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"Na Zona Euro há europeus de segunda classe"

O Eurogrupo quer destruir deliberadamente a economia cipriota, diz Petia Tanova, diretora do Departamento de Economia, Finanças e Contabilidade da Frederick  University, de Chipre.

"Há um objetivo claro de uma destruição deliberada do sector competitivo chave da economia cipriota", a pretexto de que é uma "economia de casino" e um local de "lavagem de dinheiro sujo" russo, afirma a economista e professora Petia Tanova, diretora do Departamento de Economia, Finanças e Contabilidade da Frederick  University, um universidade privada de Chipre. Uma avaliação do impacto do pacote da troika aponta para uma recessão de 20% até 2017. O controlo de capitais está em vigor num membro do espaço da moeda única e os cipriotas não podem levantar mais de 120 euros diário nos multibancos do Banco de Chipre e do Laiki.

Petia brinca com o ministro francês Moscovici que clamou ontem que a economia de casino cipriota estava falida: "Os casinos foram abolidos em Chipre, ainda há muitos na parte ocupada pelos turcos. Mas o senhor Moscovici está a dar-nos uma ideia. Talvez abrir casinos possa compensar o emagrecimento do sector financeiro. Especializar no jogo talvez seja uma alternativa e esperemos que o ministro francês venha cá jogar".

Apesar do presidente do Eurogrupo. Jeroen Dijsselbloem ter avisado Luxemburgo e Malta para mudarem antes de se verem em sarilhos, Petia Tanova acha que o próximo paciente onde o "modelo de resgate cipriota" vai ser aplicado é a Eslovénia, apesar de ali o sector bancário ser muito mais pequeno e a necessidade de recapitalização deverá limitar-se a mil milhões de euros. Outro caso que poderá estar na linha de mira é a Estónia que entra para a zona euro em janeiro de 2014 e que é outra das plataformas financeiras de capitais russos. Neste país báltico, os depósitos de não residente totalizam 60% do total, quase o dobro do que ocorria em Chipre no início deste ano.

Porque razão Chipre pediu um resgate a Bruxelas em junho do ano passado?

Sobretudo devido aos desequilíbrios financeiros. A que se juntou uma situação política particular com o governo a perder apoio popular desde meados de 2011 devido à destruição da central elétrica e Zygi na sequência de uma explosão perto da base naval e eleições presidenciais dentro de oito meses. Nessas circunstâncias, nenhum governo se lançaria em reformas radicais.

Que tipo de reformas teriam sido necessárias já no ano passado?

Sem dúvida reduzir o enorme sector público, cancelar alguns dos benefícios injustificáveis dos funcionários públicos, proceder ao aumento de impostos às empresas, e lançar a privatização das posições do estado em empresas públicas e semi-públicas. No sector do funcionalismo público, o governo defendia uma abordagem passo a passo. Quanto às privatizações, se as tivessem feito na altura, teriam gerado alguns milhares de milhões. Agora, vão vender ao desbarato. O argumento, na altura, era que as empresas a privatizar, no sector das telecomunicações e na energia, eram altamente lucrativas.

O processo de negociação com Bruxelas arrastou-se ao longo de nove meses por eleitoralismo da parte do anterior governo comunista?

O governo estava relutante, de facto, por causa das eleições presidenciais no horizonte. Só algumas medidas foram para a frente. Aliás, algumas medidas começaram a ser introduzidas desde 2011, deve recordar-se. A taxa normal do IVA subiu de 15% para 17% e depois para 18%, ainda que deixando intactas as taxas de 5% e 10% e mesmo alguns produtos isentos. O IRS para os contribuintes com mais de 60 mil euros por ano subiu de 30% para 35%. Na realidade, o governo anterior realizou algumas alterações, dentro da filosofia de deslocar o fardo da crise das famílias mais necessitadas para as mais ricas. No próprio sector público, congelaram os salários.

Os bancos estavam numa situação de pré-bancarrota?

Sim, sem dúvida. Aliás, ninguém contesta isso. O problema derivou de duas situações - o crédito mal parado a famílias e empresas e a exposição à dívida grega. Mas a razão principal foi a exposição à Grécia. A reestruturação bancária poderia ser menos dolorosa se não tivesse havido essa corrida a ter dívida grega nos portfólios dos maiores bancos, sobretudo os dois maiores, o Banco de Chipre e o Laiki (Banco Popular), de que tanto se fala agora. Mas alguns bancos não entraram nessa exposição à Grécia. Nem todos caíram nessa tentação.

Porquê a tentação?

Com a crise grega, as yields das obrigações gregas dispararam e a ganância dos bancos cipriotas foi enorme, adquirindo essa dívida de risco. O Bank of Cyprus e o banco Laiki investiram 5 mil milhões de euros nessa altura! Um fator adicional foi o apelo do governo de então a que Chipre "ajudasse a mãe Grécia". Uns meses depois, em 2012, ocorreu a reestruturação de dívida grega na mão dos privados - algo que Bruxelas dizia que nunca aconteceria, como toda a gente se lembra - e o corte-de-cabelo (hair cut) nos credores da dívida foi duro. O resultado foram perdas para estes bancos cipriotas de 4 mil milhões de euros. O banco Laiki ficou literalmente em bancarrota e foi necessário o recurso à linha de emergência de assistência de liquidez (conhecida pela sigla ELA) fornecida pelo banco central local com consentimento do Banco Central Europeu.

Um dos argumentos que foi avançado para os moldes do resgate imposto pelo Eurogrupo foi sintetizado pela chanceler alemã Merkel quando disse que o "modelo de negócio" estava morto, o que foi completado ontem pelo ministro das Finanças francês Moscovici dizendo que Chipre era uma "economia de casino" em bancarrota...

Aparentemente a chanceler quer destruir o sector financeiro cipriota. A razão é a alegada lavagem de dinheiro sujo dos oligarcas russos sendo o Chipre o terceiro investidor na Rússia, bem como o facto do sector financeiro ser 8 vezes o PIB, o que estaria muito acima da média europeia, que ronda as 3 vezes. Mas então o que acontece ao Luxemburgo que tem um rácio de 20 vezes e é o primeiro investidor na Rússia?  Os cidadãos de Chipre são europeus de segunda? Inclusive qual é a evidência da lavagem de dinheiro? Segundo a OCDE, Chipre está em 7º lugar entre os 17 membros da zona euro em cumprimento de regras contra lavagem de dinheiro. A Alemanha está em 16º! Que arrogância. É claro que deve haver casos de lavagem de dinheiro, mas isso é um problema jurídico, não de risco sistémico. Há um objetivo claro de uma destruição deliberada do sector competitivo chave da economia cipriota. Quanto ao senhor Moscovici, devo recordar-lhe que os casinos foram abolidos em Chipre, mas ainda há muitos na parte ocupada pelos turcos. Mas o senhor Moscovici está a dar-nos uma ideia. Talvez abrir casinos possa compensar o emagrecimento do sector financeiro. Especializar no jogo talvez seja uma alternativa e esperemos que o ministro francês venha cá jogar.

Chipre teria tido outra opção para desenvolver outro "modelo de negócio"?

Não. Um dos resultados da invasão turca foi que as indústrias transformadoras e extrativas ficaram nas zonas ocupadas. Inclusive as melhores estâncias de turismo ficam no lado ocupado. Chipre, depois da invasão turca em 1974, teve de recomeçar das cinzas. Conseguiu atrair capital do Médio Oriente, sobretudo do Líbano, em virtude da turbulência política naquela região. Desenvolvemos qualificações elevadas no sector financeiro. A pujança do sector financeiro arrastou outros sectores da economia, como a construção, o imobliário e o turismo. Depois, foi a autorização de estabelecimento de empresas internacionais em offshore, o que atraiu capitais russos depois da implosão da URSS, mas não só. A faturação triangular tornou-se uma especialidade, tal como em outros centros financeiros.

Como funciona a faturação triangular?

Um exemplo, russo. Uma multinacional russa tem várias empresas subsidiárias. A sucursal A extrai petróleo na Sibéria e exporta-o para a firma B em Amsterdão, na Holanda. O serviço de contabilidade é operado por uma firma C em Chipre, onde na faturação se coloca um valor acrescentado elevado. O lucro é gerado em Chipre, onde se aplica um IRC de apenas 10% (mais baixo, por ora, do que o da Irlanda). Grande parte do lucro é transferido para a Rússia, o que conta como investimento direto cipriota no estrangeiro. É assim que aparece Chipre como terceiro investidor estrangeiro na Rússia. O primeiro como já referi é o Luxemburgo, com um esquema não muito diferente.

A decisão do Eurogrupo arrisca-se a ter um impacto devastador na economia cipriota?

Sim. O sector financeiro é a nossa vantagem competitiva, como já referi. Representa 9,2% do PIB. Chipre exporta serviços financeiros. No conjunto, o sector de serviços financeiros, a construção e o imobiliário e o comércio por grosso e a retalho perfazem mais de 50% do seu PIB. O impacto até 2017 é calculado numa recessão de 20%. De imediato, a economia vai ter de funcionar, no mínimo, com menos 30% de massa monetária que está congelada e em risco de nunca ser recuperada, calcula o meu colega John Violaris. O que vai acontecer é que esse dinheiro vai voar para outros centros financeiros como a Suíça, o Reino Unido e outros. O que era "sujo" aqui, deixa de ser noutros lados de primeira classe. O problema é que Chipre foi apanhado no meio de um fogo cruzado entre grandes potências.

O Chipre não tem recursos energéticos - o famoso gás natural - e um bom posicionamento estratégico no Mediterrâneo que lhe permita manobrar geopoliticamente?

Sobre os recursos energéticos, há que ter em conta que a Turquia exige ter uma palavra a dizer. O anterior presidente tinha anunciado que uma parte das receitas do gás também beneficiaria os cipriotas turcos. Quanto aos britânicos que têm duas bases militares na parte da República cipriota deveriam pagar uma renda pelo uso das bases militares mas nunca o fizeram. Inclusive, aquando dos acontecimentos de 1974, os primeiros bombardeamentos sobre aldeias cipriotas foram feitos pelos britânicos e não pelos turcos.

Os russos discutiram inclusive, agora, o assunto de Chipre com os britânicos...

Recorde-se que o ministro das Finanças cipriota esteve em Moscovo mas não tinha grande coisa para negociar. Ele estava impreparado. Vladimir Putin nunca se encontraria com um ministro para um assunto de alto nível; teria de ser o presidente cipriota. E não se poderia limitar a uma oferta para uma companhia de pesquisa de gás, pois a Turquia - que ocupa parte da ilha - tem objeções e o problema tornar-se-ia geopolítico. Putin teve, depois, uma conversa com o primeiro-ministro britânico David Cameron, em que Chipre esteve na agenda. O Conselho de Segurança Nacional russo teve também uma reunião em que Chipre foi o tema.

A Turquia poderá tirar proveito desta situação de crise?

Temo que a Turquia poderá ganhar bastante, inclusive o reconhecimento da ocupação do território cipriota como um estado independente. A situação está muito complexa. Não me lembro de nenhuma altura em que os interesses estratégicos da Alemanha na região tenham diferido dos interesses turcos. A agravar, ainda, o facto do presidente Obama ter ido a Israel lançar pontes entre o estado hebreu e a Turquia. Chipre é uma pequena peça neste jogo.

A seguir a Chipre quem poderá estar na calha para aplicação do novo "modelo de resgate cipriota" como lhe chamou hoje o presidente do Eurogrupo?

Temo pela Eslovénia, que é o próximo membro da zona euro a pedir "assistência".