que você é tão amigo deles, disse o presidente, “posso garantir que a operação será feita de modo que nada voltará a crescer”.

Os níveis de aprovação de Putin nas sondagens atingiram níveis estratosféricos. Após dez anos de anarquia, penúria e humilhações com Yeltsin, havia finalmente um líder que devolvia a Rússia à sua imagem tradicional de força. Um homem com disciplina férrea, que cultivava uma imagem enérgica e dura. Na década e meia seguinte, os russos assistiriam a inúmeras cenas em que o seu presidente surgia a caçar, a nadar, a conviver com tigres e golfinhos, a conduzir pássaros pelo ar num esquisito engenho, a dobrar uma frigideira... O macho alfa de uma sociedade que admirava a força, o único árbitro viável entre os poderes reais de um país gigantesco, que no fundo não haviam mudado e pouco tinham a ver com democracia.

Acima de tudo, ele era um homem que falava uma linguagem que o país entendia, prometendo restaurar a estabilidade e a glória que a Rússia perdera. Daí a acreditar que se tratava de um predestinado, ia um pequeno passo. Com a colaboração dos media oficiais e da Igreja Ortodoxa, que se tornou sua aliada, não tardou a ser dado.

“O sol e a lua” para os seus pais

Vladimir Vladimirovich Putin nasceu em São Petersburgo a 7 de outubro de 1952, um ano antes de morte de Estaline. Era uma época ainda muito marcada pela guerra. Tecnicamente, Volodya (diminutivo de Vladimir) não foi um rapaz de rua, pois cresceu no pátio da casa onde os seus pais viviam. É o tipo de pátio muito comum em São Petersburgo, um amplo espaço entre prédios que abrigam centenas de famílias, e no qual, a bem dizer, acontece quase tudo o que tipicamente se passa na rua entre rapazes: o convívio, as transações, as brigas… Volodya tinha ordens para nunca sair lá para fora, mas parece que uma vez desobedeceu e se aventurou com um amigo. Foi uma excursão perigosa, que chegou a meter viagens de combóio. Quando regressaram a casa, os dois meninos foram severamente castigados, servindo-lhes de emenda.

A família Putin tinha ligações ao partido. Um dos avôs fora cozinheiro de Lenine, e a seguir de Estaline. Quanto ao pai de Volodya, durante a II Guerra Mundial participou em diversas operações de sabotagem que sugerem envolvimento dos serviços secretos. Na memória familiar tinham proeminência as explorações heróicas do pai, que incluíam ser preso pelos alemães e escapar, ser ferido… Se ele pertencia ao KGB, é provável que tenha continuado lá depois da guerra, e não seria estranho que a família ignorasse, ou não quisesse saber. A primeira instrução que um agente secreto recebe é não revelar essa condição à esposa, como precaução elementar. Muitos dos agentes têm uma identificação policial normal que lhes serve de cobertura.

No pós-guerra as privações eram muitas pelo país todo, e a família Putin não escapou. No entanto, há indícios de que poderão ter beneficiado de um estatuto especial. O pai usava relógio de pulso, o que não era comum, e a certa altura passou a ter um carro, supostamente ganho numa lotaria. O carro seria imediatamente entregue a Vladimir, o qual para os pais "era o sol e a lua", segundo disse mais tarde um amigo. O carro daria uma grande contribuição para a sua vida social de adolescente, mas nessa altura já há muito que ele se evidenciava entre os colegas.

Começara cedo. Sendo franzino e pouco espigado (ainda hoje há quem use o adjectivo "diminutivo" para referir o seu metro e setenta), estava sujeito à brutalidade alheia, numa sociedade com um nível geral de violência física que sempre foi alto. Após algumas experiências desagradáveis, resolveu aprender boxe para se defender. Mas partiram-lhe o nariz, e ele achou a dor excessiva. Então falaram-lhe no sambo, uma forma mista de artes marciais. Do sambo passou para o judo, no qual se fixou. Aprendeu rapidamente, e acabou campeão de São Petersburgo ao fim de poucos anos.

Vários amigos contaram cenas de rua que são sempre do mesmo tipo. Alguém provocava Vladimir, exigindo-lhe qualquer coisa (cigarros, etc) ou insultando-o. Primeiro ele primeiro reagia com calma. O provocador insistia, e no momento seguinte ia a voar pelo ar, estatelando-se com fragor. Estas recordações foram publicadas quando Putin já era presidente, mas é provável que haja nelas alguma verdade. Em todo o caso, é a imagem que o próprio Putin fez questão de dar desses seus anos de crescimento. "Eu era um bruto", disse ele a um biógrafo. A mudança redentora terá acontecido aos dez anos, por obra de uma excelente professora e das artes marciais. A partir daí e até hoje, disciplina passou a ser a palavra de ordem.

Uma misteriosa história de corrupção

Desde muito novo que ele tinha atracção pelos serviços secretos. A explicação que mais tarde deu para isso – convém notar que se sabe muito pouco da sua infância e juventude; um líder do FSB teve mais do que tempo para apagar o que quis – foram romances de aventuras populares da altura. Putin diz que o fascinava a ideia de uma pessoa que podia, actuando na sombra, influenciar mais os grandes assuntos do mundo do que qualquer político. Ainda adolescente, foi ao departamento local do KGB oferecer os seus serviços. Disseram-lhe que o KGB não aceitava candidatos por iniciativa própria – muito menos candidatos que nem sequer um curso tinha. Sugeriram-lhe o de Direito. Ele foi tirá-lo. Algum tempo após a licenciatura (continuamos na versão dele), alguém o contactou e ele percebeu que o antigo sonho se ia tornar realidade.

A carreira como agente, porém, não foi um percurso glorioso. Não há notícia de acções notáveis na URSS, e a única colocação de Putin no estrangeiro teve lugar em Dresden, uma cidade na Alemanha Oriental, que era um país aliado. O principal efeito desse período na sua personalidade terá sido o amor que lhe ficou pelos padrões de vida ocidentais. Putin conheceu bem a Alemanha ocidental durante esses anos, e tanto ele como a sua mulher – entretanto casara com uma hospedeira, Ludmilla, que lhe deu duas filhas – passaram a desfrutar de alguns confortos que nunca tinham tido na URSS.

Regressado a casa, apanhou o período pós-soviético e meteu-se na política. Demitindo-se formalmente dos serviços secretos (há quem diga que nunca saiu realmente…), foi trabalhar na câmara ao lado de Anatoly Sobchak, que tinha sido seu professor na faculdade. A sua carreira quase ficaria arruinada por causa de um escândalo envolvendo fornecimentos alimentares numa altura em que havia fome na cidade. Ao que parece, os alimentos supostamente comprados à Alemanha nunca chegaram, e desapareceram milhões. Mas Putin continuou no seu posto, e quem teria de fugir para um lugar remoto foi uma deputada que tentou denunciar a situação.

A suspeita de que Putin beneficiava de protecção especial acompanhou toda a sua carreira, e nesse período já se notava bastante.

Pactos com o diabo

Durante os seus anos iniciais como presidente, a partir de 2000, Putin tinha índices estratosféricos de popularidade na Rússia. Para isso, ainda mais do que a guerra na Chechénia, contribuíram duas mudanças que melhoraram bastante a vida de grande parte da população. Uma foi o facto de os ordenados e as pensões dos cidadãos terem voltado a ser pagos com regularidade.

Durante os anos Yeltsin, a derrocada de muitas indústrias do período soviético levara ao caos económico, culminando na crise 1998, quando a URSS incumpriu a sua dívida. Para os cidadãos que sempre tinham vivido na regularidade da vida soviética – havia pouco, mas sempre chegava a tempo – era uma situação nova e extremamente perturbadora. Putin não só conseguiria pagar os ordenados a tempo, como em muitos casos os fez subir substancialmente, algo que foi possibilitado pela subida acentuada do preço do petróleo e do gás na década inicial do século XXI. Daquele primeiro produto, a Rússia é um dos maiores produtores mundiais; do segundo, é o maior.

Outro problema angustiante era o da segurança, com mafia e gangs a actuar abertamente no país. Há quem diga que o génio de Putin esteve no modo como ele tirou os bandidos das ruas e os meteu no Estado. Se isso levou a que a corrupção crescesse exponencialmente, também permitiu que os cidadãos voltassem a poder fazer a sua vida diária sem medo de serem agredidos, ou pior.

Tão satisfeitos ficaram que Putin pôde ir tomando medidas para concentrar poder sem protestos maciços nesse país que ainda recentemente tinha saído da ditadura. A televisão, de longe o principal meio informativo, voltou a ser pertencer ao Estado. Os governadores das várias partes da Federação Russa, que eram eleitos directamente, passaram a ser escolhidos pelo presidente. E o outro grande poder alternativo do país, os oligarcas que se tinham apossado das principais industriais no país por meios ínvios no tempo de Yeltsin, passaram a estar sob controle do Kremlin.

MIKHAIL KLIMENTYEV/AFP/Getty Images

A exacta natureza do pacto entre Putin e gente como Abrahmovich ainda hoje é discutida, mas parece claro que eles tiveram autorização para conservar a riqueza adquirida, sob duas condições básicas. Uma foi jamais fazerem oposição política ao governo. Um oligarca que não cumpriu neste aspecto foi Mikhail Khodorkovsky. Tornara-se o homem mais rico do país, e achou que podia fazer intervenções públicas a denunciar a corrupção no país. O esforço valeu-lhe dez anos na cadeia e o desmantelamento da sua gigantesca empresa petrolífera, a Yukos, cujos despojos foram repartidos por outras, encabeçadas por aliados do Kremlin.

A outra condição imposta aos oligarcas foi que partilhassem parte dos despojos. No tempo de Putin, a classe dos siloviki (“durões”; o termo refere indivíduos oriundos das forças de segurança) passou a dominar o país. Consta que muitos terão acumulado fortunas fabulosas, como aliás será o caso do próprio Putin, cujo património pessoal já foi estimado em milhares de milhões de dólares. Ele nega, embora as suas tendências aquisitivas sejam conhecidas há muito tempo, e até já tenham dado origem a situações embaraçosas. Por exemplo, quando ele repara nalgum objecto caro que um visitante estrangeiro traz consigo e pede para ver. Às vezes acontece o visitante ficar sem a peça em causa, pois o presidente gostou tanto que a meteu ao bolso e a levou consigo, ficando o visitante a olhar enquanto ele se afasta, rodeado pelos guarda-costas.

Litvinenko e outros casos de assassinato

Se a guerra da Chechénia foi a base da popularidade de Putin, também deu origem a dois dos episódios mais embaraçosos do seu reinado. Em 2002 a tomada de reféns num teatro em Moscovo, levada a cabo com o objectivo de conseguir a libertação de rebeldes chechenos, acabou em tragédia quando as autoridades, enquanto fingiam negociar, introduziram no teatro um gás entorpecedor. Na realidade, a dose estava mal calculada, e o gás matou 133 reféns. Não menos inapta foi a reacção do governo quando outro grupo checheno ocupou em 2003 uma escola em Beslan. Também aí a situação acabou em tragédia, com 334 mortos, dos quais 186 foram crianças.

Sobre a atitude do governo russo em relação à vida dos seus cidadãos, talvez o aviso terá surgido logo ao início da era Putin, quando um submarino nuclear, o Kursk, se avariou devido a uma explosão e ficou retido sob o mar de Barents. Putin nem chegou a interromper as suas férias para lidar com a crise, e os tripulantes morreram todos. Poderiam ter sido salvos se tivesse sido aceite a ajuda oferecida pela marinha norueguesa. Quando um governo russo totalmente incapaz de lidar com a situação aceitou por fim essa ajuda após cinco dias, as portas do submarino foram rapidamente abertas, mas era demasiado tarde.

Ao longo dos anos, houve manifestações adicionais de ferocidade. Por exemplo, a quantidade de jornalistas que foram sendo assassinados em circunstâncias misteriosas, incluindo Anna Politivskaia, grande inimiga de Putin, abatida à porta do seu apartamento em Moscovo (Ela não era muito importante no país, comentou o presidente na altura). Ou o assassinato do ex-agente do FSB Alexander Litvinenko em Londres. Litvinenko foi morto com polónio, um elemento atómico extremamente raro, cuja produção exige meios que apenas estão ao alcance de muito poucos governos no mundo. Um deles é o russo.

Existem abundantes provas – materializadas num rasto radioactivo deixado em quartos de hotel, aviões, etc – de que um aliado político do presidente, Andrey Lugovoi, deitou o polónio no chá de Litvinenko durante um encontro num hotel londrino. Lugovoi é um ex-guarda-costas do KGB que se meteu nos negócios e na política. Actualmente é deputado na Duma, o parlamento russo. O governo rejeitou o pedido de extradição apresentado pelo Reino Unido, que há um ano arquivou o caso apesar de haver “prima facie evidence”, evidências aparentes, contra o estado russo. Recentemente, já em plena crise na Ucrânia, as autoridades britânicas decidiram que afinal vão proceder a um inquérito formal. Entretanto, há dias foi anunciado na Rússia que Lugovoi vai apresentar um programa televisivo sobre… traidores.

O caso Litvinenko ilustra o modo desafiante como o presidente russo lida com acusações criminais susceptíveis de o atingir indirectamente. Um exemplo mais recente foi o caso Magnitsky, quando um advogado russo com clientes americanos foi preso, sob acusações aparentemente falsas de evasão fiscal, por denunciar aspectos de corrupção. Maltratado na cadeia e impedido de aceder a tratamentos de que tinha necessidade urgente, morreu na sua cela ao fim de um ano, em 2009. Um dos seus clientes, o investidor Bill Broder, lançou então uma campanha nos EUA para impor sanções aos responsáveis públicos russos associados com o assunto, e o resultado foi a chamada lista Magnitsky, que atinge dezoito pessoas, entre as quais investigadores, procuradores e juízes.

Como resposta, o governo russo ordenou o julgamento de Serguei Magnitsky. Em 2013, ele foi condenado postumamente por evasão fiscal...

Reprimir a oposição

Em 2008, findos os dois mandatos presidenciais que a constituição lhe permitia, Putin trocou de lugar com o seu primeiro-ministro, o amigável Dmitri Medvedev, que foi eleito presidente e o nomeou primeiro-ministro. Pouca gente teve dúvidas sobre onde continuava a residir o verdadeiro poder. Quaisquer que restassem foram desfeitas quando, ao fim de quatro anos, a coreografia se inverteu e os dois homens anunciaram que ia voltar a trocar de posto após as presidenciais de 2012. Desta vez, porém, houve protestos populares, e as manifestações atingiram uma intensidade que Putin não esperava.

Assim que foi eleito para o seu terceiro mandato, ele começou a esmagar a oposição com métodos ainda mais directos do que antes. Vários políticos rivais foram acusados de corrupção e presos, com presas foram as participantes na famosa performance do grupo feminista Pussy Riot numa catedral de Moscovo. O acto visava denunciar a ligação estreita da Igreja Ortodoxa com Putin, mas o resultado foram quase dois anos de cadeia para duas das mulheres (uma terceira que também havia sido presa foi libertada mais cedo). Durante esse período, uma delas aproveitou para denunciar as condições brutais de exploração na colónia penal longínqua para onde tinha sido enviada.

As duas só seriam libertadas, tal como Khodorkovsky, em vésperas dos Jogos Olímpicos de Sochi, no Inverno passado. O presidente tencionava fazer do evento uma espécie de consagração oficial e não queria sombras a pairar. Mas aconteceria o oposto. A imprensa internacional deu repetidamente voz aos críticos da recente lei anti-gay no país (resposta de Putin: “Gostava de chamar a atenção para o facto de que na Rússia, ao contrário do que acontece num terço dos países no mundo, ser gay não é crime”) e demorou-se em histórias de corrupção que ajudavam a explicar a extraordinária quantia gasta, mostrando aspectos anedóticos como as casas-de-banho onde havia duas retretes colocadas literalmente ao lado uma da outra, sem qualquer separação. Putin ficou furioso, e deu-o a entender.

Quando logo a seguir, após meses de protestos públicos e de um massacre de manifestantes na praça Maidan, o governo de Viktor Yanukovich foi derrubado e a Ucrânia rejeitou a zona euro-asiática proposta por Putin em favor de um acordo de associação com a União Europeia, a paciência dele chegou ao fim. Anexou a Crimeia e começou a incentivar, e depois a apoiar militarmente, a rebelião da população pró-russa no leste do país, apesar de o governo garantir que não tem qualquer tipo de participação no assunto, e que mesmo os soldados russos que às vezes são feitos prisioneiros na Ucrânia são gente que aproveitou as férias para ir combater ao lado dos seus irmãos…

Na verdade, estes gestos estavam em preparação há muito tempo, como se vê pela precisão com que a operação na Crimea foi conduzida, e pelo facto de intelectuais próximos do presidente há muito os defenderem. Um deles chegou a dizer que a presença de russos em países antes pertencentes à União Soviética devia ser usada como pretexto para Moscovo exercer neles influência, militar se necessário. O próprio Putin considerou um dia que o fim da URSS tinha sido a maior tragédia do século XX, embora diga não ter intenções de a recriar: “Quem não lamenta o fim da União Soviética não tem coração, quem quer restaurá-la não tem cabeça”.

A sua presente conduta em relação à Ucrânia teve antecedentes, na Geórgia e não só. Ele está no poder há bastante tempo. O preço do petróleo não deverá regressar aos cumes que atingiu durante os seus anos iniciais. A economia ia sofrer, mesmo antes das recentes sanções internacionais contra o país. É sabido que, quando um poder autoritário entra em decadência, tende a recorrer a meios drásticos para controlar as forças centrífugas. Um desses meios podem ser medidas contra categorias de pessoas que muitos cidadãos desprezam; por exemplo, os chechenos, geralmente desprezados no país, ou os gays, num país onde mais de oitenta por cento das pessoas se afirmam contra a homossexualidade.

Esses meios Putin já tentou, com sucesso. Outro meio talvez ainda mais eficaz é uma guerra. De momento, a avaliar pelas sondagens, está a resultar. Falta ver como será quando soldados russos mortos começarem a ser tema de discussão aberta. Há cada vez mais relatos de esforços que o governo tem feito para abafar as notícias sobre funerais, e como a situação está o problema só pode aumentar.