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Risco de default português mantém-se elevado

Semana fecha com a República Portuguesa "prisioneira" no TOP 10 mundial de probabilidade de bancarrota. Grécia conserva 3º lugar. Programas de austeridade não conseguem retirar os dois países do euro do radar dos mercados da dívida

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

A probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) no caso português continua elevada, perto dos 24%, e o país continua em 8º lugar no TOP 10 mundial de maior risco. Também a Grécia continua em posição cimeira, em 3º lugar, e com um risco superior a 44%, segundo o monitor da CMA DataVision, uma firma especializada neste mercado.

Apesar dos programas de austeridade aprovados nos dois países e da própria situação particular da Grécia que dispõe, desde este mês, de uma Facilidade Europeia de Estabilidade, patrocinada pela zona euro e pelo Fundo Monetário Internacional, onde já se está a financiar, sem ter de recorrer aos mercados internacionais de crédito, os grandes investidores institucionais continuam a apostar na probabilidade de que os dois países venham a incorrer em default, ainda que em patamares distintos na avaliação desse risco e no custo dos seguros sobre essa dívida, os famosos credit default swaps (cds).

PIIGS continuam no radar



Num movimento sincrónico também se verificam deteriorações das condições de crédito dos outros três países integrantes do que humoristicamente se designa por grupo dos PIIGS, e em particular do "tigre" celta e do nosso vizinho peninsular. A Irlanda, apesar de ter sido pioneira nos planos de austeridade, mantém um risco de default próximo dos 19% na percepção dos investidores dos mercados da dívida, ainda que fora do TOP 10, e a Espanha fechou a semana perto dos 16%. A Itália e a Bélgica (que apareceu no radar esta semana com uma tendência de subida com um custo dos cds acima dos 100 pontos base) estão muito distantes ainda da "linha Maginot" dos 16%.

Apesar deste indicador de probabilidade de default ser contestado como o melhor barómetro, ele permite avaliar a "sensibilidade" dos investidores internacionais num painel de 66 países. Não significa que as bancarrotas destes estados estejam iminentes, mas é um indicador do risco de secagem do crédito internacional ou de deterioração muito séria das condições de a ele recorrer (tendo de oferecer remunerações muito elevadas aos tomadores dos títulos emitidos, o que se pode tornar letal).

Desde 13 de Janeiro, quando a agência de rating Moody's sinalizou os dois países da "morte lenta" (Grécia e Portugal) que se abriu uma nova "frente" no risco de defaults em série que costumam povoar o final das grandes recessões.

Até ali, os media estavam concentrados num pequeno grupo heteróclito, iniciado com a bancarrota abrupta da Islândia (com uma intervenção do FMI na ordem dos 2,1 mil milhões de dólares), a turbulência financeira da Irlanda (tendo-se descoberto, subitamente, que o "tigre" celta assentava em 1000% do PIB em endividamento externo e 80% de lixo tóxico no seu sistema financeiro) e as situações críticas no Dubai  ("agasalho" de 10 mil milhões por parte do emirato líder da confederação, o Abu Dhabi) e na Letónia (intervenção do FMI com 1,7 mil milhões).

Com o decreto da "morte lenta" surgiu, assim, uma nova frente, que evoluiu até hoje através de cinco vagas.

O pico da primeira vaga ocorreria na 5ª feira negra de 4 de Fevereiro com a Grécia a atingir um máximo histórico no custo dos credit default swaps (cds) sobre a dívida soberana de Atenas e as bolsas de acções espanhola e portuguesa a viverem um mini-crash. Quatro dias depois seria a vez do custo dos cds relativos à dívida soberana portuguesa atingirem um máximo. Os dois elos mais frágeis da zona euro estavam marcados.

A Cimeira de Bruxelas da União Europeia naquele mês de Fevereiro acalmaria esta vaga. Mas foi sol de pouca dura. A chanceler alemã Angela Merkel iniciou, poucos dias depois, a sua táctica política relativamente à Grécia incendiando, de novo, a desconfiança dos investidores. Abre-se uma segunda vaga, com a Grécia a entrar no TOP 10 mundial do risco de default, dançando entre o 9º e o 5º lugares deste clube de má fama. A agência de notação Fitch baixa o rating para Portugal a 24 de Março. A Grécia ultrapassa o anterior máximo histórico a 14 de Abril e Portugal a 21 de Abril, entrando, pela primeira vez, para o TOP 10 mundial, em 10º lugar. Nesta segunda vaga começa a ser evidente um co-movimento de alta do risco no conjunto dos PIIGS.

O final de Abril traz uma terceira vaga com a Grécia a disparar acima de 700 pontos base no custo dos cds (tenha-se como comparação que em Janeiro estava no patamar dos 300 pontos base) e Portugal acima dos 300 pontos base (em Janeiro estava abaixo dos 130 pontos base). A 27 de Abril a Grécia atinge o 1º lugar do TOP 10 e um dia depois Portugal sobe ao 6º lugar e a Irlanda atinge 20% de risco de default. A agência de notação S&P baixa o rating para a Grécia (passando-o para o estatuto de "lixo") e para Portugal (que desce para A-). No dia seguinte, baixa o rating de Espanha.

Uma quarta vaga começa a formar-se a partir do início de Maio, atingindo um pico a 6 de Maio quando a Grécia ultrapassa os 900 pontos base no custo dos cds e Portugal os 450 pontos base, os actuais máximos históricos. Ocorre o fenómeno ainda por explicar de um crash súbito, momentâneo, no índice Dow Jones americano. Alguns analistas falam de que o mercado de crédito na Europa chegara a um ponto de secagem e uma onda de pânico se formara. As decisões políticas no fim de semana na zona euro com a criação de uma Facilidade Europeia de Estabilidade e com o início da discussão de uma "governação" orçamental na zona euro e de uma actuação face a determinados movimentos especulativos dão cinco dias posteriores de abrandamento, levando à saída de Portugal do TOP 10 mundial e à descida da Grécia.

Mas, de novo, foi sol de pouca dura. Uma quinta vaga inicia-se a 14 de Maio (uma sexta feira) com a subida da Grécia para o 3º lugar do TOP 10 e a reentrada de Portugal para o TOP 10, onde, depois de um sobe e desce quase estonteante, se fixou, no fecho desta semana, no 8º lugar.

"Prisão" de que parece difícil Portugal livrar-se - o facto de ser o quinto país da União Europeia com o mais alto endividamento externo em relação ao PIB (mas não dispondo do soft power nem dos activos internacionais dos restantes quatro companheiros nesse infortúnio, a Irlanda, Holanda, Reino Unido e Bélgica) e de ser o terceiro à escala mundial (depois do Japão e da Itália) a poder levar mais tempo a regressar a um nível de endividamento público "tolerável" (na ordem dos 60% do PIB), toldam a imagem do país junto dos investidores internacionais. Ao contrário da Islândia e da Letónia que têm conseguido evitar reentrar no clube, por ora.