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BCE não abandona estímulos aos mercados

Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, disse que a atual política de taxas de juros nos seus níveis atuais (baixos) ou mesmo em níveis inferiores manter-se-á "por um período prolongado de tempo".

Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), explicitou, pela primeira vez, com toda a clareza, que a atual política de taxas de juros - de todas as taxas fundamentais - se manterá "nos níveis atuais ou inferior por um período de tempo prolongado". No caso da taxa de juro de referência está em 0,5% desde maio de 2013, nível que Draghi teve o cuidado de sublinhar não ser "um limite inferior", deixando no ar a possibilidade de a baixar.

Afirmou, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião mensal do conselho de governadores, que era a primeira vez que o BCE apontava esta indicação de política monetária para um período "prolongado", e que a decisão de o fazer, agora, foi unânime na reunião de hoje. Não especificou o que entende por "período prolongado", mas clarificou que não estava a falar de "seis ou doze meses".

A uma pergunta da Reuters, Draghi respondeu: "A saída [da nossa política monetária] está distante". "Não estamos a reagir a outras decisões de outros bancos centrais", disse, apesar de ser uma resposta clara de que o BCE não adotará a mudança de estratégia anunciada pela Reserva Federal norte-americana no mês passado por Ben Bernanke.

A decisão do BCE em manter a política de taxas de juro em níveis tão baixos deriva do acompanhamento de três variáveis - inflação, economia real, e agregados monetários. Nestes três aspetos há alguma incerteza. As fraquezas da economia real são conhecidas e o ritmo da retoma será modesto, afirmou. A inflação estará sujeita a alguma volatilidade.  O crédito às entidades não financeiras contraiu-se ainda mais em maio (queda de 2,1%) do que no mês anterior (1,9%). Houve, além do mais, recentemente um "aperto" nos fluxos financeiros globais e nas condições do mercado financeiro. Acresce a situação de algumas decisões críticas tomadas pelo Conselho Europeu, continuando o BCE a reclamar a rapidez da sua implementação.

"Todos nós concordamos que níveis de taxas de juro baixas têm riscos para a estabilidade financeira. Contudo, neste momento, não vemos esses riscos", rematou Mário Draghi, ao fechar a conferência de imprensa.

O presidente do BCE anunciou esta decisão de manter a política atual de taxas de juro baixas "por um período de tempo prolongado" no mesmo dia em que o Banco de Inglaterra (BoE), agora sob a chefia do novo governador Mark Carney, manteve a política de "alívio quantitativo" no Reino Unido. Alguns analistas ironizaram que, na Europa, o QE é um "QEternidade". As palavras do novo governador do BoE de que "eram infundadas" as expetativas dos agentes do mercado financeiro de que haverá uma subida das taxas de referência já em 2015 caíram com uma bomba. O BoE, também pela primeira vez, apontava claramente "orientações para o futuro". O BCE e o BoE claramente disseram que não têm qualquer intenção de se juntarem à Fed. O analista Marc Chandler, de Wall Street, comentou: "A fonte de dinheiro fácil está a mudar de sítio".

Outros analistas contestam a eficácia dessas políticas "acomodativas". O analista Uwe Bott, de Nova Iorque, sublinha que Draghi e a equipa do BCE continuam a encarar a crise em curso como "cíclica" e não estrutural e a não ver o risco de deflação na zona euro. "Ainda que as políticas monetárias sejam eficazes a resolver situações de crise cíclica, tornam-se ineficazes se as razões do declínio são profundamente estruturais e a deflação espreita", diz o analista, afirmando que o foco tem de ser colocado na política orçamental. Bott defende uma política orçamental expansionista.

OMT é para atacar riscos extremos e não se substitui a governos

O presidente do BCE voltou a sublinhar que o programa anunciado há quase um ano depois batizado em setembro de OMT não se destina a se "substituir à acção dos governos".  "O OMT é para responder a riscos extremos na zona euro", acentuou.

A uma pergunta específica sobre se Portugal poderia vir a recorrer a tal programa, Draghi recordou que "as condições são conhecidas" e que "fico-me por aqui". Como são conhecidas apenas condições muito gerais, Draghi respondeu a um jornalista que "não se trata de uma prioridade" e que "quando houver uma candidatura para esses fundos, então lidaremos com o assunto". Tendo o jornalista insistido se a documentação técnica seria publicada no site do BCE, caso se concretizem candidaturas, Draghi respondeu secamente: "Talvez".

As yields das obrigações do Tesouro (OT) português a dez anos prosseguem hoje o seu caminho oscilante. Tendo aberto a descer e depois subido entre as 8h20 e as 12h40, as yields das OT nesse prazo regressaram às descidas durante o anúncio do comunicado do Banco Central Europeu e a conferência de imprensa de Mario Draghi.