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Wilson, Almada, Angola

Histórias breves sobre acontecimentos irrelevantes, condições atmosféricas e pessoas interrompidas: ficções de Bruno Vieira Amaral, para ler todas as quintas-feiras no Expresso Diário

Wilson Júnior Barros. Wilson. Antes de tudo, o nome. Wil. Son. Gilson? Welson? Edson? Não. Wilson, “mas os amigos chamam-me Júnior ou Tika”. Então, Wilson. “És de onde?” Pensa, Wilson, no que quer o teu colega saber. Quer saber se és de Lisboa? Amadora? Margem Sul? Não. Ele perguntou-te de onde és e isso, em linguagem de branco, quer dizer de onde vieste, de onde veio a tua família, os teus antepassados, os ramos e as raízes do teu embondeiro genealógico (se ele soubesse o que é um embondeiro). Que és dos subúrbios já ele sabe ou calcula. Os brancos são rápidos a fazer contas geográficas de cabeça. África é que lhes complica o raciocínio. Ainda não aprenderam a distinguir um cabo-verdiano de um guineense (“são mais escuros, não são?”), um angolano de um moçambicano, nem estão preocupados com escalas de negritude.

Então, o que interessa de que ponto de África veio a tua família em algum ponto da história? Mas a pergunta foi feita. Há que responder. “Eu sou daqui. De Portugal”, pensas, mas não dizes. Não és assim tão parvo que estejas disposto a armar-te em esperto no primeiro dia de aulas da faculdade. Primeira lição: não te armes em esperto. “Sou de Almada.” És do Laranjeiro, na verdade, mas estás a ir bem. O silêncio do teu interlocutor diz-te que essa resposta é apenas parcialmente correta. Prossegue. “Mas os meus pais vieram de Angola.” Excelente, Wilson. Notas no rosto do teu colega a satisfação de associar a cor da tua pele a uma origem geográfica e, assim, a estranheza do conjunto coroado por esse nome exótico, Wilson, Gilson, Edson, é atenuada.

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