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Chipre vai estar no centro do conflito entre Europa e Rússia

O governo cipriota não tinha outra alternativa senão aceitar o resgate, mas a sua posição na geografia do gás natural vai torná-lo alvo de uma disputa entre potências, diz Harry Tzimitras, da PRIO em Nicósia.

A crise bancária cipriota veio trazer Chipre para a ribalta de um conflito geopolítico mais vasto no Mediterrâneo Oriental, afirma Harry Tzimitras, diretor do centro cipriota do Peace Research Institute Oslo (PRIO). Até certo ponto, Chipre tornou-se uma região de embate entre Bruxelas e Moscovo, ainda que a Rússia tenha declinado, por ora, não colocar em perigo as suas relações com a Alemanha, apesar da primeira reacção do primeiro-ministro russo Dmitri Medvédev ao pacote aprovado na reunião do Eurogrupo desta madrugada ter sido violenta considerando que a troika estava a "roubar o roubado".

Recorde-se que Moscovo, na semana passada, resolveu não aceitar as propostas do ministro das Finanças cipriota em relação a uma alternativa de resgate a Nicósia, não deixando ao governo do presidente cipriota Nicos Anastasiades outra alternativa senão negociar com a troika, no quadro por ela imposto. "Rússia, a outra única alternativa, mostrou-se relutante em resgatar Chipre por uma série de razões políticas e económicas. O que deixou o governo de Nicósia sem alternativas realistas. O acordo de resgate com o Eurogrupo, e o Memorando de Entendimento que se vai seguir até meados de abril, por mais duros que sejam, evitaram um perigo bem real de bancarrota imediata, deixando os cipriotas confrontados com aceitar o menor dos males", sublinha o professor de Direito Internacional e Relações Internacionais.

Uma bênção e um problema

As reservas de gás natural no sul da ilha surgem como um área económica que poderá trazer a Nicósia uma renda externa interessante, que equilibre a reestruturação do papel de plataforma financeira offshore que Chipre tem tido, e permita a retoma económica, depois um impacto recessivo de 20% até 2017, em virtude das medidas que o resgate de Bruxelas implica.

Algumas estimativas apontam para que as reservas de gás offshore na zona económica exclusiva possam representar 40% das necessidades de fornecimento de gás natural da União Europeia e a Factiva/Dow Jones avaliou o seu valor em 400 mil milhões de euros se a viabilidade comercial for comprovada. Na realidade, apenas um bloco, o Bloco 12, foi descoberto até à data e licenciado à Noble Energy, baseada em Houston. O Bloco 12 dispõe, apenas, de 13% das reservas estimadas naquela zona. Outras licenças foram concedidas à Total francesa e a uma joint venture entre a Eni italiana e Korea Gas. Ao todo seis blocos que poderão conter cerca de 70% das reservas da área. Estas reservas fazem fronteira com as águas territoriais de Israel onde foram descobertas duas reservas offshore, com o equivalente a 40% das estimativas para o total de reservas cipriotas. Também a Síria e Líbano descobriram reservas na mesma plataforma mediterrânica.

Para Tzimitras, Chipre é uma economia de serviços e, por isso, "terá sempre opções limitadas". "Uma reestruturação do sistema financeiro, bem como o repensar das premissas em que a economia se tem baseado, tornou-se urgente", diz, para sublinhar que "a outra via que está aberta é o gás natural, onde pode haver um raio de esperança no futuro a médio prazo". Mas avisa que "é matéria que tem de ser tratada com cuidado, ainda que rapidamente".  

A razão para o "cuidado" deriva dos múltiplos interesses que se chocam no campo energético naquela região. "As perspectivas para o petróleo e o gás natural no Mediterrâneo Oriental têm um claro potencial de tornar a região, de novo, numa plataforma de confronto entre o Leste e o Oeste na Europa, em paralelo com os desenvolvimentos no Médio Oriente", afirma o especialista. "Chipre como um país da região e com uma quota parte na exploração do gás natural, vai estar também no centro dos acontecimentos", acrescenta.

Solução equilibrada para evitar confronto

Harry Tzimitras é partidário da procura de uma solução equilibrada: "Um equilíbrio delicado é indispensável para assegurar a cooperação e não o confronto", conclui, para evitar tornar os países daquela região, incluindo as ilhas estratégicas, em zonas de confronto entre grandes potências.

No caso específico do Chipre, para além da reclamação da Turquia - que ocupa uma parte da ilha desde 1974 e que em 2011 enviou barcos de guerra para impedir as perfurações - em obter, também, proveitos daquelas reservas, estão os interesses russos - e em particular da Gazprom - e israelitas.  A Noble Energy pretende ainda este ano iniciar perfurações no Bloco 12, o que pode "aquecer" aquelas águas.

O Reino Unido dispõe de duas bases militares e a Rússia já manifestou interesse em poder dispor de facilidades portuárias para a sua marinha de guerra, como alternativa ao uso atual de um porto naval na Síria.