Siga-nos

Perfil

Expresso

Faz favor

Finanças modernas



Pompa e circunstância assinalam o fim de um dia caótico na, agora, Finanças 3

História do 1.º dia do novo sistema informático das repartições de Finanças.

Segunda-feira, dia 26 de Março. O Serviço de Finanças de Lisboa 3 tem as atenções todas viradas para si. Foi a repartição escolhida para dar a conhecer a nova imagem da Direcção-Geral dos Impostos e dos Serviços de Finanças, na mesma data em que é transferida do Campo dos Mártires da Pátria para a rua dos Correeiros. A apresentação à comunicação social da nova 'marca' Finanças far-se-á às 16h30 em simultâneo com a inauguração das novas instalações. Amaral Tomás, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, e Paulo Macedo, director-geral dos Impostos, serão os protagonistas da cerimónia.

A azáfama começa às 8h, altura em que os 40 funcionários chegam às novas instalações para uma formação, breve e concisa, com duração não superior a "cinco/seis minutos", sobre o novo sistema informático em que vão passar a trabalhar dali a uma hora. Às 9h, os mais incautos batem com o nariz na porta no edifício do Campo de Santana e dirigem-se para a rua dos Correeiros. O resultado é o mesmo. Portas fechadas! Ainda não se sabe quando é que a repartição começará a trabalhar. Os funcionários carregam caixas de documentação, os computadores não funcionam, e os contribuintes fazem fila na rua. Por volta das 11h, chega a informação do chefe da 'casa': às 13h tudo estará pronto.

Dez minutos depois da hora marcada entram os primeiros 'clientes'. Um funcionário, ao lado da máquina das senhas, com dez letras diferentes (de A a J), uma para cada serviço, indica qual a letra certa para cada caso. Só que os computadores não assumem as funções das letras e os sete balcões de atendimento abrem todos no formulário do IRS. Os funcionários ficam à toa e a confusão generaliza-se. Três e quatro pessoas em cada balcão, sentam-se e levantam-se sem serem atendidas. Os números das senhas passam à frente e voltam atrás sem qualquer lógica. "Arranjem-me isto, que eu quero trabalhar!", é o primeiro grito de desespero de uma funcionária. Seguem-se os outros: "Chamei o número 5 e apareceu-me o 13. Chamo os que ficaram para trás?"; "Isto não é possível!"

O nervosismo aumenta. O desespero é tal, que os funcionários passam a pedir ajuda aos utentes: "Ajude-me lá! O G é o número de contribuinte?". Uma hora e meia depois, o caos faz parar a repartição. Funcionários e contribuintes riem a bandeiras despregadas de uma situação que parece surreal. É que nem o multibanco funciona. Quem não tem dinheiro, pede emprestado ao vizinho do lado e fica com o seu contacto para pagar a dívida. Às 15h, porém, os ânimos exaltam-se. O sistema bloqueia. "Que palhaçada!" Inicia-se a revolta dos utentes.

"Não posso aceder a nada, carimbo só?", pergunta uma funcionária à sua superiora. Obtém um sim como resposta e responde indignada: "E não vejo a situação?". A questão resolve-se com um "veja no IVA, que eu também não percebo nada!". Com um sentido de humor apurado, um outro funcionário acalma as reclamações e queixas: "Deixem lá, daqui a bocado vem aí o Amaral Tomás resolver isto!". Mas o primeiro a chegar, 15 minutos antes da hora de fecho, é o director das repartições de Finanças da região de Lisboa, Marcelino, que pessoalmente indica aos utentes o balcão a que se devem dirigir, com alguns funcionários a fumar na rua e outros a gritar que já não conseguem respirar.

"Hoje é um dia de teste. Não quisemos implantar o sistema no Campo dos Mártires da Pátria porque íamos sair de lá. E para primeiro dia, isto até está a correr bem", diz ao Expresso. "Ai meu Deus!", é o desabafo da última contribuinte a ser atendida às 16h30.

"Esta nova imagem sóbria, austera, mas moderna apresenta também o mais avançado sistema informático de gestão de filas, que permitirá um melhor e mais personalizado atendimento ao público, representando um progresso significativo...", discursa o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais.

Depois dos aplausos e questionado pelo Expresso sobre a falta de organização com que o dia foi pautado, garante que "a pressão do público é que tornou as coisas mais complicadas". No entanto, conclui, "a mudança foi feita com sucesso"!

Conte-nos o seu caso

fazfavor@expresso.pt

Cristina Bernardo Silva