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Músicas portuguesas que cantam a crise

A música é uma forma de intervenção e são vários os artistas portugueses que têm usado as canções como arma de denúncia da austeridade e do empobrecimento dos portugueses. Conheça mais de uma dezena dessas músicas e veja os vídeos.

Joana Madeira Pereira (www.expresso.pt)

Há músicos de renome a escrever sobre a crise e que sempre fizeram das suas canções uma forma de protesto. Sérgio Godinho e Jorge Palma voltam-no a fazer nos seus últimos discos. No Rap, que sempre fez da denúncia social o seu principal tema, chovem exemplos e não há quem não trauteie "É sexta-feira / Suei a semana inteira / No bolso não trago um tostão", de Boss AC. Na música tradicional portuguesa, há quem cante sobre os "paraísos fiscais" (Diabo a Sete)e os habituais "poleiros" (Gaiteiros de Lisboa). Num registo mais popular, como o de Saul, não faltam palavras amargas cantadas ao som de um acordeão. E há ainda o agente Brandão, da PSP do Porto, que canta a sina dos desempregados: o Rey Brandão (nome artístico)lançou no início deste ano o álbum "Ponto de Partida", que teve como single de apresentação o tema "Desempregado". O Expresso escolheu algumas músicas que cantam a crise.

1. "O acesso bloqueado", Sérgio Godinho ("Mútuo Consentimento", 2011) Dar de barato o futuro é prematuro, é prematuro mas foi tudo mal contado deixaste o fruto no passado ficar maduro, ficar maduro e agora podre por não ser usado mas entre fazer ou não fazer entre fazer ou não fazer sempre sobra algum trocado crédito mal aparado agora, advinhar o presente mesmo tão inteligente isso... ficas todo baralhado

2. "Com todo o respeito", Jorge Palma ("Com todo o respeito", 2011) Os impostos disparam, apertamos o cinto. Isto é para toda a gente, salvo raras exceções Até alguém dizer: chega Com todo o respeito

Falta virem taxar-me pelo ar que respiro, Pelo passo que dou, cada vez que espirro. Hão-de arranjar maneira Com todo o respeito

3. "Paraíso Fiscal", Diabo a Sete ("TarAra", 2011) Sabe bem pagar tão pouco O segredo é total Tens na ilha uma morada Virtual

No Paraíso Fiscal O silêncio é d'ouro As mobílias são de prata E os jardins de couro

Anjos, deuses, capitais Filhos de alguém especial Somar zeros à direita Não faz mal

4. "Exporto tristeza", Virgem Suta ("Doce lar", 2012) Os pobrezinhos são bem bruto energia Coitadinhos melhor que leite do dia Alimentado sopa gode quando calha Lá fazem vida que Deus lhes valha Contra a pobreza exporto a minha tristeza Contra a miséria ja nem faço cara séria Se estou com fome canto o fado p'ra esquecer

5. "Sexta-feira (Emprego bom já)", Boss AC ("AC para os Amigos", 2012) Tantos anos a estudar para acabar desempregado Ou num emprego da treta, mal pago E receber uma gorjeta que chamam salário Eu não tirei o Curso Superior de Otário ...não é por falta de empenho Querem que aperte o cinto mas nem calças tenho Ainda o mês vai a meio já eu 'tou aflito Oh mãe fazias-me era rico em vez de bonito É sexta-feira Suei a semana inteira No bolso não trago um tostão Alguém me arranje emprego Bom bom bom bom Já já já já

6. "Já não dá (Saímos para a rua), Chullage ("Rapressão", 2012) Só vejo casas com placas de leilão ou de venda e a minha vai pelo mesmo andar que eu já não aguento esta renda e governo não dá as famlias mas dá aos bancos bué pinlin mais tarde ou mais cedo dás com um broda a dormir no banco dum jardim e querem que um gajo mendigue pela merda dum subsidio parado na segurança social onde o funcionário agride-o e de repente o povo ta perder o raciocínio e admiram o aumento de assaltos e assassínios o pior é que nós e que sofremos com os assaltos e assassínios que esses filhos da puta estão protegidos escondidos nos seus condomínios os verdadeiros assaltantes entram no banco na maior e saem com as mãos no bolso do fato e o dinheiro desviado pra um off-shore

7. "Deus, Pátria e Família", B Fachada ("Deus, Pátria e Família", 2011) Portugal está para acabar É deixar o cabrão morrer Sem a pátria para cantar Sobra um mundo para viver Chegam flores do estrangeiro Já escolhemos o coveiro Por mim é para queimar Mas não quero exagerar

8. "Parva que sou", Deolinda (sem álbum, 2011) Sou da geração sem remuneração e não me incomoda esta condição. Que parva que eu sou! Porque isto está mal e vai continuar, já é uma sorte eu poder estagiar. Que parva que eu sou! E fico a pensar, que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar.

9. "Hoje é um bom dia!", Anaquim ("Desnecessariamente complicado", 2012) Chega-te ao ouvido que a coisa piora Jogam-se carreiras p'la janela fora Joga-se roleta a toda a hora Rezam profecias que não há futuro Viram-se p'ra Meca p'ra baixar o juro Há lamentações e não há muro Hoje é um bom dia p'ra mudarmos esta porra Pegarmos o touro por pior que a coisa corra

10. "Malhão da crise", Saul ("Fábrica de chouriça", 2011) Que será da nossa vida, já estamos tão entalados Enquanto que há outros que, enfim, estão muito bem amanhados Estão muito bem amanhados à conta do Zé Povinho, Mamaram de uma só vez e não deixaram um bocadinho

11. "Avejão", Gaiteiros de Lisboa ("Avis Rara", 2012) No império das aves raras quem tem penas é rei Entre pegas e araras os patos bravos são lei A terra dos patos bravos parece mais um vespeiro Andam todos à bicada para chegar ao poleiro (...) Na terra dos papagaios quem não tem poleiro é pato Andam todos à bicada só para ficar no retrato No reino das trepadoras o papagaio é senhor Mesmo sem saber ler qualquer papagaio é doutor

12. "Desempregado", Rey Brandão ("Ponto de Partida", 2012) Tens uma vida desamparada Sempre falida, sempre encalhada Vês um anúncio para estagiário Mas tens de ter carro e não és otário Desempregado, vives com medo És desprezado, não tens emprego

13. "Desemprego em Portugal", Kebra d' Tensão (sem álbum) Abri o Expresso Oito da manhã Ainda mal abri os olhos, já estou a procurar Sempre otimista sei que vou achar Eu e mais 550 mil licenciados desempregados Que não desistem de correr os anúncios E de sonhar com a imagem de fato e BM [BMW] De resistir com o empenho, a força e a criatividade Que sempre elevaram e dignificaram o trabalho em Portugal Amo o meu país