Siga-nos

Perfil

Expresso

Faz favor

Um revisor intransigente



 

A CP não reconhece os cartões da Segurança Social dos reformados.

Sexta-feira de Carnaval, às 21h15, Beatriz Oliveira Silva, 64 anos, reformada por invalidez e a auferir de uma pensão de pouco mais de 230 euros, apanha o comboio Alfa Pendular em Gaia com destino à Gare do Oriente, em Lisboa.

Vai à capital levar a neta ao filho, que recebe a menina de 15 em 15 dias. Como em todas as viagens que faz com esta regularidade, dirige-se à bilheteira e adquire o chamado 'meio bilhete', com desconto de 50%. Entra na carruagem 5 e toma o seu lugar.

Chega o operador de venda, vulgo revisor. Pedro M.N., pede-lhe o bilhete e diz que ela não tem direito ao meio bilhete porque ainda não perfez os 65 anos (faltam-lhe cinco meses). Beatriz ainda lhe mostra o cartão de pensionista passado pela Segurança Social (nº 132077153100), onde vem descriminado que, de facto, está reformada por invalidez e que esse carácter é vitalício, mas o revisor diz-lhe que o documento não é válido para o desconto, exigindo-lhe o pagamento da diferença para o bilhete inteiro, mais 13 euros. Beatriz não tem dinheiro suficiente com ela e responde que não pode pagar, mas que talvez o filho possa tratar do caso mais tarde.

Intransigente, Pedro M.N. passa-lhe uma multa de 715 euros, que deve ser paga dentro de cinco dias úteis. O revisor continua o seu caminho. Sentada no banco da frente, uma jornalista testemunha o sucedido. Pede a Beatriz que lhe mostre a multa e os seus contornos, bem como os seus documentos. A senhora tem, de facto, direito a viajar por 14 euros, como sempre fez. Dizem as regras da CP dos Descontos a Pessoas Seniores e a Reformados/Pensionistas, que têm direito ao "desconto de 50% os reformados e pensionistas, independentemente da idade, cujo rendimento do agregado familiar não ultrapasse o ordenado mínimo nacional, mediante a apresentação de um cartão de Reformado ou Pensionista".

O problema é que a CP não confia nos cartões emitidos pela Segurança Social e nos seus regulamentos exige a requisição de um cartão, cujo pedido deve ser feito através de um formulário fornecido na bilheteira da CP. Os regulamentos da empresa ferroviária dizem, no entanto, que por "forma a evitar eventuais posteriores conflitos, os clientes nesta situação são sempre alertados para o facto de, em trânsito, terem de ser, obrigatoriamente, portadores desse documento comprovativo".

Mas não é bem assim. "Qualquer pessoa pode chegar a uma bilheteira e comprar um meio bilhete", diz à jornalista o revisor do Alfa Pendular, sem querer entender que a falta de informação nas bilheteiras da CP a esse respeito é geral.

Ainda inquirido pela jornalista sobre o valor da multa acabada de aplicar a Beatriz Silva, responde sereno que lhe deu "oportunidade para pagar a diferença", mas que perante a "ameaça velada" feita pela senhora ao referir-se à ajuda do filho, "não pôde deixar de actuar conforme a lei", que estipula uma coima de 25 vezes o bilhete inteiro.

Entretanto, a família de Beatriz, à sua espera na Gare do Oriente, vai falar com o chefe da estação e diz que está uma jornalista a bordo do comboio. O resto da viagem é passado entre telefonemas sucessivos da Gare do Oriente para o revisor. À chegada à estação, ao lado do filho de Beatriz está o chefe da estação, que os leva à carruagem 2, onde o revisor é "obrigado" a retirar a multa de 715 euros, apesar de Beatriz ter à mesma que pagar os 13 euros.

A administração da CP em resposta às questões do Expresso, responde que, "dado o conhecimento do que se passou, serão tomadas medidas tendentes a evitar situações como a referida".

Conte-nos o seu caso

fazfavor@expresso.pt

Alexandra Carita