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Como o ‘perigoso’ esquerdista passou a falar para os mercados

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Alexis Tsipras chegou ao poder em 2015 vindo da esquerda mais radical e preparado para lutar contra o poder europeu. Acabou por aceitar um novo resgate, foi às urnas e venceu. Três anos depois, prepara-se para sair do programa da troika com uma economia a crescer, contas controladas e a falar para os investidores com quem conta para comprar dívida grega

João Silvestre

João Silvestre

em Atenas

Editor de Economia

Atenas tem segurança como não se vê em Lisboa. Não são apenas os polícias fortemente armados por todo o lado, nem os seguranças privados à entrada das lojas com coletes de proteção. É também o tempo necessário para entrar na residência oficial do primeiro-ministro, Alexis Tsipras. Todos os países tem a sua segurança mas, para quem vai de Portugal, a Grécia quase parece um estado securitário.

Lá dentro, no entanto, depois dos detetores de metais e das revistas, o ambiente é bastante mais descontraído. Não apenas pelo fumo de cigarro (quase) sempre presente, mas porque o próprio primeiro-ministro se apresenta bem-disposto e brincalhão. Para que não haja dúvidas, Tsipras é o líder do Syriza, uma coligação de partidos de esquerda que se apresentou pela primeira vez a eleições como um único partido em maio de 2012. Conseguiu nessa altura 16% dos votos.

Até à vitória foi um curto espaço de tempo. Logo nesse ano, subiu para mais de 25%, num segundo sufrágio. Em 2014, venceu as europeias e, poucos meses mais tarde, em janeiro de 2015, foi o partido mais votado em novas legislativas, com 36,3%. Ficou à beira de uma maioria absoluta parlamentar, que assegurou com o apoio dos deputados do partido de direita eurocético Gregos Independentes (ANEL).

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Faltam seis meses para o fim de um resgate de 8 anos

Mas, quem ouvisse esta quarta-feira o chefe do Governo grego falar, poderia até achar que estava a falar com um ‘homem dos mercados’. “As yields [taxas de juro] da dívida a 10 anos em 3,7% é um voto de confiança na economia grega por parte dos investidores e dos mercados de capitais”, sublinhou Alexis Tsipras num encontro com jornalistas na sua residência oficial em Atenas.

A Grécia está a seis meses de terminar o (longuíssimo) resgate que dura há oito anos e quer ter uma ‘saída limpa’, como tiveram Portugal e Irlanda. Ou seja, sair sem qualquer tipo de programa cautelar, que implica sempre eventuais medidas adicionais ou, pelo menos, um controlo mais rigoroso das instituições credoras internacionais. Tsipras sabe disso e, por isso, destaca os pontos positivos da economia grega nesta altura: uma economia que voltou a crescer depois de ter acumulado uma queda na ordem dos 25% do PIB durante os anos de recessão, um desemprego que caiu quase um terço desde o pico e saúde nas contas públicas.

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Lá, como cá, as metas orçamentais têm sido sistematicamente ultrapassadas. A Grécia também conseguiu, de resto, sair do Procedimento por Défice Excessivo, no verão passado. Os objetivos orçamentais são fixados em termos de excedente primário (sem juros), e desde 2015 que a Grécia ultrapassa os mínimos exigidos. Logo nesse ano, da chegada de Tsipras ao poder, o excedente primário atingiu 0,2% do PIB, quando a troika se contentava com um défice de 0,25% do PIB. A partir daí foi sempre a subir: 4,2% em 2016 contra a meta de 0,5 e um valor superior a 4% no ano passado (ainda não está fechado oficialmente), face a um objetivo de 1,75%.

“Este bom sentimento não é apenas nosso, é também dos mercados”, diz Tsipras. Mas avisa que a melhoria das contas públicas não é um fim em si mesmo: “O objetivo não é apenas a consolidação orçamental, é corrigir os estragos e as lesões que levaram a Grécia a esta situação. O ponto crucial para nós é haver dados positivos para a vida diária dos gregos.”

“A Grécia está diferente”

Em poucas palavras, o primeiro-ministro que lidera os gregos desde 2015 e que dentro de pouco mais de um ano e meio vai voltar a eleições resume o espírito que se vive em Atenas: “A Grécia está diferente”. Aquele que era visto como um perigoso esquerdista em 2015, quando chegou ao poder, pede mais para o futuro e, para isso, conta com reformas estruturais e uma nova estratégia de crescimento. As reformas estruturais que estão sempre no discurso nas instituições internacionais e que aqui Tsipras assume como suas. Diz mesmo: “Não temos a ownership da austeridade mas temos a ownership das reformas estruturais.”

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A confiança é tanta que Tsipras não parece deixar-se abalar pela recente turbulência nos mercados. “Não acredito que a turbulência seja permanente”, disse aos jornalistas, mantendo o plano para fazer algumas emissões de dívida até agosto, quando termina oficialmente o programa. Nessa altura, deverá estar também tomada a decisão sobre a forma de alívio da dívida que permitirá à Grécia aliviar a pressão a médio e longo prazo que deverá passar por ligar o prazo de pagamento da dívida ao crescimento do PIB.

Parece música para os ouvidos dos mercados cujo papel é decisivo para uma saída limpa. Saldos primários elevados e a bater metas da troika; promessa de reformas estruturais para acelerar o crescimento; perspetiva de alívio da dívida; e confiança num regresso em breve aos mercados. Tudo ingredientes que fazem de Tsipras um pragmático nesta altura decisiva da economia grega.

E ele explica porquê: “Não foram decisões fáceis para nós, principalmente em 2015. O momento crucial foi logo após o acordo com os credores ao dizer a verdade às pessoas e pedir um novo mandato através de eleições. Decidimos ficar na zona euro e tentar recuperar.” Para setembro de 2019, data das eleições, Tsipras promete uma descida adicional de cinco ou seis pontos na taxa de desemprego, que atualmente está próxima de 21%.

O jornalista viajou a convite da Comissão Europeia