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O plano Obama para a mudança

O plano Obama para a mudança

O futuro presidente dos EUA tem um mega plano para recuperar a economia. Saiba quais os sectores e empresas mais beneficiados com o programa de Barack Obama e junte-se ao grupo

Joaquim Madrinha

A Cisco Systems, a General Electric e a Emcor Group, já ganham com o plano de investimento delineado por Barack Obama, que pretende reavivar a economia norte-americana com um choque tecnológico e um mega investimento nas infra-estruturas do país.

Enquanto gigantes como a US Steel e a Caterpillar foram chamados para construir 75,6 mil quilómetros de estradas, pontes e túneis, no mandato de Dwight Eisenhower na década de 50, desta vez, serão as companhias tecnológicas a assumir a responsabilidade de melhorar a eficiência de escolas e hospitais, aliviar o congestionado tráfego das grandes cidades e tornar os combustíveis alternativos numa alternativa real, dizem alguns analistas. O já eleito presidente e a sua equipa não avançaram com um número, mas o economista e conselheiro do partido democrata James Galbraith, aponta um investimento na ordem dos 698 mil milhões de euros.

"É um estímulo pouco tradicional", disse Frank MacInnis, o presidente executivo da Emcor Group, uma fabricante de sistemas de telecomunicações de voz, dados, energia eléctrica e iluminação."Estas prioridades da nova administração mostram como os sistemas tecnológicos são capazes de melhorar a eficiência das infra-estruturas já existentes", afirmou MacInnis.

O "único grande novo investimento na rede de infra-estruturas desde a criação do sistema nacional de auto-estradas na década de 1950" anunciado por Obama na rádio no dia 6 de Dezembro fez disparar os preços das acções do sector da construção e dos fabricantes de aço na sessão de bolsa seguinte. Empresas como a cimenteira Cemex, a Fluor, a Olympic Steel viram os preços das suas acções subirem quase 25 por cento ao longo da sessão.

Acções da Cisco respondem em alta

Os títulos da maior fabricante mundial de equipamentos de rede também não escaparam ao anúncio da boa nova e treparam 8,2 por cento, o dobro da valorização do índice tecnológico, o Nasdaq 100. No entanto, tal valorização poderá não ser suficiente para espelhar o benefício que este e outros fornecedores de equipamentos e serviços tecnológicos terão com a prossecução do plano de investimento de Obama, explicou à Bloomberg Dan Kusnetzky, o fundador da empresa norte-americana de consultoria tecnológica Kusnetzky Group.

Tal como aconteceu com o programa nacional de auto-estradas na década de 50, empresas como a Cisco Systems esperam que o governo encaminhe o país para uma economia de base tecnológica. "O presidente vai exigir mais e melhor aproveitamento das tecnologias", disse John Chambers, o presidente executivo da Cisco Systems, numa conferência da empresa no Estado da Califórnia.

Estradas inteligentes

Até algo tão básico como uma estrada pode tornar-se inteligente, avisando os utilizadores dos congestionamentos existentes e ajudando-os a encontrar o melhor caminho de forma que a o tráfego se mantenha fluido, disse o presidente executivo da Emcor. Em 1956, o programa de investimento reflectiu uma época de crescente utilização do automóvel, mas também o desejo de Eisenhower em melhorar as defesas domésticas durante a Guerra Fria. Hoje, Obama pretende montar um ambicioso programa interestadual de auto-estradas que reflicta a actual economia baseada na internet e nas tecnologias de informação. Em 1950, o sector manufactureiro pesava 27 por cento da economia norte-americana e empregava cerca de 30 por cento da população activa enquanto hoje pesa apenas 12 por cento e ocupa somente 10 por cento da força de trabalho.

35 mil empregos por cada mil milhões investidos

A reparação de estradas e pontes será um dos caminhos para a criação rápida de postos de trabalho. Por cada mil milhões de dólares gastos numa estrada são criados 35 mil novos empregos, de acordo com os dados da empresa de construção irlandesa a operar nos EUA, a CRH, o que leva Tobias Woerner, um analista da gestora britânica MF Global, a estimar que o Governo norte-americano tenha de investir entre 69,8 mil a 77,5 mil milhões de euros. Segundo o mesmo, tal investimento levará a um aumento de 20 por cento dos volumes de negócios das empresas de construção durante 2009 e 2010, e as principais beneficiárias serão a CRH, a francesa Lafarge, a suíça Holcim e a italiana Buzzi Unicem.

Cimento e aço

Seja na construção de redes de telecomunicações ou de auto-estradas, os fabricantes de aço, cimento e outros materiais básicos estão entre os beneficiados, explicou Michael Siegal, o presidente executivo da Olympic Steel numa entrevista. "Estamos muito atrás do ponto onde desejamos estar, seja em termos de estradas, pontes, parques eólicos, fábricas de etanol ou centrais nucleares", disse o mesmo. As acções da Olympic Steel treparam mais de 25 por cento na primeira sessão de bolsa desta semana e ontem valorizaram mais 10 por cento, enquanto os ADR (American Depositary Receipts) da mexicana Cemex, a maior produtora de cimento dos EUA, ganharam ontem 5,4 por cento depois de terem disparado 28 por cento na sessão de segunda-feira. Mas, além das auto-estradas e pontes, Obama pretende colmatar as necessidades das escolas e da rede de telecomunicações do país ao propor aumentar o numero de computadores e melhorar a cobertura de internet de banda larga nas escolas.

Economia cada vez mais complexa

"Dado o aumento da complexidade da economia, tais objectivos demonstram a sofisticação tecnológica da economia actual", disse o economista da Goldman Sachs, Alec Phillips. Obama disse também que efectuará um esforço massivo para melhorar a eficiência energética dos edifícios públicos o que poderá ser um trunfo para a General Electric que, em 2005, iniciou o programa ecoimagination, que baseia-se no desenvolvimento de produtos energéticos eficientes, como locomotivas, motores de avião, equipamentos para produção de energia, moinhos eólicos e painéis solares, e onde a empresa tem investido cerca de 1,4 mil milhões de dólares anualmente. Segundo o porta-voz da empresa, Peter O'Toole, a GE poderá também beneficiar do investimento em infra-estruturas para tratamento de água, iluminação e na rede inteligente de distribuição eléctrica, a smart grid. "Já trabalhámos em planos e programas nos últimos anos, o que torna o plano de investimento consistente com a nossa estratégia", disse John Rice, o vice-presidente da GE numa entrevista. "O desafio por detrás das palavras é pô-las em prática de forma a criar empregos o mais rápido possível", sublinhou o mesmo.

Investimento na saúde

O'Toole crê que o enfoque do presidente norte-americano em modernizar o sistema de saúde nacional também significa mais negócio para a GE. No entanto, quem já está a ganhar é a Allscripts-Misys Healthcare Solutions, que de acordo com o seu presidente executivo, Glen Tullman, viu o número de médicos que utilizam o seu sistema de prescrição de receitas multiplicar-se por 5 antes de qualquer dinheiro federal ser utilizado. A entrada acelerada do sector tecnológico no sistema de saúde, no sentido de reduzir custos e melhorar a eficiência, poderá envolver por si só cerca de 50 mil milhões de dólares, diz o presidente da empresa líder no mercado norte-americano de software para médicos e membro da campanha presidencial de Barack Obama.Ou seja, a actual economia tecnológica pode originar uma maneira diferente da usada há 50 anos para distribuir o dinheiro, mas a dança política para saber quem fica com ele deverá manter-se.

O valor do Sol

"A energia solar pode ajudar a economia, o ambiente e a segurança energética mais rápido que qualquer outro sector", disse Barry Cinnamon, o presidente executivo da Akeena Solar, uma empresa norte-americana produtora de painéis solares sedeada na Califórnia, sublinhando que a sua empresa pode criar empregos em 2 semanas e acrescentar 40 mil dólares de valor a uma casa por cada 10 mil gastos em painéis de energia solar.

Na opinião de Dwayne Wilson, o presidente executivo da Fluor, o plano de Obama deverá também ajudar os EUA a acompanharem a União Europeia no uso de redes de transportes públicos citadinas que ajudem a melhorar o tráfego nas cidades e a diminuir as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. "São oportunidades que o estímulo pode apoiar", diz Wilson, sublinhando que o país pode beneficiar no curto prazo da construção de linhas de comboio suburbanas e que os EUA ainda estão muito atrasados em relação à Europa na criação de parcerias público-privadas para a construção de infra-estruturas do género.

A Fluor detém 25 por cento da empresa que vai alargar e reconstruir 37 quilómetros de auto-estrada até 2010 e que opera e mantém 52 quilómetros de auto-estradas na Alemanha, dois contratos avaliados em mais de 248 milhões de euros. A empresa possui também várias parcerias público-privadas com os Estados britânico e holandês para a construção e manutenção de auto-estradas e linhas de caminhos-de-ferro nos dois países.



Independentemente da indústria, o principal objectivo do próximo presidente dos EUA é criar empregos, explicou Ron Hira, um professor de políticas públicas no Rochester Institute of Technology, em Nova Iorque. O segundo "é injectar dinheiro no sector tecnológico e de infra-estruturas para tornar os americanos mais produtivos no longo prazo", afirmou.