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Os "culpados" iniciais da crise da dívida: a banca

O economista belga Paul De Grauwe afirma que o alvo central da resolução do actual risco de defaults em série na zona euro está "errado". O problema central foi a dinâmica de endividamento do sector financeiro sobretudo a partir de 2004.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

"Combatendo o inimigo errado" é o título polémico da coluna desta semana no blogue VOX da autoria do economista belga Paul De Grauwe, professor na Universidade de Lovaina e conselheiro de Durão Barroso. "O culpado, diz De Grauwe, é o libertino sector bancário privado que colocou tensão em finanças públicas que eram controláveis".

A "libertinagem" do sector financeiro privado da zona euro mede-se por uma dinâmica que no artigo, no blogue, é ilustrada por um gráfico óbvio: a partir de 2004, o peso das responsabilidades do sector bancário da zona euro "saltou" do equivalente a 200% do Produto Interno Bruto (PIB) da região para 250% em 2008, convergindo com o nível de dívida das empresas.

De Grauwe sublinha que a dinâmica principal de endividamento, na última década, não veio da parte dos governos. Entre 1999 e 2007, antes do eclodir da Grande Recessão, o peso da dívida pública no PIB da zona euro baixou, em média, de 72% para 67%. Nalguns membros da zona euro, esse movimento foi, mesmo, exemplar, como na Irlanda que baixou de 43% para 23% e em Espanha de 60% para 40%, naquele período. Em contrapartida, a dívida das empresas na zona euro subiu ininterruptamente entre 2002 e 2007, tendo estado muito acima de 250% do PIB da região, e o endividamento do sector financeiro disparou a partir de 2004 vindo a convergir para os 250%.

"Com a excepção da Grécia [durante o período de governação de Karamanlis, o anterior primeiro ministro, politicamente da Nova Democracia], os governos da eurozona foram mais disciplinados do que o sector privado a conter o endividamento. A explosão da dívida pública a partir de 2007 foi o resultado da necessidade de salvar o sector privado, e em particular o sector financeiro", sublinha o economista belga.

A vaga de financeirização

O que ocorreu nos últimos seis anos tem sido designado como disparo da financeirização das economias desenvolvidas, uma vaga que se vinha formando desde os anos 1970 mas que chegou a um pico nos anos que precederam o rebentar do crash bolsista de finais de 2007 e depois o pânico financeiro de 2008.

Esse disparo, apesar de ter nascido nas fábricas de "inovação financeira" de Wall Street, do lado de lá do Atlântico, assumiu proporções extremas na Europa, frisa, por seu lado, o investigador brasileiro João Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Os campeões do que se chama tecnicamente a "profundidade financeira" (ou seja, o peso dos activos financeiros no PIB) foram a Irlanda (900%), o Reino Unido e a França (700% cada um), e a União Europeia com uma "média" de cerca de 600%. Mais do que os EUA, a pátria da dinâmica: que se ficou pelos 450%.

Também, em termos de endividamento externo total (público e privado), a União Europeia (EU) lidera o mundo, com mais de 60% desse bolo, e em alguns países da EU atingiram-se níveis de endividamento em relação ao PIB extremos até finais de 2009. Os cinco países com o maior endividamento externo em relação ao PIB em finais de 2009 são: Irlanda (1009%); Holanda (468%); Reino Unido (413%), Bélgica (293%) e Portugal (231%). A média da União Europeia era de 216% e os EUA tinham um rácio de 93%.

O que se formou na última década foi um "ecossistema", refere Ross Levine, economista americano da Universidade de Brown, num artigo sugestivamente intitulado "Uma autópsia do sistema financeiro americano", mas cujo desenho é extensível a todo o mundo desenvolvido.

Nesse "ecossistema" viveram cinco "cavaleiros" e um "parasita": os políticos e os parlamentares que o favoreceram legalmente e através de políticas públicas; os bancos centrais e as entidades de supervisão e regulação que agiram "prociclicamente" (como se diz tecnicamente); as famosas agências de notação (rating); o sistema financeiro "sombra" (com dois pés muito firmes em Wall Street e na City londrina, de que os hedge funds são uma das imagens de marca, distribuídos em 68% dos activos em Nova Iorque e 20% em Londres); os sectores bancários tradicionais que levaram ao extremo a alavancagem financeira, favorecendo as "bolhas" especulativas e financiando outros sectores económicos que se aninharam nesses sindicatos financeiros para segurarem mercados cativos.

Pelo que, conclui De Grauwe,"não só a dívida pública e os défices públicos têm de ser monitorizados, mas também os desequilíbrios no sector privado, em particular os níveis de endividamento privado".

O artigo retira outras ilações políticas sobre o que agora se chama a "governação" económica e financeira da zona euro e da própria União Europeia no seu conjunto, que saem fora do âmbito deste artigo.