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Porque o euro está a ser atacado?

A situação de risco de bancarrotas na Europa continua marcada por oscilações significativas. As razões prendem-se às necessidades de refinanciamento este ano, às "surpresas" que poderão surgir e aos problemas políticos.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

Quem observe o sobe e desce alucinante do risco de default (incumprimento da dívida soberana) dos países ironicamente designados por PIIGS (acrónimo pejorativo para o grupo Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) verifica a regularidade do que alguns, tecnicamente, chamam de "oscilações selvagens", por vezes dentro do mesmo dia.

A Grécia ora sobe ao primeiro lugar do TOP 10 mundial desse risco, ora baixa, por vezes vários degraus; Portugal ora entra nesse clube, ora sai, ora volta a entrar, jogando à cabra cega com a Islândia, Sicília e Califórnia; a Irlanda chegou a entrar nesse TOP 10 por breve período; Espanha e Itália vêem subir e descer o seu risco amiúde.

Efeito Berlim

Nos últimos dias, temos assistido ao efeito "Berlim". Apesar da aprovação de princípio da Facilidade Europeia de Estabilidade (FEE) com uma almofada de empréstimos "bonificados" de 750 mil milhões de euros aos membros da zona euro que estejam em apuros de refinanciamento nos mercados internacionais, o Bundestag (câmara baixa alemã) pretende condicionar a aprovação dos empréstimos caso a caso.

No fundo, a FEE é um instrumento intergovernamental (de 16 membros do Eurogrupo, da zona euro) com um conselho de administração e uma sede no Luxemburgo, mas que dependerá do veto alemão. O que significa que a "governação económica" pelo menos da zona euro está, ainda, em gestação - intervalo político que é entendido pelos grandes investidores institucionais como janela de oportunidade para continuarem a estratégia de "encostar" o euro às cordas até final do ano no sentido de uma paridade cambial com o dólar. A velocidade com que o euro se tem depreciado ultimamente parece dar razão à "aposta" feita em 8 de Fevereiro num jantar de filet mignon em Manhattan reunindo a nata dos hedge funds.

O pano de fundo

Contudo, há um pano de fundo desta volatilidade, que está para além dos ziguezagues políticos. A apreciação da probabilidade de incumprimento das obrigações da dívida por parte daquele grupo de países mais em foco deriva da situação global de endividamento da União Europeia, e em particular da zona euro.

Há cinco números a reter:

- a dívida externa da União Europeia representa 61,5% da dívida externa mundial;

- a dívida externa da Zona Euro detém 44% da dívida externa mundial;

- em 2010, a União Europeia terá de refinanciar 2,2 biliões de euros (triliões, na designação anglo-saxónica), mais do que em 2009, segundo o "Credit Outlook" da Fitch de 18 de Maio;

- o peso dos refinanciamentos no caso dos cinco PIIGS, segundo o jornal Der Spiegel, será de 370,3 mil milhões, ou seja apenas 17% do montante global que a EU necessita;

- nos 17 países "ricos" com maior stresse de dívida pública, 10 pertencem à zona euro, segundo o indicador do IMD, divulgado esta semana.

Surpresas e volatilidade

Não admira, por isso, que a agência de rating Fitch refira no "Credit Outlook" desta semana que "o potencial para surpresas e para a volatilidade nos mercados de títulos governamentais - incluindo para além da zona euro - se mantenha muito elevado no futuro próximo". As duas palavras-chave devem, por isso, ser sublinhadas: surpresas + volatilidade.

A Fitch considera, ainda, que "os maiores desafios no ajustamento orçamental no médio prazo se colocarão ao Japão, Irlanda, Reino Unido, Espanha, Estados Unidos e, em menor grau, França". No grupo de altos desafios, eis quatro europeus, três da zona euro.

O "Monitor Fiscal" do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado na semana passada, poderá dar uma outra ajuda na visualização dos problemas que a UE enfrenta em 2010: as necessidades de refinanciamento da dívida pública que chega à maturidade requerem em percentagem do PIB, 21,2% no caso da Itália, 20,8% no caso da Bélgica, 16,9% no caso da França, 13,4% no caso da Grécia, 13% no caso de Portugal, 10,3% no caso de Espanha, 10,2% no caso da Alemanha, 8,6% no caso do Reino Unido e 7,7% no caso da Irlanda; ou seja, um esforço considerável na Europa.

Desafios de médio e longo prazo

O FMI aponta, ainda, para os desafios de médio e longo prazo no quadro dos países considerados ricos. Em termos de despesa pública em percentagem do PIB, o aumento previsto de 19 pontos percentuais até 2015 (ou seja da média actual de 91% do PIB para 110%) poderá implicar uma subida de 2 pontos percentuais nas taxas de juro no médio prazo.

Adianta, ainda, o FMI que até 2020 teria de ocorrer uma inversão em matéria de défice público primário nos países ricos para que o seu crescimento não seja afectado: de um défice médio actual de 4,8% do PIB (valor estimado para 2010, ajustado ciclicamente) para um superavite médio de 3,8% no final do período! Eis a dimensão do desafio para os ricos de hoje fintarem a estagnação económica e o declínio geopolítico que os ameaça.

Em termos de dívida pública, o "Monitor Fiscal" do FMI adverte que, se não for reduzido o peso da dívida dos governos dos países ricos, o crescimento potencial nesses países poderá reduzir-se em 0,5% ao ano.

A volatilidade a que estamos a assistir advém, também, da "normal" ocorrência de crises de default nas fases finais das grandes recessões e durante os períodos de mudanças geopolíticas, como já referimos, e que a investigadora americana Carmen Reinhart explica em entrevista a publicar na edição de sábado do Expresso.