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G20: América perdeu a liderança

É a primeira vez desde a queda do Muro de Berlim e do fim da Guerra Fria que os Estados Unidos mostram claramente a incapacidade de liderar, diz Franck Biancheri, responsável do Laboratório Europeu de Antecipação Política, em Paris

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

A reunião dos ministros das Finanças e dos banqueiros centrais do G20 realizada em Paris mostrou que a lua-de-mel do grupo que substituiu o G7 (o anterior grupo dos 7 países ricos) chegou ao fim. "A reunião de Paris que se concluiu este sábado dá bem a ideia de ausência de resultados sérios que caracterizará a cimeira do G20 em Cannes em novembro próximo", refere-nos Franck Biancheri, responsável do Laboratório Europeu de Antecipação Política, em Paris.

Três tendências

Segundo este especialista, que é, também, presidente do movimento europeu Newropeans, esta reunião preparatória de Paris confirmou três tendências geopolíticas e geoeconómicas:

"Primeira: As divergências entre as diferentes potências são enormes. Estamos já muito longe do unanimismo do G20 de Londres há apenas menos de dois anos.

Segunda: Já não há mais liderança americana - e, na realidade, qualquer liderança de todo. O que sucede pela primeira vez desde 1989 e desde o fim da Guerra Fria.

Terceira: O compromisso conseguido em Paris só se conseguiu porque se retirou o que incomodava Pequim (a questão das reservas em divisas e da balança externa) e o que os produtores de matérias-primas não aceitariam (como deixou claro o Brasil pela voz do ministro Guido Mantega)".

Brasil e China em foco

O Brasil não aceitava dois pontos: a definição de linhas gerais para o controlo dos fluxos de capital externo e os limites para a acumulação de reservas internacionais. A China, por seu lado, tinha deixado claro que não aceitaria o uso das taxas reais de câmbio e das reservas de divisas para avaliar os desequilíbrios globais.

Os anfitriões franceses realizaram o compromisso possível - a que a ministra francesa Christine Lagarde apelidou de "ambicioso espírito de compromisso". A França tem, este ano, a presidência da organização das reuniões do G20 e da cimeira final em novembro na Côte d'Azur.

O que resultou foi um "acordo vago sobre indicadores vagos, que não estão ligados a objetivos nem a políticas. Na realidade, não servirão para nada", diz-nos Biancheri.

O próprio compromisso deveu-se aos esforços da Coreia do Sul - que organizou a cimeira anterior em novembro do ano passado. A lista de indicadores contará com a dívida pública, os níveis de poupança e de dívida privada, a balança comercial e o fluxo de investimentos e de transferências.

As "orientações indicativas", no entanto, deverão surgir em abril, quando o grupo de ministros deverá voltar a juntar-se, diz-se no comunicado final da reunião.

Franck Biancheri começou a falar da "crise sistémica global" em 2006 - antes do rebentar da crise financeira em agosto de 2007 - e ultimamente tem referido que a década atual assistirá a "uma deslocação global do poder mundial". "Os anos 2010-2020 vão marcar uma transição histórica, em que a crise atual é o acelerador", conclui. O especialista considera como central a questão da divisa internacional que deverá substituir o dólar, um tema que continua arredado do G20. "Enquanto isso não for equacionado, as reuniões do G20 serão como esta de Paris", conclui.