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"Se não há dinheiro não há obras", diz Amorim

É desta forma forma que o homem mais rico do país comenta a evolução das grandes obras públicas em Portugal, referindo-se aos projectos do TGV e do aeroporto de Lisboa.

J.F.Palma-Ferreira (www.expresso.pt)

Américo Amorim, patriarca do grupo corticeiro e accionista de referência da Galp, diz que Portugal não está pior do que outros países europeus. E considera que a questão das grandes obras é um assunto resolvido: "Adiam-se enquanto não for possível fazê-las".



À margem da cerimónia da condecoração que lhe foi atribuída pelo Chile (ver texto em baixo), o empresário reconheceu que a situação económica e financeira do país requer prudência nos investimentos que venham a ser concretizados. Mas evita uma posição pessimista e derrotista, assumindo um pragmatismo que encara todas as possibilidades dentro das quais o país deve reorientar a sua actividade económica.



"O Governo e o Banco de Portugal têm os meios necessários para acompanhar a situação", diz Américo Amorim, considerando que "as medidas entretanto tomadas já eram previsíveis".



No mesmo dia em que Amorim foi agraciado na Embaixada do Chile em Lisboa, as maiores empresas portuguesas concentraram-se na Bolsa de Nova Iorque - uma iniciativa que contou com a presença do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos - para reforçarem a imagem externa de Portugal.



O Expresso questionou Américo Amorim sobre a eficácia desta iniciativa. A resposta voltou a ser pragmática: "Não digo que seja uma solução para os problemas financeiros. Mas dará um grande contributo à nossa economia. Foram até Nova Iorque duas dezenas de empresas portuguesas que estão a funcionar, que têm investimentos a andar e que são solventes. Como a imprensa internacional nem sempre está bem informada sobre Portugal, é positivo que as nossas melhores empresas dêem uma imagem correcta daquilo devemos comunicar aos mercados financeiros internacionais. A Galp, de que sou accionista, também foi lá. Deu o seu contributo em defesa de um sector da actividade nacional que está a investir, crescendo dentro e fora de Portugal".



Nesta conjuntura, persistem igualmente as dúvidas sobre a possibilidade de Portugal construir a linha de TGV entre Lisboa e Caia e o novo aeroporto.



O empresário reconhece que "a conjuntura financeira não é favorável aos projectos programados há uns anos, quando não havia perspectivas do mundo vir a passar pelos momentos difíceis a que agora assistimos". Mas diz que "este não é um problema exclusivamente português", sendo "comum a vários países europeus".

Obras, só se forem rentáveis



Assim, Amorim desdramatiza a necessidade de Portugal ponderar alguns dos grandes projectos anunciados. "Não vamos complicar esta questão. Se não há dinheiro para fazer essas obras, creio que o assunto está resolvido. Adiam-se enquanto não for possível fazê-las. E acho que só deveriam ser feitas se forem rentáveis", defende.



Também em relação a eventuais compromissos acordados entre Portugal e Espanha, Américo Amorim aconselha prudência. "Não conheço os compromissos que há com Espanha. Mas uma coisa é clara e todos nós sabemos isso: as dificuldades orçamentais e financeiras também são vividas em Espanha, tal como em outros países europeus. Todas as grandes obras que foram programadas há dois ou três anos devem ser reavaliadas porque a conjuntura em que vivemos alterou tudo, substancialmente", diz o empresário.



E quem são os culpados pela situação actual? Américo Amorim aponta a dedo o sistema financeiro. "Construiu um cenário em que todos acreditaram. A realidade vivida comprova o falhanço brutal do sistema financeiro a nível mundial. E os reguladores dessa época foram imprudentes em não controlar, em tempo útil, os indícios dos problemas detectados", refere.



Por isso, diz que a actual crise é uma consequência dessa "imprudência". "Quando os bancos centrais não intervieram em tempo útil na criação de linhas de orientação que pudessem impor maior disciplina ao sistema financeiro, entrámos no desequilíbrio das economias que resultou no que estamos a assistir hoje", diz Américo Amorim. Apesar disso, considera que "a banca portuguesa vai corrigir. Seguramente. E não está muito pior do que aquilo que se vê pela Europa fora. Esta conjuntura bateu à porta de todos".



No entanto, para estancarem os problemas, Américo Amorim diz que os bancos portugueses "terão de ser muito selectivos no crédito. Isso é um imperativo". Ou seja, diz que mudará o paradigma do crédito para todos. "Haverá crédito para quem tem mérito para o obter. Esta preocupação será partilhada por todos os bancos do sistema financeiro europeu. Todos têm o mesmo problema", considera.



Numa apreciação global, diz que, no conjunto dos países europeus, "os bancos portugueses e o nosso sistema financeiro portaram-se muito bem". Américo Amorim acredita em que, "a seu tempo, a banca portuguesa reencontrará o seu percurso natural. Nunca vivemos a turbulência que se assistiu na Grã-Bretanha e em outros países da Europa, cujos problemas são bastante mais complexos do que os nossos".

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010