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Uma fábrica nascida no auge da crise

O Consórcio Ventinveste liderado pela Galp já está a exportar aerogeradores. O diretor da fábrica fala ao Expresso dentro de uma pá eólica(veja infografia no fim do texto).

Vítor Andrade (www.expresso.pt)

Ali mesmo ao lado, na aldeia de Sosa, concelho de Vagos (Aveiro), o entusiasmo em relação à nova fábrica de pás para torres eólicas da RiaBlades não é propriamente visível.

"Penso que sim, que aquilo já começou a mexer. Mas aqui não se sente muito isso, pois não se nota que estejam a criar trabalho para as pessoas da terra", explica um dos clientes matinais do café da aldeia.

O problema, segundo Paulo Silva, diretor da RiaBlades, "é que é extremamente difícil recrutar operários na zona, pois muitos potenciais candidatos são beneficiários do Rendimento Social de Inserção" e isso, mais um ou outro biscate que possam arranjar, acaba por concorrer com o nível de ordenados propostos pela administração na nova fábrica de Sosa.

Dificuldades de recrutamento

O diretor da fábrica de pás queixa-se das dificuldades com que se deparou para conseguir recrutar a mão de obra necessária para o arranque definitivo desta nova unidade de produção. Ainda assim já dá trabalho a 140 pessoas, entre operários e quadros especializados. Daqui a cinco ou seis anos, se a conjuntura económica assim permitir, estima-se que o número de postos de trabalho diretos possa subir até aos 571, segundo cálculos da própria empresa.

A RiaBlades, gerida diretamente pela alemã REpower Systems e pela portuguesa Martifer, acaba de produzir as primeiras pás para torres eólicas. Para já são para exportação mas mais tarde serão usadas nos vários parques eólicos que o consórcio Ventinveste irá construir em Portugal, o primeiro dos quais acaba de ser anunciado, para Arganil. A Ventinveste, que é liderada pela Galp, com 49% do capital social, conta também com a Martifer como segundo parceiro mais importante (46%), a REpower Systems (com 3%) e ainda a Efacec (com 2%).

A construção da RiaBlades era uma das contrapartidas estabelecidas entre o Estado português e o consórcio Ventinveste, quando lhe foi adjudicada a fase B para os grandes lotes de produção eólica em Portugal, durante o ano de 2007.

Cumprir o prometido

Para construir parques eólicos, a Ventinveste teria que investir também na produção local, em Portugal, de torres, naceles e pás (ver infografia).

Após alguns atrasos, eis que finalmente as contrapartidas são cumpridas não apenas com a fábrica de Vagos, para as pás, mas também com a Ventipower, em Oliveira de Frades, onde já estão a ser produzidas as naceles e os hubs - a parte que fica colocada em cima das torres e onde um maquinismo gigantesco transforma a força do vento em energia elétrica.

As torres eólicas praticamente já fazem parte do quotidiano de milhões de portugueses. É quase impossível passear por qualquer parte país sem deparar com as 'ventoinhas' gigantes que pontuam no topo das montanhas mais altas. A exceção, por agora, é o Alentejo.

Há já como que uma certa banalização deste novo elemento que passou a fazer parte das nossas paisagens. Nalguns casos harmoniosamente, noutros bem mais discutível, devido ao forte impacto visual.

Mas a verdade é que os números associados a esta tecnologia continuam a surpreender. É tudo em tamanho XXL. Uma parte da entrevista que fizemos ao diretor da fábrica de Vagos decorreu no interior de uma pá, com cerca de dois metros de diâmetro. Mede mais de 45 metros de comprimento e pesa mais de oito toneladas.

No entanto, depois de colocada no topo da torre com 100 metros de altura move-se com uma leveza impressionante. Ajusta-se automaticamente ao melhor ângulo do vento, roda conforme a sua direção e o movimento que produz aciona um dispositivo mecânico de dezenas de toneladas onde, por sua vez, se transforma a força do vento em energia elétrica através de um gerador.

No alto da torre eólica que agora começou a ser produzida em Portugal pela REpower está instalada uma capacidade geradora de dois megawatts (MW) de potência. Ou seja, o suficiente para que uma torre possa produzir eletricidade para 1700 casas.

A tecnologia eólica não tem parado de evoluir e, ao longo dos últimos 10 a 15 anos passou-se de aerogeradores com menos de 1 MW de potência para 2 e 3 MW. A REpower, assim como a sua concorrente, também alemã, Enercon, já estão a ensaiar torres eólicas de 6 MW. E ainda recentemente uma empresa norueguesa, a Sway, anunciou que já tem em projeto um aerogerador de 10 MW de potência.

Mas isso ainda envolve uma certa dose de futurologia. Certo e seguro é que Portugal vai já no seu segundo cluster industrial ligado à indústria eólica. Depois do complexo de Viana do Castelo, liderado pela Enercon e pela EDP (e que inclui cinco fábricas), eis que agora surge nas zonas de Vagos e Oliveira de Frades mais um polo industrial orientado para as renováveis.

Produzir em plena crise

De Oliveira de Frades, onde está sediada a Ventipower, começaram já a sair para alguns países, sobretudo para Itália, vários conjuntos de naceles e hubs. Uma pequena vitória para João Salinas de Moura, diretor da REpower para Portugal e Maria Guerra, diretora da fábrica. Porquê? "Porque começámos a produzir as primeiras unidades em plena crise económica e financeira e, ainda assim, conseguimos exportar", nota Salinas de Moura.

Mas o mais curioso é que esta novíssima fábrica de naceles em Oliveira de Frades "continuou a produzir mesmo numa altura em que algumas fábricas na Alemanha pararam as respetivas produções", acrescenta Maria Guerra. Vale Grande, no concelho de Arganil, vai ser a primeira localidade a receber torres eólicas do consórcio Ventinveste em Portugal. Ali serão instalados os primeiros 10 MW de um total de 400 MW que foram atribuídos ao consórcio liderado pela Galp.

O investimento total ascende aos €600 milhões, para realizar ao longo dos próximos anos, e estima-se que sejam criados em simultâneo 1300 postos de trabalho. O problema é que tem havido sucessivos adiamentos no arranque do projeto (quase dois anos) sobretudo por problemas de impacto ambiental. Os responsáveis da Ventinveste acreditam, porém, que agora será de vez.

Texto publicado no caderno de Economia do Expresso de 25/09/2010  

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