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Morreu Horácio Roque (1944-2010)

Horácio Roque faleceu no Hospital de São José, onde se encontrava internado em estado crítico desde dia 4 de Março, nos Cuidados Intensivos da Unidade de Neurocirurgia. Corpo estará em câmara ardente na Basílica da Estrela a partir de hoje, de onde sairá sexta-feira o funeral, para o cemitério de Oleiros

Isabel Vicente (www.expresso.pt)

Afável, simples e com pensamento positivo. Era esta a imagem que Horácio Roque dava de si próprio a quem com ele se relacionava. O espírito de aventura fê-lo correr atrás de uma ambição maior do que aquela que a sua terra natal, Oleiros, prometia.

O mais novo de cinco irmãos viajou sozinho para Angola com apenas 14 anos. E desde então o trabalho nunca faltou. Começou nessa altura a desenhar-se uma vida que percorreu continentes e criou um negócio que ainda hoje controla maioritariamente - o Banif. Banco que fez crescer sem querer dar passos maiores que a perna. O balanço foi positivo: "Valeu a pena criar o Banif", foi o título da última entrevista que concedeu ao Expresso, em Setembro de 2008, e onde afirmou que não tinha como obsessão crescer a todo o custo.

O empresário esteve bastante activo nos últimos meses: comprou 100% da Técnicrédito, que integra o Banco Mais, e mais de 80% da seguradora Global e Global Vida, além de ter reforçado as operações do banco em Espanha, onde era suposto ter ido para inaugurar uma parceria na Catalunha, um dia depois de ter sido internado.

AVC após apresentação de resultados

No dia anterior ao AVC tinha estado reunido com a imprensa para apresentar os resultados do grupo em 2009. Bem disposto por natureza, o banqueiro começou por dizer que "os resultados não são tão brilhantes como gostaríamos. Mas são o que são". O banco que fundou teve lucros mas não tantos quanto desejava. Ainda assim, o espírito positivo vingava. A grande preocupação sempre foi garantir a estabilidade accionista do grupo.

O fundador do Banif, em 1988, não era, ao contrário do que muita gente pensa, madeirense. Nasceu em Oleiros, perto de Castelo Branco, e orgulhava-se do mundo agrícola onde nasceu, mas queria mais. Quis o destino e a ambição que o acompanhou na sua caminhada pela vida que saísse da sua aldeia aos 14 anos em direcção a Angola, onde tinha uma irmã. Foram precisos 14 dias para chegar a Angola de barco, com uma paragem na ilha da Madeira, onde fez questão de pisar o chão. Nunca tinha viajado e o mar não se avistava de Oleiros. A sua ligação ao mar começou nessa altura, a caminho de Luanda, onde afirmava ter crescido e vivido a sua juventude. Com 18 anos, quatro anos depois de ter chegado a Angola, criou uma empresa. De 1958 a 1976 ficou por Angola.

Como várias vezes referiu, só voltou a Angola em 1992 e desde então nunca mais pisou o país onde toda a sua carreira começou. Costumava dizer que Angola saiu do trajecto dos seus negócios devido às ligações políticas da sua ex-mulher, Fátima Roque, à UNITA. Recentemente, foi notícia por causa do insólito caso da compra de acções do Banif pelo Estado angolano, negócio em que Angola insinuou que ele teve participação, mas que Horácio Roque sempre afirmou desconhecer.

Amizade com Joe Berardo 

Em 1977 rumou de Angola à África do Sul, onde desenvolveu os seus negócios que passavam por assumir participações em empresas de diversos sectores da economia. Três anos depois começou a investir em Portugal. A sua ligação à Madeira resultou da amizade que desenvolveu com Joe Berardo e que o levou a fundar o Banif, com sede no Funchal.

Com amigos em cada porto, Roque gostava de viajar e do social. Não dispensava passar férias com as filhas e netos. O humor e a boa disposição marcavam pontos na vida do empresário e banqueiro. Mesmo quando não estava nos seus melhores dias, uma boa conversa encarregava-se de lhe devolver a boa disposição.

Em 2008 teve um grave problema de coração que, assim que foi detectado, o levou a ser operado de emergência. Mas não esteve muito tempo em recuperação. A sua energia e vontade de viver rapidamente o trouxeram de volta ao activo.

Em Outubro de 2007, em entrevista ao Jornal de Negócios, quando questionado sobre "se tudo desaparecesse, o que gostaria de manter", respondeu: "A casa da aldeia por respeito aos meus pais. Mas se alguma coisa me acontecesse, gostaria de manter a minha saúde física e mental. E a minha capacidade para o optimismo e para me rir de mim próprio". E na derradeira pergunta dessa entrevista "Onde quer ser enterrado?", respondia: "Em parte nenhuma! Não quero morrer!".