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Crise de Chipre trouxe "risco extra" para dívida portuguesa

Os juros da dívida portuguesa a dez anos subiram em uma semana de 6,02% para 6,37% no mercado secundário. Esta subida dificulta o regresso ao mercado obrigacionista.

A crise cipriota provocou um "risco extra" como referiu a agência de notação Moody's ao manter esta semana em perspetiva negativa a dívida de Portugal e da Irlanda. A agência não mexeu, também, no rating dos dois países em níveis de dívida especulativa (Ba1 para a Irlanda e Ba3 para Portugal, apenas um nível acima da classificação de altamente especulativa).

Para alguns analistas este "risco extra" começou a anular, em parte, o efeito do anunciado programa do Banco Central Europeu de intervenção no mercado secundário conhecido pela sigla OMT. Um programa comunicado no verão do ano passado e que provocou uma trajetória de descida das yields dos títulos soberanos dos "periféricos".

O "risco extra" verificou-se claramente na trajetória de subida ao longo da semana das yields das obrigações do Tesouro (OT) português a dez anos no mercado secundário, que subiram de 6,02%, a 22 de março (antes da reunião extraordinária do Eurogrupo de domingo), para 6,37% no fecho de quarta-feira (27 de março), tendo chegado ontem (28 de março) a um máximo intradiário de 6,45%.

As yields das OT mantendo a trajetória de subida acima de 6% distanciam-se do mínimo do ano em 5,82% no dia 23 de janeiro, dia do chamado regresso aos mercados obrigacionistas pelo IGCP, a agência de gestão da dívida.

O mesmo comportamento observou-se na probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa num horizonte a cinco anos, baseado na evolução do custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de bancarrota). Este risco subiu de 29,84% a 22 de março para 31,30% a 28 de março, segundo dados da CMA DataVision. No dia do regresso aos mercados obrigacionistas, o risco tinha descido para 28,5%.

Depois da aprovação definitiva dos princípios e principais medidas do plano de resgate a Chipre, a banca local entrou em fase de reestruturação, o "corralito" (fecho dos balcões) terminou  ao fim de quase duas semanas, mas entraram, de imediato em vigor, medidas de controlo de capitais para já por uma semana, apesar de haver já declarações oficiais de que o processo de "gradual" desativação de tais medidas poderá durar um mês. Na realidade, estes processos de controlo de capitais sabem-se, sempre, quando começam, mas nunca quando e como acabam.

As novidades do Eurogrupo

A decisão do Eurogrupo sobre Chipre trouxe duas novidades que provocaram um choque nos mercados financeiros, visível no impacto muito negativo nas bolsas europeias, em particular nas dos países "periféricos", com destaque para os índices bolsistas grego, italiano e espanhol e nomeadamente para o sector financeiro. As duas novidades foram o novo "template" para resolução de crises bancárias (envolvendo um confisco a depositantes acima de 100 mil euros) e o estabelecimento de controlo de capitais tornando o euro em circulação no país resgatado numa divisa de segunda classe.

O "risco extra" a que se refere a Moody's abrangeu também os outros "periféricos", com destaque para a Grécia (cujas yields das obrigações a 10 anos subiram de 11,88% para 12,44% no período de 22 a 28 de março), para Espanha (com as yields das OE a subirem de 4,86% para 5,06%, naquele período), para Itália (com as yields dos BTP a subirem de 4,52% para 4,76%) e para a Irlanda (com uma subida mais pequena das yields dos títulos irlandeses de 4,16% para 4,24%.

Em contraste, as yields dos títulos alemães (designados por Bunds) a dez anos desceram de 1,37% para 1,29% naquele período, com um mínimo do ano em 1,27% no dia 27 de março. O Tesouro alemão continua a beneficiar das crises de dívida ou bancárias nos "periféricos".

Com o governo cipriota e a troika concentrados na negociação de um Memorando de Entendimento até meados ou final de abril, o nervosismo dos mercados de dívida vai transferir-se para o acompanhamento do impasse político em Itália (que continua sem governo formado), para a pré-crise política em Portugal e para a probabilidade da Eslovénia (outro membro da zona euro) ter de solicitar um plano de resgate. As yields das obrigações eslovenas em dólares subiram de 4,88% em 15 de março para 6,79% em 27 de março e fecharam ontem em 6,06%.

A atenção dos investidores centrar-se-á também na reunião do conselho de governadores do Banco Central Europeu na próxima semana (4 de abril), a primeira depois da decisão do Eurogrupo sobre Chipre.

Um dossiê sobre a crise cipriota poderá ser lido no caderno de Economia da edição de hoje.

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