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Fish and no chips

DHA. Regime alimentar e a evolução do cérebro. As maravilhas do ácido docosa-hexaenóico.

Exclusivo Expresso/The Economist

Atribuir uma grande mudança evolucionária a uma molécula particular é pretensioso. Atribuir-lhe duas é verdadeiramente audacioso. Contudo, fazê-lo era apenas uma das ideias que flutuavam há dias na "Celebração do DHA" em Londres. A celebração em questão era uma reunião científica e não um festival. Mas era definitivamente uma grande reunião de pessoas que comungavam de uma mesma paixão. Teve lugar a 26 e 27 de Maio na Royal Society of Medicine para discutir muitas das virtudes do ácido docosa-hexaenóico (DHA), o mais importante dessa moderna classe de substâncias químicas dietéticas, os ácidos gordos ómega-3.

O DHA é um componente que se encontra no cérebro, particularmente nas junções sinápticas entre as células nervosas, e a sua substituição nos modernos regimes alimentares pelo ácido ómega-6 em óleos de cozinha como o de soja, milho e colza é causa de preocupação. Muitos investigadores pensam que esta mudança - e a alteração que provoca na química do cérebro - explica o aumento nos últimos tempos da depressão, da doença bipolar, da perda de memória, da esquizofrenia e do distúrbio do défice de atenção. Pode também ser responsável pelo aumento dos níveis de obesidade e, portanto, das doenças cardíacas que muitas vezes acompanham o excesso de peso.

Michael Crawford, um investigador do Institute of Brain Chemistry and Human Nutrition de Londres, considera, no entanto, que o DHA é mesmo mais importante do que isso. Sugere que o DHA foi responsável, em primeiro lugar, pela existência dos sistemas nervosos, e que o acesso a grandes quantidades desse ácido permitiu a evolução de um cérebro grande nos antepassados mais recentes do género humano.

Lentes olho-de-peixe

De acordo com o dr. Crawford, a primeira missão do DHA foi converter luz em electricidade em organismos unicelulares. Isto deu-lhes uma visão primitiva, permitindo-lhes deslocarem-se em resposta à luz e à sombra, mas também trouxe para a biologia um modo de controlar o potencial eléctrico. Se os organismos passarem a ser multicelulares, as células devem ser capazes de comunicar umas com as outras. As potencialidades eléctricas, a base de cada sistema nervoso, são uma maneira de o fazerem. E o DHA será o agente que o torna possível.

A molécula é seguramente omnipresente. Cerca de 600 milhões de anos depois de os animais se tornarem multicelulares, mais de metade das moléculas de ácido gordo nas células fotossensíveis do olho humano continuam a ser de DHA, e a proporção do DHA nas sinapses cerebrais não está longe disso, apesar de moléculas semelhantes serem mais fáceis de obter.

De facto, o dr. Crawford considera que uma escassez de DHA é uma questão evolucionária de longo prazo. A molécula é conhecida por se encontrar facilmente no peixe gordo. Isto pode explicar por que razão, por exemplo, os golfinhos têm cérebros que pesam 1,8 quilos, ao passo que o cérebro da zebra pesa apenas 350 gramas, apesar de nas duas espécies o tamanho do corpo ser semelhante. Além disso, argumenta, o súbito aumento do tamanho do cérebro dos antepassados da humanidade que se verificou há cerca de 6 milhões de anos não foi porque os símios desceram das árvores e começaram a caçar na savana, mas porque chegaram ao litoral e encontraram facilmente um fornecimento de DHA no peixe. Nem todos, é preciso dizer, concordam com esta interpretação da História. Por um lado, os antepassados da humanidade não parecem ter sido exclusivamente do litoral. Numa coisa, porém, estão todos de acordo: é que substituir o DHA por outras moléculas superficialmente semelhantes é uma má ideia.

Não aceitar substitutos

Joseph Hibbeln, um investigador dos National Institutes of Health da América, tem vindo a observar o fornecimento de DHA aos bebés no leite materno e a variação genética na capacidade de produzir esta molécula a partir de outros ómega-3. Um estudo iniciado nos princípios da década de 1990 mostrou que as crianças alimentadas ao peito estão na mesma faixa de QI, independentemente de terem ou não a capacidade de fabricar o seu próprio DHA. Porém, no caso das que são alimentadas com leite em pó com baixa quantidade de DHA, aquelas sem capacidade de fabricarem DHA tinham em média um QI 7,8 pontos inferior ao das que a possuíam

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A inteligência não é a única coisa afectada por uma carência de DHA. Existe também toda uma série de dados ligando as deficiências em ómega-3 ao comportamento violento. Os países em que os cidadãos comem mais peixe (que é rico em DHA) são menos propensos à depressão, ao suicídio e ao homicídio. E uma nova investigação do dr. Hibbeln mostra que os baixos níveis de DHA são um factor de risco para o suicídio entre soldados americanos, tanto homens como mulheres. Os que de facto se suicidaram tinham significativamente níveis mais baixos de DHA no hemograma de rotina mais recente efectuado antes de cometerem suicídio do que os soldados que permaneceram vivos. O que é mais preocupante é que 95% dos soldados americanos têm níveis de DHA que sugerem que estão em risco de suicídio.

O ministério americano da Defesa levou isso em conta. Irá em breve divulgar um programa para complementar o regime alimentar dos soldados com ómega-3. A Food and Drug Administration (FDA) pode também mudar uma das suas políticas. Thomas Brenna, professor de nutrição na Cornell University, escreveu uma carta (co-assinada por muitos dos cientistas presentes na reunião) insistindo com a agência para rever o seu conselho a grávidas e mulheres férteis para que limitem o seu consumo de peixe. Este aviso, emitido em 2004, destinava-se a proteger o feto dos efeitos malignos do metil-mercúrio, que se acumula em peixes como o atum. Os signatários da carta argumentam que este efeito é grandemente ultrapassado pelos benefícios de comer peixe gordo, associados ao DHA.

Podem, contudo, estar a remar contra a maré. A popularidade dos alimentos ricos em ómega-6 e baseados em óleos vegetais baratos será difícil de reverter. Se os resultados de outro estudo do dr. Hibbeln se confirmarem, tanto para pessoas como para roedores, a previsão pode cumprir-se.

Nesta experiência, ele deu aos ratos alimentos idênticos, salvo que num caso 8% das calorias vinham do ácido linoleico (um ácido gordo ómega-6), enquanto noutros esse valor era de 1%. Estas percentagens reflectem a mudança na proporção de ómega-6 na alimentação dos americanos entre 1909 e o princípio do século XXI.

No regime alimentar de 8%, os níveis de obesidade dos ratos duplicaram. Constatou-se que nos ratos (e também nos seres humanos) o ácido linoleico se converte em moléculas, chamadas endocanabinóides, que activam o apetite. Por outras palavras, quem come ómega-6 quer mais comida. E como, no caso dos humanos, os alimentos ricos em ómega-6 são muito mais baratos do que os alimentos ricos em ómega-3, é isso que as pessoas tendem a consumir.

O caminho de saída deste círculo vicioso não é óbvio. Comer peixe é óptimo, mas os oceanos já estão hoje sujeitos a uma pressão excessiva. A biotecnologia poderá ajudar, levando à criação de plantas geneticamente modificadas, como a soja, com níveis mais altos de DHA. Contudo, até lá, a melhor recomendação é provavelmente aquela que foi preconizada no oráculo de Delfos: "Nada em excesso".

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Aida Macedo para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com