Siga-nos

Perfil

Expresso

Donzela

A meio do caminho da vida, Filipe atingira, através de consagrações medianas, conquistas razoáveis, aquele ponto ótimo de satisfação consigo próprio que um homem pode alcançar sem se tornar um cretino. Procurava não pensar muito nisso. Temia o grande pecado da autoindulgência. Secretamente, porém, desfrutava desse prazer e, em certas ocasiões, deleitava-se a pensar em inimigos nebulosos, gente que o tinha apoucado. Gostava que o vissem agora, sem que tivesse de ostentar a sua posição, o sucesso. Não extravasava o desdém pelos outros, mesmo por aqueles a quem guardava rancor, e, por questões de superstição e de humildade deliberada, não cuspia para o ar.

Como acontecia todos os anos, a empresa pagou um fim de semana aos coordenadores de área num hotel de cinco estrelas perto da Covilhã. À chegada, o ambiente era o de competição profissional a desvanecer-se num entusiasmo de contornos eróticos, aquele bem-estar de suave antecipação de quando se chega à praia no primeiro dia de férias. A meio da noite, após o jantar e já bebido, no bar do hotel, Filipe, num lapso de confiança, contou histórias antigas, reveses pessoais amenizados pelo tempo. Os outros riam-se sem saberem ao certo qual a piada.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para descarregar as edições para leitura offline)