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Política económica global

O dilema da deflação . Os países ricos têm de agir para evitar a queda dos preços, que, a ocorrer, iria causar problemas às economias emergentes.

Exclusivo Expresso/The Economist

Devemos preocupar-nos mais com a inflação ou com a deflação? Há poucas questões que sejam mais importantes para os investidores e decisores políticos do que esta - e, no entanto, poucas parecem mais incertas. Os mercados financeiros estão a enviar sinais confusos. A queda dos juros das obrigações do Tesouro sugere que muitos investidores estão preocupados com a estagnação económica e com a deflação. E o facto de os preços do ouro terem disparado aponta para receios de hiperinflação.

Os economistas também estão de acordo na avaliação daquilo que pode constituir maior risco, e que depende em larga medida do país e do lapso de tempo em análise. A avaliar pelos debates, num novo fórum em linha, de mais de 50 economistas de renome mundial, lançado esta semana pelo "The Economist", a deflação é o maior perigo a curto prazo para as grandes economias ricas, enquanto que a inflação é uma preocupação imediata para muitas economias emergentes e, potencialmente, um perigo a longo prazo para as economias ricas.

Parece ser uma avaliação razoável. Na América, na zona euro e no Japão, a deflação está desconfortavelmente perto ou é já uma realidade dolorosa, apesar das taxas de juro próximas de zero e de outros esforços desenvolvidos pelos bancos centrais. No ano que findou em Abril, o índice de preços de base no consumidor aumentou uns meros 0,9% na América, o ritmo mais lento das últimas quatro décadas. Na zona euro, esse índice aumentou 0,7%. E no Japão, que tem vindo a combater a queda dos preços há mais de uma década, caiu 1,5%.

Também não há muitas razões para se esperar uma reviravolta súbita. Os agregados monetários globais e de crédito estão em estagnação ou em recuo nas três zonas. O desemprego é elevado e há grandes discrepâncias entre os resultados reais e o potencial económico das respectivas economias. Em especial na zona euro, os planos de austeridade irão minar mais ainda a procura interna. Felizmente, é improvável que haja uma queda súbita de preços, em parte também porque o cidadão comum ainda tem esperança de ver os preços no consumidor aumentarem ligeiramente, e esta expectativa de inflação futura ajuda a manter os preços reais. Mas o balanço das pressões a curto prazo aponta claramente para uma descida.

O mesmo acontece com o conjunto dos factores de risco. Quando se instala, a deflação é mais perigosa que muitas das formas de inflação. Quando os preços baixam, os consumidores adiam as suas compras na expectativa de virem a conseguir preços ainda mais baixos, condenando a economia a um ciclo vicioso de despesa fraca e preços deslizantes. Nas economias fortemente endividadas, a queda dos preços iria aumentar o peso real da dívida dos consumidores e dos Governos.

A deflação também é mais difícil combater do que a inflação. Durante as últimas duas décadas, os governadores dos bancos centrais ganharam grande experiência em métodos para conseguir aumentos excessivos de preços. A permanente incapacidade do Japão de evitar a queda dos preços indica que a tarefa oposta é muito menos bem compreendida. Embora seja verdade que governos fortemente endividados podem ser tentados a reduzir a dívida através de uma inflação mais elevada, há poucos sinais de que o apoio político à inflação reduzida esteja a diminuir.

Aqui ajuda, ali prejudica

Adicionem-se todos estes factores e os três maiores bancos centrais a nível mundial - nos Estados Unidos, na zona euro e no Japão - deveriam preocupar-se com a queda dos preços. A dimensão das restrições orçamentais sugere que a política de taxas destes bancos poderá manter-se muito baixa por vários anos. Mas isso irá causar problemas noutras paragens. As taxas de juro próximas de zero das economias grandes e ricas vão desviar grandes fluxos de capital para onde houver maior rentabilidade, dificultando a estabilidade económica dos países com economias mais saudáveis.

Nas economias emergentes, este problema irá ser mais grave. Muitas delas já estão a entrar em sobreaquecimento, com subidas de preços e bolhas de activos a crescer. Muitas têm uma política monetária desadequada e frouxa. As taxas de juro reais são negativas em dois terços das 25 economias emergentes analisadas pelo "The Economist". As suas expectativas em termos de inflação são menos estáveis e os preços podem rapidamente entrar numa espiral ascendente.

Tudo isto aponta para a necessidade de uma política monetária mais restritiva. Os bancos centrais do Brasil, da Malásia e de outros países já deram o exemplo. Mas a economia emergente mais importante, a China, associa a sua moeda ao dólar americano, o que limita a sua capacidade de aumentar as taxas de juro. E mesmo os países que têm taxas de câmbio mais flexíveis estão preocupados com a possibilidade de a subida das taxas de juro fazer disparar as suas moedas.

De facto, moedas mais fortes nos mercados emergentes são uma condição necessária para o 'reequilíbrio' da economia mundial, que proporcione às economias ricas, agora enfraquecidas, uma forma de escapar às pressões deflacionarias. Uma política orçamental mais severa nas economias emergentes ajudaria a abrandar a pressão sobre os preços. O controlo de capitais também deveria fazer parte das suas defesas contra os súbitos afluxos de capital estrangeiro.

Contudo, a História indica que nenhuma destas políticas será uma panaceia. Quando a situação monetária nas economias ricas é ambígua, as economias emergentes têm tendência a cair em excessos de crédito e bolhas de activos. O preço de evitar, hoje, a deflação no mundo desenvolvido poderá originar, amanhã, a depressão no mundo emergente.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Fábrica do Texto para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com