Siga-nos

Perfil

Economia

The Economist

Estrelas cadentes

Banca. Crise em Espanha pode penalizar bancos europeus.

Exclusivo Expresso/The Economist

Os bancos em França, Itália e Espanha tiveram um desempenho melhor do que todos os outros do mundo rico durante os distúrbios de 2008-09, com menores operações de banca de investimento, alavancagem mais baixa, financiamento mais estável e menos perdas.

Mas, se o colapso do Lehman Brothers era impensável, agora enfrentam o inimaginável: o receio de uma crise da dívida soberana na zona euro, que continua a escalada, apesar do pacote de apoio à Grécia anunciado no dia 2 de Maio. As acções dos bancos europeus caíram 8,5% ao longo dos dias 4 e 5 de Maio, sendo as empresas ibéricas as mais atingidas. As taxas dos títulos de dívida e os spreads dos swaps de risco de incumprimento portugueses e espanhóis vão na dianteira, indicando que os investidores consideram que as probabilidades de incumprimento dos governos, embora reduzidas, estão a subir.

O perigo directo de abertura de falência para os bancos de países pequenos da zona euro é gerível. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) considera que a exposição dos bancos europeus à Grécia e Portugal era de €344,7 mil milhões (429 mil milhões de dólares) no final de 2009, incluindo contrapartes públicas e privadas, o que equivale a menos do que a dimensão do balanço do Lehman, havendo em qualquer caso poucos bancos com um relacionamento entrelaçado com os países vizinhos do tipo daquele que tinham com o banco de Wall Street.

Uma perda de um terço daquele valor não seria um caso de vida ou de morte. De acordo com a CreditSights, uma empresa de análise, os maiores 22 bancos europeus apresentaram, no ano passado, um rácio Tier 1 de €726 mil milhões no final de 2009, e um resultado antes de impostos e de dívidas incobráveis de €184 mil milhões, ou seja, um enorme amortecedor de segurança.

Em complemento, os dados do BIS incluem subsidiárias de bancos estrangeiros na Grécia. A história sugere que, in extremis, as empresas-mãe estrangeiras podem circunscrever as subsidiárias locais e recusar-se a dar-lhes mais fundos, à semelhança do que aconteceu na Argentina em 2001-03, o que as deixa em situação difícil apenas relativamente às suas acções na subsidiária e a quaisquer empréstimos que lhe tenham concedido, não pela totalidade do seu balanço.

Circunscrever uma subsidiária num país-irmão da União Europeia seria difícil, mas num cenário de incumprimento existe uma probabilidade muito real de as empresas-mãe poderem evitar serem atingidas em cheio, empurrando parte da pancada para os credores locais, o que poderá ajudar a explicar a razão pela qual os bancos franceses, considerados pelo BIS grandemente expostos à Grécia, parecem relativamente serenos após os acontecimentos desta semana.

Portugal e a Grécia não são o que realmente assusta os investidores, mas sim o espectro de uma crise muito maior em Espanha, à qual os bancos europeus apresentavam uma exposição de cerca de ¤590 mil milhões no final do ano passado.

No entanto, apenas o mais severo dos juízes diria que a Espanha está insolvente. As suas finanças públicas não estão piores do que as de muitos outros países ricos, e os bancos grandes conseguem lidar com a venda de obrigações do Tesouro, modesta até agora. O Santander, por exemplo, detém e27 mil milhões de títulos da dívida pública espanhola e portuguesa, contra um rácio Tier 1 de ¤58 mil milhões e um resultado antes de impostos e de dívidas incobráveis de €22 mil milhões em 2009, o que é um problema a uma escala diferente da de 2008, ano em que os incobráveis eram múltiplos do capital de muitos bancos e os ganhos tinham desmoronado.

Consegue o sector privado derrubar os bancos espanhóis sob a forma de exposições manhosas ao mercado imobiliário? O banco central diz que os empréstimos a promotores imobiliários e empresas de construção registavam €445 mil milhões no final de 2009 (dos quais €166 mil milhões são considerados suspeitos). Contra este valor, os bancos tinham ¤42 mil milhões de reservas específicas e ainda €16 mil milhões de reservas gerais, sugerindo que podiam absorver uma taxa de perda de 13%. Por comparação, os 'testes de esforço' da Administração americana, levados a cabo há um ano, assumiram uma perda de 9% a 12% em empréstimos imobiliários. Além destas reservas, os bancos espanhóis tinham ¤226 mil milhões de capital próprio e ¤57 mil milhões de resultado antes de impostos e de dívidas incobráveis em 2009. Nem os activos manhosos nem os amortecedores de perdas estão distribuídos uniformemente. As caixas de aforro espanholas não cotadas, as cajas, estão normalmente em muito pior estado do que os grandes bancos cotados. De todos os modos, como sistema, Espanha tem de facto uma grande almofada para amortecer as perdas.

Os incumprimentos soberanos na Grécia ou em Portugal não fariam desmoronar por si só os bancos europeus, mas uma crise em Espanha, sim, embora as provas de que o seu Governo e o sistema bancário estejam falidos sejam fracas. No entanto, a lição da crise de 2008-09 é que para sobreviver, os bancos devem mostrar não só a sua solvência, tendo em conta os resultados correntes, mas também que se podem autofinanciar no caso de os mercados financiadores falharem. Cumprir este segundo teste pode ser mais difícil. Excepto para os bancos geograficamente mais diversificados, a taxa da dívida pública soberana do seu país de origem põe um chão sob os seus próprios custos de financiamento. Se essas taxas sobem, os bancos enfrentam um estreitamento dos lucros. Na pior hipótese, não conseguem obter quaisquer fundos a um preço razoável.

Tanto os bancos espanhóis como os portugueses emprestam mais do que recolhem em depósitos, criando um intervalo que os mercados de capitais preenchem. Os bancos cotados fazem um grande esforço para pôr em destaque que o perfil de vencimento destas dívidas é sensato com, por exemplo, apenas cerca de 5% do total a necessitar de ser refinanciado todos os semestres para o sistema bancário espanhol. Os dois maiores bancos espanhóis, o Santander e o BBVA, cobriram sensivelmente as suas necessidades de refinanciamento para 2010. Os bancos portugueses estão também normalmente cobertos, se também se incluir os activos sem ónus (como os títulos do Tesouro) que podem usar para procurar financiamento dos bancos centrais. A médio prazo, os bancos ibéricos esperam que as taxas de juro subam, o que lhes permitirá recolher mais depósitos.

O risco agora é menos relativo ao vencimento da dívida a médio e longo prazo, e mais que as outras contrapartes como os depositantes e os mutuantes nos mercados interbancários percam a confiança e comecem a retirar-se. Já há sinais de bancos do exterior a discriminar entre diferentes governos da zona euro: o último relatório anual do Banco da China referia concretamente problemas registados no sul da Europa. Mesmo que o perfil geral de financiamento de um país seja tolerável, os depósitos podem começar a fluir dos bancos pequenos para bancos maiores e mais seguros que podem pagar taxas de juro mais elevadas. Esta situação já está a ocorrer em Espanha e colocará grande pressão sobre as caixas de aforro, que correspondem a cerca de metade do sistema bancário. Os políticos espanhóis acordaram no dia 5 de Maio acelerar as fusões entre cajas instáveis.

O que é então necessário para evitar que os tremores se transformem numa crise? Um conjunto de ferramentas é já muito familiar: uma resolução governamental rápida de bancos mais pequenos e instáveis, e acesso a liquidez a todos os bancos, tanto através de normas mais brandas no Banco Central Europeu (protegendo os bancos contra reduções adicionais do seu colateral) e planos de garantia de dívida maiores e mais longos dos governos para ajudar os bancos a refinanciarem as dívidas. Mas se os próprios governos são considerados manhosos, a única solução pode ser reassegurar os credores de que existe um batente sob a forma de auxílio europeu ou do FMI para outros países em apuros.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Alice Stilwell para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com