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Périplo europeu de Theresa May espalha desconfiança entre os diplomatas da UE

Dan Kitwood

Oficialmente, vários ministros britânicos estão a visitar as capitais europeias para explicar o discurso que Theresa May proferiu na semana passada em Florença. Contudo, vários diplomatas em Bruxelas e nessas capitais suspeitam de uma tentativa de Londres de contornar a autoridade de Michel Barnier, nomeado pela Comissão Europeia para negociar a saída do Reino Unido, numa altura em que este continua a rejeitar o pedido dos britânicos para que se comece a negociar já as relações pós-Brexit

Primeiro, o Executivo de Theresa May aproveitou as férias de verão para apresentar uma série de documentos de orientação para as negociações do Brexit, que o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, criticou de imediato por serem "pouco satisfatórios". Depois, a terceira ronda de conversações entre Bruxelas e Londres, depois do início das negociações diretas em março, foi adiada a pedido da primeira-ministra britânica porque estava a preparar-se para fazer um discurso no qual ia delinear o seu plano concreto para retirar o Reino Unido da União Europeia.

O discurso veio, com poucos pormenores sobre questões fulcrais como a "fatura do divórcio" que Bruxelas quer saldada para concluir a saída, em março de 2019. Depois dele, veio a retomada das negociações esta segunda-feira. E rapidamente, os negociadores comunitários voltaram a avisar que continua a não haver "progressos suficientes" para que se possa dar início aos debates sobre a futura relação comercial do bloco com os britânicos — algo que, defende o governo de May, devia estar a decorrer em simultâneo com as negociações de saída.

Foi neste enquadramento, e com essa quarta ronda ainda a decorrer em Bruxelas, que o governo de May lançou esta semana uma "ofensiva de charme" diplomática que vai levar a primeira-ministra e alguns seus ministros, entre eles o responsável do Comércio, Liam Fox, a várias capitais europeias. Oficialmente, o objetivo do périplo é desconstruir o discurso proferido por May em Florença na sexta-feira — e, no caso de Fox, promover as trocas comerciais — mas vários diplomatas sediados em Bruxelas e nessas capitais temem que o verdadeiro objetivo seja outro: contornar o mandato que os 27 atribuíram a Michel Barnier, o responsável do executivo comunitário a cargo de negociar a saída do Reino Unido, na tentativa de convencer cada Estado-membro a apoiar o seu programa para o Brexit.

Isto surge a menos de um mês de os líderes se reunirem na cimeira do Conselho Europeu para decidirem se as negociações do Brexit podem avançar para a próxima fase e numa altura em que Bruxelas continua a sublinhar que as propostas de Londres são "insuficientes" para se começar a negociar as relações comerciais e de outra índole. A par de Fox, também David Davis, ministro britânico para o Brexit, e Boris Johnson, o combativo ministro dos Negócios Estrangeiros, estão em missão esta semana.

Na segunda-feira, o chefe da diplomacia do Reino Unido, que defende uma versão dura do Brexit, embarcou numa viagem de dois dias a três países da UE para debater questões de "segurança" com Praga, Bucareste e Bratislava, segundo informações do seu gabinete. Davis, por sua vez, esteve reunido com o ministro belga dos Negócios Estrangeiros no início da semana, antes de ontem partir para Haia para se encontrar com o chefe da diplomacia holandesa. No dia anterior, Fox já se tinha encontrado com o ministro holandês e com líderes de organizações de trocas e comércio, antes de partir para Bruxelas para uma reunião com Cecilia Malmström, a comissária europeia do Comércio. Fontes oficiais britânicas dizem que, ao longo dos próximos dias, Davis vai visitar uma série de outros países da Europa continental, mas o plano ainda não foi confirmado pelo governo.

O périplo em curso coincidiu com o almoço de trabalho de May com o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, que ontem foi recebido em Downing Street a convite de Londres; foi no final desse encontro que Tusk voltou a ecoar o aviso de Bruxelas sobre a ausência de "progressos suficientes" nas negociações de saída que possibilitem ao Reino Unido avançar com a discussão de futuras trocas.

Vários diplomatas da UE dizem que estas viagens aparentam ser uma tentativa de dar início a essas discussões bilaterais sobre a futura relação do Reino Unido com os 27, avisando que podemos estar perante uma campanha para dividir o bloco, isto depois de na segunda-feira Barnier ter referido que, apesar da nova posição os britânicos de maior abertura quanto aos dois anos de transição pós-Brexit, continua a não haver conclusões significativas quanto à 'fatura do divórcio', aos direitos dos cidadãos da UE e à fronteira irlandesa. Sem esses termos definidos, os debates sobre o futuro pós-separação continuarão a ser adiados, avisou.

"Os britânicos estão a levar a cabo uma ofensiva de charme", garante um diplomata da UE ao Politico. "E pelo que sei, não é muito eficaz: toda a gente [Estados-membros] está a fazer finca-pé e penso que isso reforça extremamente a UE a 27. Nunca pensei que os britânicos fossem tão dados a charme, mas veremos... Só há um negociador [do lado da UE] e esse negociador é Barnier." Outro diplomata de Bruxelas acrescenta: "Estes esforços são uma tentativa de tentar suavizar a posição de alguns países antes do jantar em que May vai participar na quinta-feira" — uma refeição integrada na cimeira digital da UE que vai começar amanhã em Tallinn.

Questionado sobre o potencial sucesso deste programa britânico, um diplomata de um dos Estados-membros garante: "Independentemente das tentativas deles, não vamos avançar com negociações bilaterais, ninguém abandonou a fileira até agora. Queremos avanços nesta primeira fase antes de começarmos a negociar questões de comércio, de segurança e de qualquer outro tópico relacionado com as relações futuras."

Esta versão do périplo é rejeitada por fontes oficiais londrinas; dizem que o facto de Davis se ter encontrado com o coordenador do Parlamento Europeu para o Brexit na segunda-feira denota que o Reino Unido não está, de forma alguma, a tentar contornar Barnier e a Comissão. "As negociações estão a decorrer em Bruxelas", defende uma fonte do governo de May. "[Estas viagens] têm a ver com as nossas relações bilaterais, queremos que os nossos aliados ouçam diretamente o que temos a dizer."