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Facebook e Google Reacção dos utilizadores e dos reguladores quanto à forma como se tem lidado com dados sensíveis

Exclusivo Expresso/The Economist

Jennifer Stoddart, a comissária do Canadá para a privacidade, está furiosa com o Facebook. Em Agosto de 2009, a rede social fez um acordo para alterar, no prazo de um ano, as suas políticas de forma a cumprir a lei da privacidade do país. Mas agora, diz Stoddart, a empresa parece estar a voltar atrás com uma parte importante desse acordo, que implicava proporcionar aos utilizadores uma opção clara e de fácil aplicação relativamente à partilha de dados privados com terceiros. "Não me parece que o Facebook esteja a ir na direcção certa quanto a esta questão", comenta, deixando transparecer que, sem alteração do rumo, a empresa poderá em breve ser vítima de outra investigação formal por parte da sua organização.

O Facebook não é o único gigante da Internet a provocar a ira de quem vigia este tipo de dados. A Google sofreu críticas demolidoras nos últimos dias após notícia de que tinha gravado algumas comunicações pessoais, em redes de dados Wi-Fi não seguras, de habitações e escritórios em cerca de 30 países. No dia 17 de Maio, Peter Schaar, o comissário federal da Alemanha para a protecção dos dados, exigiu uma investigação independente ao comportamento da Google, com o argumento de que esta tinha "simplesmente desobedecido às normas correntes para o desenvolvimento e utilização de software".

Os casos põem em destaque a tensão crescente entre os guardiães da privacidade e as empresas de Internet e reflectem a preocupação dos utilizadores da Web relativamente à forma como os dados privados são tornados públicos. Diversas personalidades proeminentes da Internet, como Cory Doctorow, autor de ficção científica, e Leo Laporte, podcaster, abandonaram o Facebook. E sites como o QuitFacebookDay.com estão a instigar outros a fazê-lo também, designando o dia 31 de Maio para um "suicídio" em massa no Facebook.

Não é provável que tal atitude interrompa a ascensão meteórica do Facebook, que reclama 500 milhões de membros e que atrai ainda mais visitantes como um todo ao seu site. Mas os nervos estão em franja na sede da empresa em Silicon Valley, onde os chefes ponderam como reagir. Diversos quadros superiores sugerem agora que o Facebook irá em breve disponibilizar controlos de privacidade mais simples para tornar mais fácil manter mais dados escondidos. O MySpace, um rival, já está a simplificar os controlos, num esforço para atrair os utilizadores do Facebook não fidelizados.

Já há algum tempo que está na forja uma revolução devido à forma como o Facebook lida com a privacidade. Em Dezembro, a rede social alterou a predefinição dos seus controlos de privacidade por forma a que a informação pessoal individual fosse partilhada com "toda a gente" e não apenas com amigos seleccionados. O Facebook argumentava que esta alteração reflectia uma mudança na sociedade para uma maior abertura e fazia notar que os utilizadores podiam ainda reajustar as predefinições da privacidade. Mas, irritados, activistas da privacidade fizeram lobbying para reverter a decisão.

A mudança não deveria constituir uma surpresa. Desde o início que muitas redes sociais impõem políticas de privacidade bastante severas, de forma a atrair e a tranquilizar os utilizadores. Mas, à medida que mais se vão registando, as opções vão sendo aligeiradas para encorajar maior partilha. À medida que as pessoas partilham mais, o Facebook pode aumentar o tráfego com base no qual vende a publicidade; e, quanto mais aprende sobre o que gostam e não gostam os utilizadores, melhor pode direccionar a publicidade, que gera centenas de milhões de dólares.

Os protestos aumentaram ainda mais de tom em consequência de uma conferência de criadores de aplicações em que Mark Zuckerberg, o patrão do Facebook, anunciou mais uma série de mudanças de política. Uma das que provocaram irritação foi uma função de "personalização instantânea" que permite a determinados websites terceiros acederem aos dados do Facebook quando as pessoas os visitam. Os críticos comentam que o Facebook tornou a desactivação desta função complicada, o que pode explicar por que Stoddart lhe tem tanta aversão.

Os altos funcionários europeus também têm resmungado bastante em relação ao Facebook. Um grupo de especialistas em protecção de dados, consultores da Comissão Europeia, escreveu este mês para a rede social considerando "inaceitável" a decisão de facilitar nas funções predefinidas. E, nos Estados Unidos, o Electronic Privacy Information Centre, um grupo sem fins lucrativos, pediu à Comissão Federal do Comércio americana que verificasse se a abordagem do Facebook à privacidade viola as leis de protecção do consumidor.

As entidades de protecção da privacidade estão também a verificar se a Google violou alguma lei ao interceptar dados Wi-Fi sem autorização. A empresa de busca afirma que um projecto experimental de software, destinado a recolher dados de redes de Wi-Fi não codificadas, foi acidentalmente disponibilizado com a sua iniciativa Street View, que utiliza câmaras montadas em automóveis para filmar ruas e edifícios. Em consequência, foram interceptados e armazenados durante anos fragmentos de dados privados sensíveis, sem o conhecimento dos líderes da Street View.

A Google desculpou-se e sublinhou que a amostragem não autorizada recolheu apenas dados suficientes para encher o disco duro de um só computador, acrescentando que a informação não foi utilizada em quaisquer produtos nem partilhada fora da Google. Disse ainda que iria nomear uma entidade independente para analisar o que aconteceu, em complemento a uma revisão interna das suas práticas de privacidade. "Errámos", admitiu Sergey Brin, co-fundador da Google, no dia 19 de Maio.

No entanto, a reputação da Google saiu danificada. O episódio demonstra que é necessário controlar melhor o que o seu pessoal anda a fazer. Os desmentidos iniciais de que tinha recolhido dados sensíveis, invertidos quando o observador oficial da privacidade na Alemanha exigiu uma análise mais pormenorizada, também soam a gaffe das relações públicas. E foram levantadas dúvidas quanto à qualidade de alguns directores. Um porta-voz da empresa culpa "uma falha de comunicação entre equipas e dentro das equipas", o que constitui uma admissão preocupante, dadas as grandes quantidades de dados sensíveis nos cofres digitais da Google.

Já tinha sofrido este ano durante o lançamento de Buzz, o seu próprio serviço de rede social. Os utilizadores queixaram-se de que o gigante de busca tinha entrado nas suas contas de Gmail para encontrar "seguidores" sem explicar com clareza o que estava a acontecer - uma prática que a empresa rapidamente descartou. No mês passado, dez comissões para a protecção de dados de países como o Reino Unido, o Canadá e a França instigaram a empresa para que não menosprezasse a privacidade na ânsia de lançar nova tecnologia.

Na conferência europeia Google Zeitgeist, que teve lugar recentemente, Eric Schmidt declarou que a empresa tem a política de privacidade mais centrada no consumidor de qualquer serviço online. O administrador-delegado da Google acrescentou que o desfecho do caso do Wi-Fi não causou danos. Outros poderão chegar a uma conclusão semelhante. Mas as contendas sobre questões de privacidade persistirão. "Ninguém tem bem a certeza onde traçar o limite nas questões de privacidade online", comenta Jonathan Zittrain, professor da Faculdade de Direito de Harvard. As comissões para a protecção de dados ainda estarão ocupadas durante uns tempos.