Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Dívida dos PIIGS ameaça bancos europeus

A banca europeia está altamente exposta à dívida do clube de risco da zona euro. Os próprios bancos dos chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) são credores em causa própria.

João Silvestre (texto), Jaime Figueiredo e Olavo Cruz (infografia) (www.expresso.pt)

No célebre livro "A Quinta dos Animais", de George Orwell ("Animal Farm" no título original também editado em português como "O Triunfo dos Porcos"), quem manda são os porcos. Na Europa, os PIIGS - o acrónimo anglo-saxónico que inclui Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha e, no fundo, associa estes países à imagem de porcos - eles também são uma ameaça. A crise da dívida pública grega, inicialmente circunscrita àquele país, começou a alastrar aos restantes países do grupo e obrigou à tomada de medidas que inicialmente estavam completamente postas de parte. A Europa tentou, primeiro, sossegar os mercados apenas com palavras, mas com o agravar da situação teve que ir alargando progressivamente a intervenção até chegar ao megapacote de €750 mil milhões aprovado no último fim-de-semana. Mas afinal porque é que um país que representa apenas 2% da economia da zona euro e 2,6% da União Europeia provoca tantos estragos? A principal razão é o risco de contágio aos PIIGS, não apenas pelo facto de os investidores internacionais os meterem todos no mesmo saco, mas também pelas fortes ligações financeiras entre estas economias.

PIIGS representam 35% do PIB da zona euro

E quando se olha para o conjunto o caso muda de figura. São cinco economias que representam cerca de 35% do produto interno bruto (PIB) da zona euro, mais que a Alemanha. O mesmo acontece com a dívida detida por bancos. Enquanto os bancos europeus têm a receber da Grécia €147,1 mil milhões (entre dívida pública e privada), de acordo com os últimos dados do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), a exposição dispara para €2,3 biliões quando se juntam os restantes PIIGS. É uma verba astronómica que representa cerca de quatro vezes os activos do Lehman Brothers quando apresentou falência. A ameaça espanhola Só a Espanha devia no final do ano passado €893,7 milhões a instituições financeiras do Velho Continente. Um número de impor respeito, que coloca a economia espanhola num patamar de ameaça superior e que explica a euforia com que os investidores receberam o novo pacote de austeridade de Zapatero apresentado esta semana. Num artigo que o Expresso publica na página 11, a revista "The Economist" sublinha precisamente que um colapso de Grécia e Portugal não colocaria em causa a banca europeia, mas se fosse a Espanha o caso seria bastante mais sério. Além disso, estes países têm entre si ligações financeiras que ajudam a propagar as ondas de choque. Por exemplo, 30% dos créditos bancários internacionais sobre Portugal são espanhóis. E são credores em causa própria: 13% da sua dívida externa detida pelo sistema financeiro está nos seus próprios bancos.

Turbulência financeira

O sector financeiro é o meio de transmissão mais eficaz da turbulência financeira. Foi assim que a crise do (crédito hipotecário de alto risco), dos Estados Unidos, contagiou rapidamente a Europa. Não é por acaso que a banca tem sido um dos sectores mais penalizados nas bolsas. O DJ Eurostox 50, índice que mede o desempenho de 50 grandes empresas de 12 países da zona euro (entre os quais Portugal), esteve a perder, no final da semana passada, 15% face ao início do ano e o seu sub-índice para a banca tinha uma queda do dobro deste valor. Normalizar o mercado e manter o sistema financeiro a funcionar é a justificação do Banco Central Europeu para ter decidido avançar, esta semana, com a compra de dívida pública de países europeus. Uma decisão inédita, que muitos consideram violar os tratados e pôr em causa a independência do banco face ao poder político, embora o seu presidente, Jean-Claude Trichet, tenha recusado essa interpretação. Os grandes credores bancários dos PIIGS são a Alemanha e a França que têm, no conjunto, 43% da dívida externa das economias dos PIIGS. O economista belga Paul de Grauwe, num artigo publicado esta semana no site Vox, lembrava que, nem que fosse por interesse próprio para proteger os seus bancos, países como a Alemanha ou França tinham que salvar a Grécia. Na realidade, embora a banca norte-americana tenha alguma exposição, a grande fatia das dívidas está em bancos europeus.

Bolsas aliviam dos ganhos

Por isso, as bolsas europeias, que tiveram um dia de ganhos históricos na segunda, após o anúncio da decisão em Bruxelas, acabaram por voltar a cair na terça, regressando aos ganhos, mas ligeiros, a partir de quarta. No saldo desde o início do ano, muitas continuam no vermelho. Entre as mais afectadas na Europa estão naturalmente as do clube de risco: Lisboa, Atenas (-21,8%), Madrid (-15,5%) e Milão (-9,54%). A excepção é a Irlanda, com uma subida ligeira. Em Portugal, a tendência foi semelhante e a banca também foi apanhada no turbilhão da crise da dívida soberana. Os bancos portugueses não apenas estão, naturalmente, expostos à nossa economia e à dívida pública nacional, como têm quase €30 mil milhões de créditos sobre os PIIGS. Só na Grécia são mais de €7000 milhões. Mesmo sem um cenário limite de incumprimento, a queda das cotações destas obrigações (que variam inversamente com os juros) afecta as suas carteiras de activos. Quem também está a ser apanhado nesta desconfiança económica e política sobre a zona euro é a moeda única, que já derrapou 12% contra o dólar este ano. Afinal, os PIIGS são países periféricos mas estão demasiado ligados aos seus parceiros. O pacote europeu acabou por ser a resposta necessária para afastar a ameaça de colapso que pairava sobre a moeda única e cujos estragos iam já muito além da zona euro.