Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Se a PT vender a Vivo: Que fazer com €6,5 mil milhões?

Zeinal Bava, presidente da PT até pode não vender a participação na Vivo. Mas vai estar hoje e amanhã em Londres para encontros com investidores institucionais, com o objectivo de explicar por que é que importante rejeitar a oferta Telefónica.

Anabela Campos, João Vieira Pereira e João Ramos (www.expresso.pt)

O presidente da comissão-executiva (CEO) da PT, Zeinal Bava, ainda acredita que poderá manter 30% da operadora móvel Vivo em mãos portuguesas, e vai lutar até ao fim pela ideia de que sair do Brasil é amputar o futuro do operador português.



Antes morrer na arena do que desistir, é, segundo apurou o Expresso, o espírito do CEO da PT, que já a partir de segunda-feira estará em Londres para reuniões com investidores institucionais, e participar numa conferência no Citigroup, na terça-feira, onde deverá falar da nova oferta de €6,5 mil milhões da Telefónica, e da necessidade da PT ter escala e ambição internacional.



Mas Bava, que tem reafirmado que a Vivo não está à venda, não terá todos os accionistas do seu lado, até porque tudo indica que o aumento de €800 milhões face à oferta inicial da Telefónica surge já depois de ter havido negociações com accionistas relevantes da PT. Um deles será o BES, com quem César Alierta, presidente da Telefónica, falou no início desta semana numa visita-relâmpago a Lisboa. Aliás, o facto de a Telefónica estar disposta a sair do capital da PT - onde é hoje o maior accionista - é um sinal da existência de negociações.



Não se sabe com quem mais Alierta, antigo corretor e hoje o homem forte da Telefónica, terá falado. A Caixa, cuja palavra também pode ser decisiva, nega qualquer tipo de negociação. "A CGD não teve nenhum contacto ou negociação com a Telefónica, antes, durante ou depois da oferta", garantiu ao Expresso fonte oficial.



Apesar de a PT ter mostrado um cartão amarelo à nova proposta, ao afirmar que "a oferta não reflecte o valor estratégico deste activo para a Telefónica", a verdade é que o mercado está a acreditar que a Portugal Telecom vai acabar por vender a Vivo, hoje responsável por 45% das receitas (€3,2 mil milhões) e 38% do EBITDA (€947 milhões). E os accionistas estarão disponíveis para vender não só porque há vários a precisar de dinheiro, mas também porque €6,5 mil milhões é uma quantia considerável e difícil de recusar, já que é pouco menos que a capitalização bolsista da PT (€7,7 mil milhões).



Mas a história poderá não acabar por aqui, uma vez que o conselho de administração deliberou mandatar o chairman, Henrique Granadeiro, o CEO, Zeinal Bava, e administrador financeiro, Luís Pacheco de Melo, para discutirem a oferta que está em cima da mesa até à Assembleia Geral, onde a proposta dos espanhóis será discutida. Nem Zeinal, nem os grandes accionistas disseram qual o montante mínimo porque estariam disponíveis para abdicar da Vivo, mas no mercado têm-se falado em valores entre até €7,5 mil milhões. O futuro o dirá. A verdade é que a oferta tem vindo a subir, até porque o primeiro número em cima da mesa foi €5 mil milhões,



Porém, há sempre o risco de se a corda for muito esticada, a Telefónica, que segundo a imprensa espanhola já canta vitória, se irrite e lance uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a PT.



E se a PT vender o que acontecerá depois? Distribui parte do encaixe pelos accionistas em dividendos e investe o resto? Ou vai investir tudo? E se investir onde o irá fazer? São estas algumas das perguntas em cima da mesa.

PT já está no terreno no Brasil

As alternativas no Brasil são limitadas. A compra da concorrente Claro, do mexicano Carlos Slim, está fora de questão. E a TIM deverá ser também uma carta fora do baralho, já que a Telefónica tentou e não conseguiu comprá-la. Mas o Expresso sabe que a PT já está no terreno a preparar a era pós-Vivo, caso os accionistas aprovem o negócio com a Telefónica. A PT quer permanecer no Brasil, num outro operador, com um nível de envolvimento equivalente ao da Vivo. A principal alternativa é aparentemente a entrada no capital da Tele Norte Leste Participações SA, mais conhecida por Oi, o maior operador de rede fixa do país e o quarto maior da área móvel. São mais de 62 milhões de clientes, com uma oferta convergente: voz fixa e móvel, Internet e TV paga.



Embora a entrada de dinheiro fresco português seja bem-vindo na Oi - cuja dívida se tornou elevada após a compra do operador fixo Brasil Telecom - o problema será acomodar o desejo de controlo de gestão da PT, com os desígnios dos actuais accionistas, em criar um grande operador brasileiro.

Bava tem dito que não está interessado em meras participações financeiras, mas terá de conciliar posições e de convencer os principais accionistas da Oi de que é uma mais-valia como parceiro. Tratam-se de accionistas de peso, inclusive político: o banco estatal de fomento BNDES, fundos de pensões de empresas estatais, e os grupos Andrade Gutierrez e La Fonte.



A imprensa brasileira também dava eco deste casamento entre a PT e a Oi. O diário "Valor Económico" diz que o negócio seria uma "saída honrosa" para a PT. E defende que enquanto se espera a aprovação da oferta da Telefónica, a PT tem um prazo folgado para iniciar "um diálogo e buscar uma negociação com os controladores da Oi e o Governo brasileiro". E assim ressuscitar a ideia de criar um megaoperador luso-brasileiro com forte presença em África.



Ironia das ironias, se a Vivo for vendida aos espanhóis vai acabar por acontecer à PT sensivelmente o que estava previsto na OPA da Sonaecom. Ou seja, a venda da operadora brasileira à Telefónica - que no entanto daria em troca o controlo da marroquina Meditel, entretanto já vendida -, e a cisão da operadora de cabo (actual ZON), já consumada. 

Artigo publicado no caderno de economia do Expresso de 5 de Junho de 2010