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A aldeia solar que mostra o caminho

Energia. Os moradores de Valverde estão a testar um sistema de produção e armazenamento de energia que lhes permite poupar na fatura e ajudar o ambiente

Pouco passa das 17h e apesar de o Alentejo certamente já ter reservado tardes mais quentes, o calor faz-se sentir com intensidade nas ruas com casas caiadas de Valverde. Enquanto observamos uns painéis solares que quase se confundem com um telhado, Custódia Araújo surge à porta: “Entrem, entrem que aqui dentro está mais fresco. Com o ar condicionado é outra coisa.” Num ambiente mais acolhedor para a conversa, a professora da Universidade da Évora recebe-nos numa de 25 casas num projeto piloto que está a mudar a cara da pacata aldeia de 700 moradores. “Foi a coisa mais importante a acontecer aqui desde o século XVI, quando construíram o Conventinho [do Bom Jesus de Valverde]”, atira.
Dá pelo nome de Sensible e trata-se de uma iniciativa comunitária de €15 milhões, com financiamento do Programa Horizonte 2020 da Comissão Europeia, e que integra 14 parceiros de seis países europeus. Em Portugal, o programa é liderado pela EDP e, além de outros parceiros, envolve a Siemens e o INESC TEC para testar tecnologias de gestão e armazenamento de energia, ao nível da baixa e da média tensão, que permitam uma gestão otimizada da rede em cenários de forte penetração de produção renovável. “Estamos a perceber como podemos tornar a distribuição mais eficiente”, garante Ricardo André. Numa das salas da junta de freguesia local (da união de freguesias de Nossa Senhora de Tourega e Nossa Senhora de Guadulupe, do concelho de Évora), o gestor do projeto Sensible fala de algo que apesar dos muitos “desafios técnicos na implementação” tem dado para perceber como “o impacto sócio-económico pode ser relevante.” Até porque tem a certeza de estarem a “desenhar parte do futuro das redes inteligentes partilhadas” que já permitiu aos participantes uma poupança anual em média de €300 euros na fatura energética desde 2017.


Ninguém dá nada...
Juntamente com Nottingham, no Reino Unido, e Nuremberga, na Alemanha, Valverde é uma de três montras do projeto europeu e o presidente da junta não esconde que ficou “surpreendido” quando o contactaram para perceber o interesse em fazer parte do projeto. A resposta foi um sim claro, mas Joaquim Pimpão também confessa que inicialmente não foi fácil convencer os habitantes até porque, se há verdade universal, é que “ninguém dá nada a ninguém e as pessoas desconfiam.” Os custos de instalação gratuitos e as poupanças financeiras projetadas acabaram por convencer apesar de o projeto só se poder instalar num número finito de residências. “E a receção tem sido muito boa”, diz o presidente.
As casas foram equipadas com sistemas de microgeração fotovoltaica, sistemas de gestão de energia, baterias e também termoacumuladores inteligentes, para a produção de energia e gestão de sistemas de consumos de eletricidade, enquanto a aldeia recebeu quatro sistemas de armazenamento e um sistema de automação avançada. Equipamentos que permitem aos clientes ainda produziram e armazenaram energia além da que necessitam para os consumos diários e fazem com que a rede possa funcionar independentemente só com a partilha destes excessos, quase “como uma ilha”, explica Ricardo André. Algo disruptivo que aconteceu pela primeira vez “a nível nacional” a 2 de julho em Valverde, “com flexibilidade dos clientes” e que serviu como prova de conceito daquilo que os responsáveis pelo projeto acreditam poder ser uma das características das redes do futuro. Sem esquecer as poupanças financeiras que costumam andar pelos 25%.
Custódia certamente não esquece e, do fresco da sua sala, recorda o dia “em que saiu de casa para se casar” ao mesmo tempo que entravam os técnicos para instalar as ferramentas e conta como se presta sempre atenção às horas de maior sol para “colocar mais equipamentos a funcionar” e produzir energia nas alturas em que não há luz solar. A gestão dos consumos é facilitada pelo acesso a uma plataforma que também recolhe dados dos contadores inteligentes do projeto InovGrid (de que Évora foi o embrião) e permite consultar os dados mais relevantes. “Até a minha mãe de 87 anos tem o cuidado de ver se está sol antes de fazer lavar a roupa na máquina”, conta, entre risos.

Mais projetos
Os reflexos no ambiente também merecem destaque, com a professora a acreditar que está a contribuir para um futuro mais sustentável para as próximas gerações e que ajude a preservar aldeias como Valverde. Que dá o apelido a Paulo, nascido e criado na localidade e proprietário do snack-bar Laranjinha, onde também foram instalados os instrumentos do Sensible. “Tem sido uma mais-valia e uma grande ajuda” revela, enquanto lida com os clientes de sempre ao balcão, além dos turistas que de vez em quando passam pelo estabelecimento e das pessoas que rumam à aldeia para conhecerem o projeto. À conta do termoacumulador instalado nas casas dos clientes, por exemplo, já diminuiu “para metade” o número de bilhas de gás natural que vende, naquele que é um balanço positivo e que o faz considerar que devia haver “mais projetos destes.”
Expectativas que não passam em claro aos responsáveis pelo projeto como Ricardo André, para quem os resultados mostram que “o impacto económico é só uma parte.” Ou seja, a possibilidade de fazer parte de uma rede energética inteligente em que é possível “partilhar recursos” a partir de produção própria que pode ter grandes implicações no consumo e na “utilização de combustíveis fósseis” e servir de paradigma quando a tecnologia for regulada e “os seus custos mais reduzidos.” Apesar de a fase-piloto durar até ao final deste ano, já há a garantia que os equipamentos ficam na posse dos clientes sem custos e Joaquim Pimpão deixa mesmo o desejo que continue além disso. “Estamos a sensibilizar as pessoas para as novas tecnologias e a combater a desertificação.”
Valverde já tem o seu lugar ao sol.

E o que é que ainda falta a Portugal para ganhar um lugar ao sol?

Falta muito ainda. Apesar de ser um dos países que mais sol apanha durante o ano e das condições de excelência que existem em certas regiões do país (com destaque para o Alentejo e Algarve) para o aproveitamento dos recursos fotovoltaicos, a energia solar em Portugal ainda vive sob o signo do subaproveitamento. Num país considerado exemplo na utilização e renováveis, o solar representa menos de 2% da produção em Portugal e há trabalho a fazer para que o sector cumpra o seu potencial, sobretudo quando se trata da potência instalada e de implantação a nível nacional. Quando o investimento global em 2017 na energia fotovaltaica quebrou um recorde ao ultrapassar os €130 mil milhões, segundo o estudo “Tendências Globais de Investimento em Energia Renovável 2018”, da ONU, importa perceber o que se está a fazer por cá.
Se na inovação há bons indicadores — para os quais também procura contribuir o EDP Open Innovation, projeto de empreendedorismo do Expresso e da EDP que já tem as candidaturas abertas para a sétima edição (saiba mais na coluna ao lado) e que resultou da união entre o Energia de Portugal e o Prémio EDP Inovação — o resto ainda deixa a desejar. Por exemplo, de acordo com a Quercus, Portugal beneficia do dobro da insolação de outros países, como o Reino Unido ou a Alemanha, o que não impede que estes tenham, respetivamente, cerca de 20 e 100 vezes mais potência instalada face ao panorama português.
Algo que pode estar prestes a mudar se os planos mais recentes se cumprirem. Se é certo que os custos de utilização doméstica ainda são elevados, os parques fotovaltaicos estão em expansão e o objetivo governativo é que a atual capacidade solar de 572 MW triplique até 2021, rumo aos 1600 MW. Até esse ano, está prevista a construção de 31 novas centrais fotovoltaicas que o Governo aprovou em regime de mercado, num processo que arrancou com a inauguração na semana passada, em Ourique, da primeira grande central solar da Europa a produzir energia sem tarifas garantidas ou outros subsídios estatais, no que representou um investimento de €35 milhões. Ou seja, venderá a sua energia à rede sem qualquer subsídio na tarifa. Com 30 anos de vida útil, o objetivo é que produza o suficiente para garantir o consumo de aproximadamente 25 mil famílias. São quase €800 milhões de investimento projetado para os novos equipamentos, num valor que pode contribuir para encurtar as distâncias entre Portugal e o pelotão da frente no campo da energia solar.

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