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Ilusão de um corpo perfeito

Os números pomposos da Herbalife caminham lado-a-lado com críticas de fraude e com a falta de optimismo da administração

Luís Leitão

Questionada por uns e adorada por outros, a Herbalife é talvez uma das empresas que mais ódios e amores tem suscitado pelos quatro cantos do mundo. A começar pela viabilidade do seu negócio, constantemente questionada com base em testemunhos de vários distribuidores que alegam ser incentivados a comprarem grandes quantidades de produtos, mesmo quando não conseguem vendê-los.

Também a ética da sua actividade, feita num regime de marketing de multinível, com os próprios consumidores a aliciarem outros consumidores a comprarem os produtos, é muitas vezes colocada em causa. O mesmo se passa com a veracidade e a própria qualidade dos seus produtos no combate ao excesso de peso, que têm sido alvo de várias acusações pelo mundo inteiro.

Porém, todas estas condutas são rapidamente abafadas pelos bons índices de produtividade da companhia norte-americana. É o caso da valorização de 165,35 por cento das suas acções desde que começaram a ser a cotar na bolsa de Nova Iorque em Dezembro de 2004 e, de hoje, além de por cada euro investido por acção a empresa gerar 71,42 cêntimos de lucro, ainda remunera os seus investidores com um dividendo equivalente a 1,64 por cento da cotação actual. Melhor ainda são as perspectivas de crescimento dos seus lucros para os próximos 3 anos, que segundo os 12 analistas que acompanham a Herbalife, deverá crescer a um ritmo de 17,70 por cento.

A outra face do sucesso

O escritor Mark Twain escreveu um dia que "há três tipos de mentiras: as mentiras, as mentiras horríveis e as estatísticas". No mundo da Herbalife esta é uma frase que poderá assentar como uma luva, pelo menos a contar com os factos apresentados pela Fraud Discovery, uma organização norte-americana que se dedica à detecção e prevenção de fraudes contra a população. Segundo o seu presidente, Barry Minkow, "a Herbalife é um crime financeiro". Uma das suas justificações prende-se com o crescimento das vendas.

Se, por um lado, a Herbalife fechou as contas de 2007 com vendas-recorde de 2,38 mil milhões de euros, um crescimento de 13,81 face a 2006, também é verdade que se tem verificado um declínio das receitas nos maiores mercados do mundo, como os Estados Unidos da América, vários países europeus e também o Brasil. O único mercado onde a Herbalife tem apresentado um forte crescimento tem sido o continente asiático, com especial atenção para a China.

No relatório de contas do ano passado, a Herbalife vincou com especial apreço a sua vontade de expandir o negócio até ao Império do Meio, identificando este mercado como "uma grande oportunidade". Porém, se não houver qualquer alteração ao regulamento, assinado em Dezembro de 2005, que rege as vendas directas e que proíbe os negócios em pirâmide e os regimes promocionais no país governado por Hu Jintao, percebe-se que a China não será um mercado viável no longo prazo para as contas da Herbalife.

Foi talvez a pensar nesta e noutras dificuldade que se avizinham que cerca de 70 por cento das participações accionistas dos principais directores da empresa foram desfeitas em 2008. Aliás, se já neste ano a venda de acções próprias dos administradores ascendeu a uma cifra de 29 milhões de euros, em 2007, o dinheiro amealhado pelo presidente da Herbalife, Michael Johnson, e os seus associados, atingiu um valor de 115,5 milhões de euros, ao mesmo tempo que a empresa acumulou um passivo de 248 milhões de euros, correspondendo a um valor superior a mais de 4 vezes o valor do seu capital próprio.