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Partilhas na família Caetano

Salvador Caetano prepara atempadamente a sucessão. É a décima maior fortuna do país.

Abílio Ferreira (www.expresso.pt)

A recente transferência da participação da Soares da Costa de uma das empresas da família de Salvador Caetano para a filha mais nova do fundador é um sinal exterior de que o acerto de contas entre os herdeiros está em marcha.

Neste caso, a operação situa-se num universo (Caetano SGPS) que agrupa as miudezas financeiras, negócios imobiliários e empresas de pescas. Angelina, 60 anos, Salvador Acácio, 55, e Ana Maria, 50, começaram as partilhas pelo lado mais fácil.Na galáxia principal (grupo Salvador Caetano SGPS), um aglomerado com mais de 150 empresas, as funções permanecem repartidas pelos três irmãos, mas a vocação operacional de cada um permite antecipar a evolução futura do maior conglomerado do sector automóvel.

A fortuna da família, avaliada pela revista "Exame" em €637 milhões, resulta basicamente da Toyota Caetano Portugal (TCP), a empresa cotada que agrega o negócio industrial e comercial ligado à Toyota e a Salvador Caetano Auto SGPS, a subholding de retalho multimarca para o mercado ibérico.

Nestes universos, "não há amenor alteração orgânica ou funcional, permanecendo todos os elementos da família a intervir em todas as empresas", refere o porta-voz do grupo. Esta é a verdade formal. Mas uma separação futura estará já alinhavada, a partir da experiência e vocação de cadaum dos irmãos. Contactada pelo Expresso, Ana Maria remeteu para mais tarde uma explicação sobre a opção e significado da operação com a Soares da Costa. A irmã Angelina não respondeu.

 

A terceira geração

 

Há três anos, a família Caetano procedeu a uma reorganização empresarial visando a autonomização do negócio Toyota, com a transferência de unidades exteriores à marca japonesa. A TCP é a sociedade mais sensível do grupo por envolver uma parceria histórica com o construtor nipónico (detém 27%) e ser uma empresa cotada em Bolsa, depois de uma oferta pública gloriosa (Novembro de 1987) que mais do que duplicou o valor-base e gerou um encaixe de €25 milhões. A família possui 60% da TCP, a que se junta mais 3,3% em nome do fundador.

Na reorganização, a família contou com a concordância da Toyota Motor Corporation e os serviços das consultoras PricewaterhouseCoopers e Deloitte. A holding Fogeca (agora grupo Salvador Caetano SGPS) pagou €26,5 milhões, recebendo participações em várias empresas e a unidade de pintura do Carregado.

O arranjo facilitará partilhas futuras, mas na TCP a sucessão já estava assegurada. José Ramos, o engenheiro com 40 anos de casa e marido de Angelina, desempenha as funções de presidente-executivo e já funcionava como interlocutor da Toyota.Na linha do que sucedeu no grupo Amorim, a especialização funcional antecede a separação do conglomerado. O casal Angelina e José comanda a TCP e as empresas industriais - Caetano Bus (produção de autocarros), Caetano Coatings (pintura e protecção de superfícies) e Caetano Components (produção de componentes).

Tomando como referência a avaliação pelo mercado da TCP (€140 milhões), este núcleo de negócios representará um terço do património da família. O negócio Toyota vale um quinto das vendas e emprega um terço dos funcionários.

No caso de José e Angelina é já a terceira geração da família que espreita. Miguel Ramos, mais velho, foi um operacional activo na montagem do retalho de Espanha e está ser preparado para suceder ao pai. João, arquitecto, está ligado às empresas imobiliárias da Caetano SGPS, com promoções em Gaia e Porto. O principal projecto é na Avenida da Boavista, envolvendo um investimento de €175 milhões e 350 apartamentos, num terreno de dois hectares que custou €60 milhões.

 

Carreira em Lisboa

 Salvador Acácio e Ana Maria sempre fizeram carreira na importação e retalho automóvel Baviera (BMW), uma das empresas agrupadas na subholding Caetano Auto. Aos dois cabem funções executivas nesta unidade.A divisão é geográfica. Ana Maria radicou-se em Lisboa desde que foi tirar Direito para a Católica e ficou responsável pelo negócio da delegação.

A diferença de idades dos filhos dos três herdeiros é umdos factores que terão impulsionado as partilhas. Os dois filhos de Salvador Acácio estão ainda em formação.Ana Maria teve um filho do seu segundo casamento com um médico, depois de ter ficado viúva na sequência da tragédia do "Bolama". O marido, José Manuel Esteves, era um dos 30 passageiros do arrastão que naufragou à saída da barra, no seu primeiro teste de mar.Na administração da Soares da Costa, Ana Maria vai encontrar Pedro Gonçalves, seu colega na Católica. Salvador aliara-se ao seu amigo Laurindo Costa para afastar o irmão José da liderança da construtora. O processo (e o preço) de venda de Laurindo a Manuel Fino esfriou de vez a amizade ente os dois empresários.

Num trabalho sobre gestoras, Ana Maria afirmava à "Revista Única" que "num domínio de homens", precisara de fazer um trajecto para se impor. Porque "tenho dois handicaps: sou mulher e herdeira. Não prestava, até dar provas".Cada filho tem 10% da Salvador Caetano SGPS, na qual estão penduradas várias outras empresas, da corretagem de seguros às energias renováveis, e uma terceira subholding que organiza o sector das tecnologias de informação. Mas o peso da SC.com SGPS é irrelevante (1% da facturação), podendo funcionar como contrapartida num futuro acerto de contas.

A aliança que veio para ficar

 Em 1946, com 21 anos, Salvador Caetano cria uma pequena empresa de carroçarias, tendo um irmão e um amigo como sócios. A Martins, Caetano & Irmão, Lda foi o embrião do seu grupo empresarial. Antes, dedicara-se à pintura, trabalhando por conta própria. Viajou pela Europa e evoluiu nas carroçarias da madeira para o aço.

A sociedade desfez-se e a partir de 1966 tornou-se a Salvador Caetano Indústrias Metalúrgicas e Veículos de Transporte, SARL, a base do conglomerado. Foi o bom relacionamento com a empresa Baptista Russo, distribuidora da marca BMW, que lhe abriu as portas da Toyota. A Baptista Russo fora nomeada importadora da Toyota, mas já depois de ter 75 unidades retidas na Alfândega, a BMW não consentiu a acumulação de representações. Coube a Salvador resolver o problema. O contrato foi assinado em 1968.

No ano anterior, a sua unidade fabril celebrara o primeiro contrato de exportação de autocarros para Inglaterra. Mais tarde, o seu grupo ganharia a importação da BMW. Em 2009, vendeu em Portugal 12.160 Toyotas (6% de quota) e 7558 BMW (3,4%). Em Ovar, a produção dos comerciais Hiace e Dyna e do miniautocarro Optimo caiu 67% face a 2008, ficando nas 1967 unidades.

Mantendo a sua vocação asiática, o grupo ganhou a representação da indiana Tata (7 unidades vendidas em 2009) e ambiciona tornar-se o braço da chinesa Brilliance para o mercado ibérico. Criou, em 2007, uma empresa de direito espanhol e assinou uma 'carta de intenções' com o construtor. O processo tropeçou na ligação entre o importador europeu no Luxemburgo, ao qual caberia abastecer os mercados do Sul, e a marca chinesa, permanecendo no congelador.