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O preço da liberdade

Balanço Um olhar sobre a África do Sul. Depois de ter ascendido à democracia, há 16 anos, o país de Mandela deu enormes passos em frente. Mas, com o Mundial a começar, constata-se que nem tudo mudou para melhor desde o fim do apartheid.

Exclusivo Expresso/The Economist

O desporto é muito importante na África do Sul. No seu discurso à nação, no Ano Novo, o Presidente Jacob Zuma disse que 2010 era "o ano mais importante para o nosso país desde 1994".

Para quem estiver de fora, acolher o Mundial de futebol deste ano talvez possa parecer um acontecimento menos marcante do que a realização, há 16 anos, das primeiras eleições realmente democráticas, que instauraram um Governo da maioria negra - em especial porque a equipa nacional, os Bafana Bafana, pode ser eliminada na primeira fase. Contudo, devido ao facto de o pontapé-de-saída ser dado a 11 de Junho, poucos dias depois do 100º aniversário do país, em 31 de Maio, nas próximas semanas os olhos do mundo estarão fixados na principal economia africana.

Conseguirá a nação-'milagre', que conquistou aplausos em todo o mundo pela sua transição pacífica para a democracia, após séculos de supremacia branca, ultrapassar as amargas divisões do passado e transformar-se na "nação arco-íris" dos sonhos de Nelson Mandela? Ou irá atolar-se cada vez mais na má governação, tensões raciais, pobreza, corrupção, violência e decadência, até se transformar em mais um Estado africano falhado? O seu vizinho do Norte, o Zimbabwe, não permite esquecer o que pode acontecer ao fim de apenas um par de décadas de governo pós-libertação de partido único e muitos sul-africanos, negros e brancos, receiam que o seu país possa estar a atingir um ponto de viragem.

Pode desculpar-se que os adeptos ocidentais, que chegam à África do Sul para o Mundial de futebol, pensem que ainda estão no mundo desenvolvido. A maior parte das infra-estruturas são tão boas como as existentes em qualquer outro lado - em especial as que, para preparar o torneio, foram alvo de operações cosméticas que custaram vários milhões de dólares.

Não tão rico como parece

Dez estádios espectaculares foram construídos ou reconstruídos com um custo de 15 mil milhões de rands. Os visitantes que chegam ao O.R. Tambo, o principal aeroporto internacional, serão rapidamente transportados para Joanesburgo pela Gautrain, a primeira ligação ferroviária africana de alta velocidade.

Muitos dos hotéis e restaurantes do país são de nível internacional, incluindo o hotel Bushmans Kloof, a três horas de distância por estrada da Cidade do Cabo, recentemente votado como o melhor do mundo pelo website Travel + Leisure, e o La Colombe, da Cidade do Cabo, classificado em 12º lugar na lista S. Pellegrino dos melhores restaurantes, deste ano.

Na realidade, a África do Sul é apenas um país em desenvolvimento, de médio rendimento, com um PIB por pessoa empregada de cerca de 10 mil dólares (em termos de paridade do poder de compra), um quarto do equivalente americano. Numa base per capita é o sétimo país mais rico de África, segundo alguns indicadores. A média oculta enormes disparidades. Durante o apartheid, os brancos eram incentivados a pensar que faziam parte do mundo ocidental. Só quando tiveram de passar a partilhar as ruas, os bens e os serviços com os seus compatriotas de pele mais escura é que começaram a perguntar-se se isso era verdade.

Agora, muitos queixam-se da deterioração dos seus padrões. No entanto, a maioria dos brancos prosperou desde o fim do apartheid - na verdade, mais do que a maioria dos negros. Continuam a ter uma boa vida, dispondo de pessoal doméstico a baixo custo e cuidados médicos e escolas privadas de primeira classe.

Para a maioria dos negros sul-africanos, porém, a vida não é assim tão fácil. Apesar de os mais pobres contarem agora com algum tipo de apoio governamental, este não passa de uma ninharia. Muitos negros continuam a viver em barracas e pequenas casas sem saneamento adequado, em bairros onde impera a criminalidade, nas periferias das principais cidades. As suas escolas e os seus hospitais estão, em muitos casos, num estado lamentável. E, num país onde os transportes públicos são poucos, a maior parte dos negros não tem carro. Embora seja a 24ª maior economia do mundo, a África do Sul figura em 129º lugar (em 182) no índice de desenvolvimento humano da ONU (12º em África).

A Constituição do país, aprovada em 1996, é uma das mais progressistas do mundo. Consagra um vasto leque de direitos sociais e económicos, além das mais habituais liberdades civis e políticas. A discriminação é proibida, não apenas com base na raça, género, idade e crença religiosa mas, também, quando resultante de gravidez, estado civil, orientação sexual e cultura.

A lei garante idêntica protecção para cada um dos 49 milhões de habitantes do país - 79% de negros, 9% de brancos, 9% de mestiços e 3% de asiáticos/indianos. A Freedom House, uma fundação de investigação com sede em Washington, atribui à África do Sul um respeitável 2º lugar no seu índice "liberdade no mundo", no qual 1 corresponde a completamente livre e 7 a totalmente não livre. A África do Sul é uma terra de contrastes. Possui uma riqueza mineral fabulosa - 90% das reservas mundiais conhecidas de platina, 80% das de manganésio, 70% das de crómio e 40% das de ouro, além das ricas jazidas de carvão. Contudo, 43% da sua população vivem com menos de 2 dólares por dia.

O país acaba de anunciar a intenção de desenvolver um programa de satélites (com a Índia e o Brasil) e é o principal candidato ao acolhimento do maior projecto científico do mundo, o rádio telescópio Square Kilometre Array. Contudo, o seu desempenho em testes internacionais de matemática, ciência e leitura é péssimo.

Tem um desemprego extremamente elevado e, ao mesmo tempo, padece de uma escassez de qualificações profissionais que o paralisa. Foi o primeiro país a realizar um transplante de coração e alguns dos seus médicos continuam a figurar entre os melhores dos melhores. Contudo, o registo de saúde da população é um dos piores do mundo.

Se não contarmos com as zonas de guerra, é um dos países mais violentos e dominados pelo crime em todo o planeta. Este relatório especial vai mostrar a África do Sul do modo como a maior parte da sua população a vê. Os resultados são, em muitos casos, cruéis.

O lado bom

No entanto, há alguns indícios animadores de que os contrastes estão a tornar-se menos marcados. Recentemente, a África do Sul reduziu para metade a taxa de homicídios; quase erradicou a subnutrição grave das crianças com menos de 5 anos; aumentou em cerca de 100% a percentagem de matrículas nas escolas de jovens entre os 7 e os 15 anos; atribuiu benefícios sociais a 15 milhões de pessoas; e lançou o maior programa do mundo de tratamento anti-retroviral do HIV/sida.

E quanto à raça? A África do Sul continua obcecada pela raça. O que não é de surpreender, ao fim de 350 anos de polarização racial, incluindo quase meio século de apartheid, durante o qual as relações sexuais inter-raciais eram crime e os não brancos até foram proibidos de utilizar os passeios.

O assunto tem tido altos e baixos. Ainda em Agosto último, Jacob Zuma aconselhava os seus compatriotas a não relançarem o debate sobre a raça.

Mas o assassínio, em Abril, de Eugene Terre'Blanche, líder de um grupo defensor da supremacia branca, e as explosões racistas de Julius Malema, presidente da poderosa Liga da Juventude do Congresso Nacional Africano (ANC), o partido no poder, voltaram a reabri-lo.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Fábrica do Texto para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com