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O fundador icónico de uma empresa ícone

Dos móveis desmontados da IKEA ao passado fascista reconstituído, Ingvar Kamprad era uma figura de simplicidade às vezes ilusória

Luís M. Faria

Jornalista

FABRICE COFFRINI / AFP / Getty Images

Para quem estiver à procura de contradições, uma loja IKEA dá para tudo. O cliente escolhe a mobília à vontade, sem a pressão dos empregados (liberdade), mas tem de seguir um caminho pré-definido dentro da loja (controlo). Os produtos são desenhados com astúcia e abundam em achados felizes, mas não se trata de mobiliário de alta qualidade. O lugar é ao mesmo tempo conveniente e algo opressivo. Chega fatalmente um momento em que, cansados de tantas boas ideias e de tanta gente – e carregados de bagagem –só desejamos mesmo sair dali e não voltar tão cedo. A biografia do fundador da IKEA, falecido este sábado com 91 anos, dá um pouco a mesma sensação.

Ingvar Feodor Kamprad veio ao mundo pobre e acabou como um dos homens mais ricos do mundo – embora o negasse e fizesse gala em exibir um estilo de vida modesto. Nascido a 30 de março de 1926 em Småland, uma zona agrícola no sul da Suécia, era filho de camponeses. Cresceu na quinta da família, mas aos cinco anos já exibia espírito empreendedor, vendendo fósforos aos vizinhos. Aos sete começou a usar a bicicleta para alargar a sua zona de atuação. Expandiu-se a canetas, sementes e outros produtos, comprando em grosso para vender a retalho. E aos 17, usando dinheiro que o pai lhe dera como prenda pelos bons resultados escolares (Kamprad era disléxico), fundou a IKEA, criando o nome a partir das iniciais do seu primeiro e último nome, mais a do nome da sua aldeia e do nome da quinta da família.

Inicialmente uma companhia de vendas por correio, a IKEA só ao fim de uns anos começou a incluir mobília entre os seus produtos. Como se revelou um tipo de artigo extremamente popular, Kamprad decidiu concentrar-se nele e deixar o resto. Em 1953 abriu o primeiro salão de exposição, que em 1958 se tornaria a primeira loja IKEA. Foi em Älmhult, uma pequena cidade de Småland, onde atualmente fica o Museu IKEA.

Pelo caminho tinha surgido um elemento essencial da fórmula: a criação de móveis desmontáveis que se transportam numa embalagem plana, com instrucões de montagem para os clientes. Isso ajudou imenso a aproveitar o espaço nos camiões e a popularizar a marca. Hoje, a IKEA tem mais de 400 lojas pelo mundo fora, das quais só uns dez por cento são franchisings. A preocupação de controlo traduz-se num sistema interno de funcionamento bastante elaborado e numa estrutura de propriedade concebida ao mesmo tempo para minimizar a carga fiscal e para permitir dizer que a fortuna do fundador e dos seus familiares está muito longe das dezenas de milhares de milhões que lhes atribuem.

Formalmente, a empresa é controlada por fundações baseadas em países como Holanda e o Luxemburgo, que supostamente reinvestem os lucros na própria empresa ou em atividades beneficentes. Há anos, por exemplo, fizeram uma doação de 50 milhões de euros à agência das Nações Unidas para os refugiados. Mas comparadas com outras fundações de dimensão comparável, em especial a de Bill Gates, as somas gastas em beneficência são relativamente exíguas.

"O erro mais estúpido da minha vida"

"A minha tarefa, tal como a vejo, é servir a maioria das pessoas. Mas como se descobre o que elas querem, como podemos servi-las melhor? A minha resposta é ficar próximo das pessoas comuns, pois no meu coração sou uma delas", disse Kamprad à revista "Forbes" em 2000. Simplicidade e frugalidade sempre foram os elementos-chave do seu estilo. Tornaram-se lendários hábitos seus como o de viajar em segunda classe e o de usar roupas em segunda mão, bem como o velho Volvo que continuava a guiar. "Sou uma pessoa muito poupada, e as lojas são para pessoas como eu", justificava. Na verdade, além do Volvo, consta que também tinha pelo menos um Porsche, e a sua casa na Suíça – para onde se mudou e viveu durante décadas por razões fiscais – era uma mansão ă beira do lago Genebra.

Nada disto será especialmente surpreendente. O mesmo não se pode dizer das revelações sobre o passado de Kamprad que surgiram em 1994. Durante a II Guerra Mundial, ele aderiu e participou ativamente no movimento fascista, chegando a recrutar pessoas. Mesmo depois de 1945, manteve a relação com um líder fascista, Per Engdahl, a quem exprimia orgulho pelo que tinham feito. Foi a abertura dos arquivos de Engdahl após a sua morte que desencadeou as revelações sobre Kamprad. Na altura, ele enviou uma mensagem aos empregados da IKEA a lamentar "o erro mais estúpido da sua vida", atribuindo-o em parte à influência de uma avó alemã.

A empresa acabou por não ser afetada e Kamprad, na prática, também quase não foi. A Suécia não estaria especialmente interessada em discutir o seu envolvimento com os nazis, e o fundador da IKEA era uma figura popular. Ele invocava frequentemente as suas origens, e até as cores da empresa, amarelo e azul, são as da bandeira sueca. A ministra dos Negócios Estrangeiros do país, Margot Wallstrom, foi apenas uma de várias figuras a exprimir condolências. As vendas anuais da IKEA aproximam-se dos 37 mil milhões de euros.

  • Morreu o fundador do IKEA

    Criador de um império onde reinava a criatividade e funcionalidade, Ingvar Kamprad morreu este domingo em casa, em Smaland, na Suécia. Tinha 91 anos.