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Audaces Fortuna Juvat. Um conto de Bruno Vieira Amaral

Histórias breves sobre acontecimentos irrelevantes, condições atmosféricas e pessoas interrompidas: ficções de Bruno Vieira Amaral, para ler todas as quintas-feiras no Expresso Diário

Aos dez anos Renato já ouvira muitas vezes que não tinha cabeça para a escola, não tinha cabeça para nada. Dizia-o o pai, o irmão, os colegas e até, a cochichar com outra, a professora que se sentava ao lado dele a rever os ditados e a olhar, desgostosa, os riscos vermelhos que ela própria traçava nas palavras erradas. “Não tem cabeça”, ouvia de toda a gente desde pequeno, nos almoços de família, no final de cada período, nas conversas de vizinhos a meio das escadas. Nunca seria ninguém na vida.

Só a mãe o poupava. Foi ela a primeira a saber, anos depois, que ele tinha metido na cabecinha fraca a ideia de ir buscar aquela boina vermelha para calar toda a gente (“cabeça fraca, ideias fixas”, dizia o pai). O irmão podia ser mais forte, mais bonito, mais inteligente, podia ter tudo o que lhe faltava, mas, com o suor do rosto e as dores do corpo, haveria de conquistar o que o irmão não tinha e nunca poderia ter. Ia lá buscar a boina, sofrer como um Cristo para vingar as humilhações, os momentos em que o pai, quando iam ver os jogos dos distritais, se agarrava ao irmão e o deixava órfão, à margem, entregue à tarefa de descascar a pele das castanhas que se lhe enfiava debaixo das unhas.

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