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Estatísticas oficiais "escondem" recessão prolongada

Se fosse adoptada a metodologia em vigor nos anos 1980 e 1990 para apurar os números da economia dos Estados Unidos, a inflação estaria entre os 7,3% e os 11,5%, o desemprego nos 13% e a economia em recessão desde o primeiro trimestre de 2005.

"Os Estados Unidos estão numa recessão prolongada e inflacionária", afirmou ao EXPRESSO o economista Walter J. Williams, responsável por um sítio na Web que apresenta estatísticas alternativas às oficiais. A actual situação reúne dois males - recessão e inflação. Pior do que a estagflação (estagnação com inflação) dos anos 1970.

Segundo os dados mais recentes disponíveis em www.shadowstats.com (ver link relacionado no fim do texto), a disparidade nos três indicadores principais da saúde da economia americana é muito óbvia:

1- enquanto oficialmente se fala de uma inflação anual de 3,9%, se fosse adoptada a metodologia oficial usada nos anos 1990, ela subiria rapidamente para 7,3%, e se seguisse as normas de 1980, seria ainda muito mais alta: 11,5%, um valor já digno dos clubes da divisão do Terceiro Mundo;

2- com a taxa de desemprego, sucede o mesmo: oficialmente registam-se 4,9% (um desemprego quase técnico), mas as estatísticas alternativas apontam para 13%, um número para dar dor de cabeça;

3- quanto ao crescimento do PIB, os dados oficiais do Bureau of Economic Analysis divulgados recentemente apontam para um crescimento real no primeiro trimestre medíocre, mas ainda assim ligeiramente positivo, de 0,6%, mas os números alternativos referem uma quebra real da economia de 2%, na continuação de uma recessão que já viria desde o primeiro trimestre de 2005.

Walter Williams, que dirige o sítio a partir de Oakland, na outra margem de São Francisco, tem causado muita polémica nos Estados Unidos com as suas estatísticas alternativas, que têm chamada a atenção dos "media". A revista Harper's ainda recentemente (edição de Maio de 2008) publicava um artigo sugestivamente intitulado "Numbers Racket - Why the economy is worse than we know", em que se apoiava nas estatísticas "sombra" de Walter.

As implicações políticas desta discrepância são alarmantes:

1- a recessão técnica já teria sido iniciada em 2005 - tudo indicando estar a ser muito mais prolongada do que a anterior de 2001;

2- com uma inflação na ordem dos 11,5% ou mesmo dos 7,3%, as taxas de juro oficiais para empréstimo aos bancos em apuros do sistema financeiro americano são escandalosamente baixas: o contribuinte norte-americano está a financiar os bancos em pelo menos 5, 3 dólares por cada 100 dólares (ou seja, o leitor pode usar uma calculadora simples, subtraindo o valor da inflação à taxa de juro da FED - a chamada "federal funds rate" - em vigor na ordem dos 2%, e deste modo obtém a taxa de juro real que é negativa!);

3- o desemprego global superior a 10% revela que a economia americana não é de modo nenhum a campeã da mobilidade e flexibilidade na criação de emprego como é tradicionalmente apregoado; o problema é grave e é visível na pobreza crescente nas cidades.

Como se chegou aquela discrepância inacreditável nos números, é a "batalha" de informação que Walter tem travado nos últimos anos.

Uma parte deriva das mexidas na metodologia, com o objectivo político expresso de "poupar" dinheiro na segurança social e de evitar números - por exemplo na inflação - politicamente desagradáveis em determinados períodos.

Desde o final dos anos 1980 que se tem mexido na metodologia da avaliação da inflação: "Por exemplo, no índice de preços, o propósito expresso na mudança de filosofia foi reduzir o custo anual do nível de vida, de modo a diminuir os ajustamentos nos pagamentos da segurança social. Se essas alterações de metodologia não tivessem sido feitas, os pagamentos actuais da segurança social teriam duplicado em relação ao que são hoje", diz-nos, indignado.

O encobrimento da inflação real é ainda mais gravoso hoje em dia, numa época em que sabemos que a alta de preços está a ser aquecida por situações que não são controláveis facilmente por políticas públicas - o pico do petróleo (um problema estrutural) e a alta do preço do barril desde 1999; a alta das matérias-primas alimentares por força do disparo de longo prazo de uma procura nos emergentes; a especulação geral nas "commodities" em virtude da desvalorização do dólar e do período de declínio nas bolsas.

Para encobrir a dinâmica inflacionária, a Administração americana deixou, inacreditavelmente, de publicar, desde 2006, os dados do crescimento da oferta de moeda (o indicador M3), que capta muito bem aquela alta. Walter resolveu apurar o que as estatísticas oficiais não divulgam: o crescimento do M3 disparou de 8% ao ano em 2006 para 16% em 2008!

No campo do crescimento do PIB americano, a situação é, também, escandalosa: a contracção económica é visível em indicadores desagregados, mas não oficialmente no PIB, que Walter arrisca classificar como "tão altamente distorcido que hoje é usado mais como arma política do que como um indicador económico credível".