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Leste europeu: os próximos na bancarrota

Quatro países da periferia leste da União Europeia vêm a probabilidade de default da dívida soberana subir acima dos 18%. Hungria e Roménia são os casos em destaque. As bolsas europeias "reagem" com um mini-crash. Mais um.Aperta-se uma tenaz sobre o centro da zona euro

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

Apesar de os holofotes estarem concentrados no grupo dos cinco da periferia atlântica e mediterrânica - conhecidos pejorativamente por PIIGS - que continuam a manter riscos de default (incumprimento) da sua dívida soberana elevados, uma nova frente, agora a leste, começou a desenvolver-se em Maio.

Os quatro países, que têm começado a estar no foco dos investidores institucionais no mercado da dívida soberana, são a Hungria, Roménia, Bulgária e Lituânia, todos membros da União Europeia e em dois casos já com intervenções do FMI (Hungria e Roménia).

Este grupo de quatro países, integrantes do que, em geopolítica, se designa por shatterbelt europeu (região de choque entre grandes potências, historicamente sujeita a disputas e cujas fronteiras são redesenhadas na sequência desses conflitos), viu o custo dos seus credit default swaps (acrónimo cds, contratos de seguro que os credores subscrevem com vista a cobrir a probabilidade de uma bancarrota num dado prazo) sobre a dívida soberana a cinco anos dispararem acima dos 250 pontos base agora em Maio.

Segunda bolsa de vulnerabilidade



A probabilidade de default, monitorizada pela CMA DataVision, subiu para 24% no caso da Hungria, mais de 22% no caso da Roménia e 21% para a Bulgária e Lituânia. Um dos membros desta periferia a leste, a Letónia, pertence ao TOP 10 do risco mundial, situando-se em 9º lugar, logo abaixo de Portugal.

Nesse shatterbelt, mas fora da União Europeia, encontra-se com elevado risco a Ucrânia (5º no TOP 10 mundial) e, com um risco acima da "linha Maginot", a Croácia, com 17%.

A atenção à periferia oriental, do Báltico aos Balcãs, recrudesceu depois do relatório sobre "estabilidade financeira" do Banco Central Europeu (divulgado esta semana) advertir para uma segunda "bolsa de vulnerabilidade" na Europa - o estado das economias do leste europeu.

Aperto em tenaz

A zona euro parece sofrer de um aperto em tenaz, movido pela percepção "nervosa" dos investidores financeiros sobre a situação das três periferias em foco:

- a atlântica (com os problemas da dívida soberana e da situação de endividamento do sector financeiro em Portugal, Espanha e Irlanda),

- a mediterrânica (com destaque para a Grécia e, em menor grau, para Itália)

- e a oriental, desde o Báltico (Letónia no TOP 10 do risco mundial e Lituânia acima dos 18% de risco de default), passando pela Hungria (que está à beira de ter de quase duplicar oficialmente o valor estimado do peso no PIB, este ano, do seu défice público) até aos Balcãs (Roménia e Bulgária, a ponta da União Europeia no Mar Negro).

O medo de um cenário "grego" começa a expandir-se para esta região.









O efeito morfina das decisões tomadas em Bruxelas e pelo Banco Central Europeu (BCE) na maratona de 7 a 9 de Maio parece ter passado, entretanto. A Facilidade Europeia de Estabilidade e a decisão do BCE de adquirir títulos de dívida soberana no mercado secundário (aquisições que, entre 17 e 28 de Maio, já subiram a €61,5 mil milhões) parecem não acalmar os especuladores que observam a confusão política que permanece nos círculos de poder da zona euro e da União Europeia.

Depois de uma acalmia durante a segunda metade de Maio, a probabilidade de default voltou a entrar em alta para o grupo dos cinco PIIGS. A Grécia mantém-se em 3º lugar no TOP 10 mundial do risco com mais de 47% de probabilidade de defaulthoje de manhã, Portugal no 8º lugar, com mais de 27%, a Irlanda na proximidade dos 23%, a Espanha acima dos 22% e a Itália perto dos 19%.

As diferenças em termos de custo dos cds relativos à dívida soberana alemã a cinco anos (a referência para a zona euro) são cada vez maiores:  mais de 700 pontos base (pb) para a Grécia; mais de 300 pb para Portugal, mais de 220 pb para Espanha e Irlanda e mais de 190 pb para Itália. Para se entender o spread na colocação de dívida em relação à referência alemã, tenha-se em conta que cada 100 pontos base acima no custo dos cds equivale a 1% mais de diferença nas condições de crédito.