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Estado vegetativo

Diálogo Pode ser possível conversar com pessoas já consideradas próximas da morte cerebral

Exclusivo Expresso/The Economist

Doentes em estado vegetativo são, por definição, pessoas incapazes de reagir a estímulos com qualquer espécie de comportamento notório. No entanto, recentemente, um grupo de investigadores britânicos e belgas demonstrou que alguns deles reagem a ordens simples, alterando a atividade cerebral durante a sua submissão a ressonâncias magnéticas. No encontro anual da Organização para o Mapeamento Cerebral Humano, que se realizou em Barcelona no dia 7 de Junho, a metade britânica do grupo descreveu como foi dado um passo importante no sentido de ajudar esses pacientes a comunicar.

Ao longo dos últimos quatro anos, as equipas lideradas por Adrian Owen, na Unidade de Ciências Cognitivas e Cerebrais do Conselho de Investigação Médica, em Cambridge, e por Steven Laureys, do Grupo Científico do Coma da Universidade de Liège, submeteram a ressonâncias magnéticas 23 doentes em estado vegetativo, quatro dos quais conseguiram responder a perguntas de sim e não correta e consistentemente, seguindo as instruções para se imaginarem a jogar ténis quando queriam dar uma resposta, ou a andar em volta da casa quando queriam dar a outra.

Estes estudos levaram Owen a concluir que uma minoria de pacientes em estado vegetativo pode estar mais consciente do que parece. Considerando que reagem, não estão tecnicamente em estado vegetativo, embora as técnicas atuais de diagnóstico - que exigem que os pacientes reajam fisicamente às instruções, por exemplo piscando os olhos - não sejam suficientemente sensíveis para detetar isso.

Se são recetivos conseguem comunicar, sendo o problema facilitar a comunicação, dado que não é prático colocá-los num equipamento de ressonância magnética sempre que alguém lhes quer fazer uma pergunta. Damian Cruse, do grupo de Cambridge, pensa ter encontrado uma solução na eletroencefalografia (EEG) - uma forma mais barata e mais portátil de medir a atividade cerebral através de elétrodos colados ao couro cabeludo do paciente.

Cruse e os seus colegas começaram por pedir a seis voluntários saudáveis que se imaginassem a apertar a mão direita ou a agitar rapidamente os dedos dos pés quando lhes fosse apresentado um tom audível, tendo concluído que as reações dos cérebros dos seus voluntários aos dois comandos eram claramente diferentes. O aperto de mão imaginado provocou uma reação no lado esquerdo do cérebro, enquanto a agitação dos dedos dos pés produziu uma reação no centro do cérebro.

Depois aplicaram o mesmo procedimento a um paciente com a síndrome do encarceramento - consciente mas quase totalmente paralisado - que retém algum controlo dos movimentos oculares. As reações cerebrais foram iguais às registadas nos controlos saudáveis. Por fim, deram as instruções a um paciente que tinha sido diagnosticado dois anos antes como estando em estado vegetativo, tendo concluído que, apenas a partir dos sinais do EEG, podiam deduzir com 100% de precisão qual o movimento que tinha sido indicado ao paciente para imaginar.

Este resultado, embora preliminar, sugere que possa ser possível estabelecer uma espécie de diálogo com pessoas que anteriormente se consideravam quase em morte cerebral. Tal feito seria extraordinário. Dado que a prisão em solitária é dos castigos mais duros conhecidos, e que as pessoas em estado vegetativo estão condenadas à pior espécie de reclusão imaginável, seria maravilhoso.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Alice Stilwell para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com