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Porto cresce e aparece

Hotelaria expande e negócio prospera em tempo de crise. Relação qualidade/preço é um grande trunfo da cidade.

Abílio Ferreira e Margarida Cardoso (www.expresso.pt)

Empolgado, Rodrigo Pinto Barros haveria por duas vezes durante a viagem no autocarro turístico de apontar o cenário ribeirinho e desabafar: "Qual o turista que não fica emocionado com esta paisagem?". O empresário partilha com os companheiros de viagem a sugestão de o Porto replicar a campanha de Nova Iorque e lançar o lema I Love Porto.

Sugestões para dinamizar o turismo na cidade não faltam aos três convidados do Expresso. Mário Ferreira, dono da Douro Azul, defende uma promoção autónoma ("é preciso lançar o Porto às feras") e a criação de programas específicos para os turistas dos cruzeiros que atracam em Leixões e ficam seis horas na cidade.

Agostinho Barrias, o empresário que recuperou o Majestic e o Guarany, fala da "urgente reabilitação urbana", de capitalizar as festas de São João e captar novas atracções turísticas para a Baixa, surgindo um casino no topo dos investimentos. Rodrigo Pinto Barros, o empresário que preside à Associação Portuguesa de Hotelaria, Restauração e Turismo (APHORT), concede prioridade a um "grande festival de música" e à valorização da Avenida dos Aliados, junto à Câmara, como sala de visitas da cidade, acolhendo lojas das grandes marcas, na linha do que sucede com as principais cidades europeias.

"Temos hotelaria e gastronomia de qualidade, Serralves e a Casa da Música. Temos marcas reconhecidas como o vinho e o Futebol Clube do Porto e a nossa hospitalidade é reconhecida por todos. A oferta é sedutora, mas precisa de ser vendida de forma estruturada", diz o presidente da APHORT, dono do Hotel Praia Golfe.

O Porto VIP Passport é elogiado por todos e citado como um exemplo de parceria estruturada e com potencial. O produto turístico lançado pela Sociedade de Transportes Colectivos do Porto (STCP) e a Douro Azul, combina circuitos de autocarro com cruzeiros no Douro e abre as portas das principais atracções da Invicta: Casa da Música, Serralves, Sea Life, caves Calém e museus Soares dos Reis e do Carro Eléctrico. Oito experiências num passaporte de ¤39 para dois dias. "Por este pacote, noutra cidade paga-se o triplo. No Porto, a relação qualidade/preço é um trunfo", refere Mário Ferreira.

O factor preço ganha especial relevo em épocas de crise como a actual. Talvez por isso, o destino Porto resiste melhor do que o país e bateu no primeiro trimestre o recorde nacional do crescimento nas dormidas, que foi de 6,7%. Os turistas procuram, como diz Mário Ferreira, "the best value for money" (o melhor valor pelo dinheiro). O recente desempenho prova que o Porto entrou na moda e todos acreditam que a trajectória de crescimento é para manter. A cidade ganhou notoriedade internacional como Capital Europeia da Cultura, abriu-se de vez ao turismo com o Euro-2004 e beneficia da forte presença das companhias de aviação de baixo custo no Aeroporto Sá Carneiro. O movimento low cost representa mais de metade do tráfego e, em 2010, a Ryanair vai bater a TAP como principal operador.

História e modernidade

A viagem do Yellow Bus pelo Porto antigo mostra aos turistas o Porto como local de encontro de duas cidades em que o património histórico junto ao Douro evoluiu para a modernidade da Boavista que antecede a abertura ao Atlântico, na Foz. O autocarro serpenteia a Baixa e permite a Agostinho Barrias, dono de três residenciais, identificar em cada esquina um potencial hotel. A transformação do antigo Palácio das Cardosas numa unidade da cadeia Intercontinental marca um novo ciclo, com a entrada de marcas de luxo internacionais no coração da cidade.

Entre a livraria Lello e a Torre dos Clérigos, surge a nota dissonante da Praça de Lisboa. A antiga galeria comercial deu lugar a uma praça suja e degradada, sem destino à vista. Mas as máquinas fotográficas dos turistas desviam-se para o eléctrico parado junto à reitoria da Universidade. "É destas coisas que os turistas gostam, temos de preservar as tradições", comenta Mário Ferreira.

À passagem pelos jardins do antigo Palácio de Cristal, a conversa muda de rumo. O projecto de transformar o pavilhão no centro de congressos entusiasma a hotelaria. A cidade sofre com a falta de um equipamento para disputar os grandes congressos mundiais e induzir um novo segmento de procura. O Porto tem vindo a substituir o turismo de negócios pelo de lazer - Agosto e Páscoa são os períodos com maior taxa de ocupação. A cidade "tem atractivos e capacidade hoteleira para se tornar competitiva no mercado dos congressos", diz Rodrigo Pinto Barros. Ele vai mais longe e invocando festivais como o Red Bull, propõe um Porto "como cidade dos eventos".

O circuito segue pela Casa da Música e Serralves, os dois símbolos do eixo cultural. A criação do Jardim da Música, no lugar da Rotunda da Boavista, reforçará esta nova vocação de uma cidade aberta ao mar. Na Foz, os turistas levantam-se e os seus olhares prendem-se no Atlântico. As esplanadas são abundantes e acolhedoras e convidam a uma paragem. O que faz falta à fachada marítima é um hotel, mas os preços dos terrenos são dissuasores de investimentos. Como diria Agostinho Barrias, "o mercado terá de crescer muito para que essa aventura seja viável".

A melhor vista do Porto, a partir da margem de Gaia, fica reservada para o final da viagem. O autocarro cruza o Douro para a derradeira paragem. As objectivas agarram cada pormenor, os passageiros deixam escapar frases soltas que traduzem encanto e fascínio. Um arquitecto basco que encaixou o circuito turístico entre reuniões de trabalho remata: "Olhem para esta beleza. O mais bonito estava mesmo guardado para o fim".

Artigo publicado no caderno de economia do Expresso de 19/06/10