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Mata-me depressa

Ilegal A beberagem letal do país bem merece o nome.

Exclusivo Expresso/The Economist

O bairro de lata de Korogocho é um dos mais pobres de Nairobi, a sobrepovoada capital do Quénia. Os 120 mil habitantes do bairro ocupam um quilómetro quadrado fedorento, perto da lixeira da cidade. Cerca de três quartos das pessoas têm menos de 30 anos e muitas são alcoólicas.

O equivalente a um dólar americano (0,7554 euros) é suficiente para comprar quatro copos de chang´aa destilada ilegalmente - e o entorpecimento. Há quem beba a especialidade local, o jet-five, assim chamado porque a fermentação do milho e do sorgo é acelerada com combustível de avião roubado. Pode causar danos cerebrais. Noutras zonas de Nairobi, o teor alcoólico da chang'aa é aumentado com líquido de embalsamar das morgues.

O nome, que à letra significa "mata-me depressa", foi bem escolhido. Esta e outra bebida à base de metanol são por vezes fatais: dez ml de metanol podem queimar o nervo óptico, 30 ml podem matar. Mesmo sem o acelerador, a bebida está contaminada. A água contém matéria fecal.

Quando a polícia fez rusgas, não há muito tempo, encontrou ratazanas em decomposição e roupa interior feminina em vasilhas de chang´aa. Mesmo assim, o preço e a potência são mais tentadores do que os das garrafas de cerveja sobre as quais recaem pesados impostos e que são privilégio dos quenianos mais ricos.

O Quénia não é o único. A Organização Mundial de Saúde, das Nações Unidas, calcula que metade do álcool que se bebe em África é ilegal. No vizinho Uganda, consome-se mais álcool per capita do que em qualquer outro país do mundo. Muito desse álcool é waragi, um gim feito com banana. Só em Abril, cerca de 100 ugandeses morreram devido a waragi tóxico. No Botswana, questionavelmente tido como o país mais desenvolvido da África subsariana, bebe-se laela mmago, que significa "adeus mamã".

A East African Breweries é uma das maiores empresas e um dos maiores contribuintes do Quénia. Quer substituir a chang´aa ilegal por uma versão comercial mais segura. Contudo, pôr o preço do álcool ao nível do preço da água aumenta os riscos de alcoolismo e obriga os muito pobres a consumir bebidas alcoólicas ainda menos fiáveis. Em todo o caso, poderia trazer custos acrescidos: crime, violência sobre mulheres e crianças, sexo não seguro e pouca saúde.

Os padres católicos de Korogocho acolhem reuniões dos Alcoólicos Anónimos mas, no Quénia, tal como em toda a África, a ajuda do Estado para a recuperação dos alcoólicos é rara.

O que é óbvio é que a urbanização está a mudar a forma como o álcool é consumido. As bebidas ilegais facilitam os negócios e a reconciliação nas zonas rurais mas, nos imensos bairros de lata da cidade, onde vive a maioria da população de Nairobi, são quase sempre uma forma barata de afogar um sentimento de abandono.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Fábica do Texto para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com