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Um corte a mais?

Mitos sobre a austeridade fiscal Os cortes orçamentais no G-20 são menos imprudentes do que se teme. Devemos concentrar a ansiedade na escassez de reformas estruturais

Exclusivo Expresso/The Economist

Podemos ser perdoados por acreditar que acaba de ter lugar uma grande alteração na política económica global. A julgar pela declaração divulgada após a reunião mais recente realizada na Coreia do Sul nos dias 4 e 5 de Junho, os ministros das Finanças do G-20 das maiores economias a nível mundial livraram-se do seu compromisso colectivo para com os encargos com o défice keynesiano. Ao contrário dos anúncios anteriores, incluindo um publicado muito recentemente em Abril, o documento não menciona qualquer estímulo orçamental de ajuda às economias em dificuldades, argumentando em vez disso que "os países com graves desafios orçamentais devem acelerar o ritmo da consolidação".

Alguns políticos, principalmente da Europa, aclamaram a mudança. A Alemanha tem reclamado veementemente uma maior prudência fiscal. George Osborne, o novo chanceler do tesouro britânico (equivalente a ministro das Finanças), que está a preparar o seu país para a sobriedade orçamental, gabou-se de os G-20 terem acabado por concordar com as suas ideias. Muitos economistas keynesianos estão horrorizados, argumentando que cortes orçamentais brutais deitarão por terra uma retoma frágil e condenarão o mundo rico à deflação. Paul Krugman, colunista do "New York Times", escreveu no seu blogue sobre o "total disparate" dos "loucos no poder".

De certa forma, a lógica de Krugman faz sentido. Seria de facto um disparate se grandes parcelas da economia mundial embarcassem num conjunto imediato e draconiano de cortes orçamentais. Na maior parte dos países ricos as retomas são ainda frágeis, dando mesmo algumas delas sinais de novas fraquezas: o crescimento do emprego em Maio no sector privado americano, por exemplo, foi surpreendentemente fraco. Embora seja claro que não podem ser sustentados défices orçamentais gigantes para sempre, o aperto prematuro pode ser muito perigoso, conforme se pode ver manifestamente pelas experiências da América em 1937 e do Japão em 1997.

Felizmente, no entanto, a retórica do G-20 é muito mais dura do que a provável realidade. Ao contrário dos receios de Krugman, dos planos orçamentais propriamente ditos há poucos indícios de que os ministros das Finanças a nível mundial estejam a embarcar numa viagem de austeridade colectiva imediata. Os políticos americanos estão ainda a debater um segundo mini-estímulo. Mesmo na Europa, onde o foco sobre a redução do défice é maior, o impacto a curto prazo será relativamente modesto.

Sob pressão dos mercados obrigacionistas, os países no centro da crise da dívida da zona euro - Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda - não têm alternativa senão fazerem cortes duros. Mas trata-se principalmente de pequenas economias, sendo Espanha a única economia europeia já com dimensão que planeia implementar este ano cortes orçamentais superiores a 1% do PIB.

A Alemanha tece críticas ruidosas sobre a austeridade, tendo revelado um conjunto de cortes num ambiente de grande comoção esta semana. Mas se olharmos para os pormenores, constatamos que dificilmente são exagerados. Graças ao actual estímulo à despesa, que não se propõe a cortar, prevê-se que o défice orçamental subjacente da Alemanha aumente este ano. O plano é reduzi-lo gradualmente a partir de 2011, começando com cortes de cerca de 0,4 pontos percentuais do PIB no próximo ano. Não só a escala é relativamente modesta, como as medidas propriamente ditas (tais como o corte na despesa militar e a redução nos pagamentos de protecção social) são sensíveis.

O Reino Unido, que espera um "orçamento de emergência" para o dia 22 de Junho, será mais duro. O seu novo Governo debate-se com um défice que rivaliza com o espanhol, embora os cortes sérios na despesa apenas tenham início no próximo ano. E tanto no Reino Unido como na zona euro, as restrições orçamentais mais intensas podem - e devem - ser contra-atacadas pela manutenção por parte dos bancos centrais de uma política monetária mais folgada durante mais tempo.

Não é estúpida, mas também não é suficientemente inteligente

Um olhar calmo sobre os números sugere então que as probabilidades de um tropeção colectivo do G-20 em direcção a uma austeridade destruidora da retoma este ano são baixas. O verdadeiro perigo da actual adopção da austeridade não é esta ser imprudente, mas ser imprevidente - falhando uma oportunidade de implementar alterações de política que ajudarão as economias principalmente no futuro.

Em primeiro lugar, a maior parte dos governos dos países ricos está a ser pouco ousada relativamente a reformas, tais como o aumento da idade da reforma, que melhorem as finanças públicas no médio prazo sem enfraquecer a procura neste momento. Em segundo lugar, os proponentes de autoridade orçamental estão a colocar um peso desproporcionado sobre a disciplina orçamental como solução para os males do mundo rico, minimizando a importância das medidas estruturais, do lado da oferta. Na Europa, a reforma reguladora é essencial para melhorar as perspectivas de crescimento tanto em países prudentes como em países gastadores: a Alemanha, por exemplo, deve impulsionar o seu subdesenvolvido sector dos serviços, e Espanha deve tornar mais fácil o despedimento dos funcionários públicos.

Enquanto estão com disposição para decisões difíceis, os governos deviam alargar os horizontes, incluindo as medidas que farão com que as suas economias sejam mais aptas e cresçam mais rapidamente, a longo prazo. O crescimento mais rápido, afinal, é o caminho mais seguro para um melhor panorama orçamental.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Alice Stilwell para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com