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Assustando os executivos

Ofensiva chinesa O medo das aquisições por sociedades estrangeiras poderá induzir mudança nas empresas nipónicas.

Exclusivo Expresso/The Economist

Em todo o Japão, há gestores atónitos perante a compra, no mês passado, de uma fábrica da Ogihara, o maior fabricante japonês de moldes metálicos, pela BYD, fabricante chinês de automóveis que apregoa ter Warren Buffett entre os seus accionistas. O facto de a empresa japonesa ter tentado manter o silêncio sobre a transacção - não emitindo qualquer comunicado de imprensa e recusando todos os pedidos de entrevistas - indica até que ponto o assunto é delicado.

O Japão tem uma longa tradição de resistência aos estrangeiros que tentam entrar no país pela via das aquisições. Mas pelo menos as disputas mais recentes têm sido com empresas dos Estados Unidos, um aliado político. Transacções que envolvam empresas chinesas são uma questão mais melindrosa por causa das relações tensas entre os dois países. Esse facto tem contribuído para o reduzido número de fusões e aquisições sino-japonesas, apesar de, em 2007, a China ter ultrapassado os Estados Unidos como primeiro parceiro comercial do Japão.

No entanto, agora, o volume de transacções está a aumentar. O número de aquisições de empresas japonesas por empresas chinesas quase duplicou, no ano passado, e o respectivo valor quase quadruplicou, ainda que a partir de bases bastante baixas (ver gráfico). Em geral, os negócios envolvem pequenas empresas de áreas tecnológicas específicas, que vendem uma participação ou uma filial e não a empresa em si, normalmente por poucos milhões de dólares.

As empresas chinesas não estão interessadas no mercado interno japonês, em estagnação e caracterizado por uma população em declínio e um excesso de produção crónico. Querem comprar tecnologias, competências e marcas que possam ser levadas para a China ou utilizadas noutros países, diz Heang Chhor, director da filial da empresa de consultoria McKinsey, em Tóquio. Em troca, a empresa japonesa pode obter não apenas capital e novas ideias em matéria de gestão mas também um melhor acesso ao efervescente mercado chinês.

Foi o caso da Laox, um retalhista de artigos electrónicos em decadência, no qual um concessionário chinês e a Suning, um grande retalhista chinês de electrodomésticos, adquiriram recentemente uma participação de 51%. Os novos proprietários remodelaram os armazéns japoneses da empresa para atendimento aos muitos turistas chineses que vão às compras a Tóquio e tencionam abrir 110 armazéns de desconto (outlets) da Laox na China, nos próximos três anos. Esperam que, nessa altura, as vendas na China ultrapassem as vendas no Japão.

Significativamente, os proprietários chineses querem aprender com a Laox. Querem melhorar as relações com os fornecedores e introduzir na China os conhecidos padrões elevados de serviço japoneses, afirma Luo Yiwen, o novo patrão da Laox, um cidadão chinês que vive no Japão há duas décadas. Antes da aquisição, a cotação das acções da Laox tinha caído para 10 ienes (0,08 euros); agora, as acções são vendidas por cerca de 110 ienes.

Trabalhar para os chineses deixa muitos japoneses incomodados (um pouco como os americanos, que não gostavam de trabalhar para os fabricantes de automóveis japoneses, nos anos 1980). Quando, em Março, a Honma, um fabricante de tacos de golfe topo de gama, foi comprada pela Marlion Holdings, da China, o pessoal ficou "muito chocado", admite um empregado. Mas a empresa, cujos tacos são feitos à mão e numerados um a um, abrira recentemente falência. "Por isso, estamos contentes por termos emprego", acrescenta. Prevê-se que as vendas da Honma disparem, quando o novo proprietário aliciar os golfistas novos-ricos chineses com os seus tacos de luxo. No entanto, o referido empregado japonês pensa que recrutar novos trabalhadores para a fábrica da empresa, em Sakata, poderá ser problemático: as pessoas preferem trabalhar para empresas de capital exclusivamente japonês.

Em alguns casos, as diferenças de cultura empresarial tornam as relações de trabalho instáveis. Em 2003, empresas da China e de Taiwan, aliadas a um sócio japonês, pagaram 1,2 mil milhões de ienes por uma empresa em dificuldades, que produzia filtros de cor para ecrãs LCD. Mas a nova empresa, a Japan Optical Display Technology, fechou as portas ao fim de quatro anos, por causa dos conflitos. Os proprietários chineses não queriam pagar os custos do cumprimento das normas ambientais. Além disso, toleravam defeitos de produção que o sócio japonês não estava disposto a ignorar, explica o antigo patrão, Osamu Mizoguchi. "As filosofias em matéria de qualidade eram demasiado diferentes"acrescenta.

Apesar das dificuldades, os investidores prevêem que este tipo de transacções continuará a proliferar. A esperada valorização do yuan chinês impulsionará os negócios com o estrangeiro, tornando-os relativamente mais baratos (tal como aconteceu com o iene mais forte, durante os dias de glória do Japão, nos anos 1980). O medo de serem compradas poderá, entretanto, galvanizar as empresas japonesas. Os empresários japoneses estão habituados ao conceito de gaiatsu, ou "pressão estrangeira" no sentido da mudança. Mas, nos tempos que correm, a pressão vem tanto das empresas chinesas como das empresas ocidentais, em relação às quais a frase tem sido mais geralmente utilizada.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Fábrica do Texto para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com